Ciclismo

O miúdo Seixas pedalou no planeta Pogačar, mas Tadej expulsou-o para vencer a Liège-Bastogne-Liège

Pogačar a acelerar com Seixas na roda durante o duelo entre ambos na Liège-Bastogne-Liège
Pogačar a acelerar com Seixas na roda durante o duelo entre ambos na Liège-Bastogne-Liège
Pool

O prodígio francês aguentou até perto do fim na roda do esloveno, que acabaria por distanciar-se do prodígio de 19 anos e chegar isolado à meta. É o quarto triunfo de Pogi na corrida belga, no seu 13.º monumento, cada vez mais perto do recorde de 19 de Eddy Merckx

O miúdo Seixas pedalou no planeta Pogačar, mas Tadej expulsou-o para vencer a Liège-Bastogne-Liège

Pedro Barata

Jornalista

Havia qualquer coisa de incomum na imagem, como quando a emissão vista numa televisão antiga surgia gagejante, com chuva, cheia de interferências no sinal. Parecia existir um equívoco de guião, uma anomalia.

Só que o problema não era técnico nem vinha do passado. Era o futuro que é presente.

Tadej Pogačar resolveu que seria no Côte de la Redoute, subida curta (1,6 quilómetros), mas inclinada (9,1% de inclinação média), que voaria para ganhar a Liège-Bastogne-Liège, la doyenne, clássica antiquíssima, com edição inaugural em 1892, uma das cinco corridas de um dia mais importantes das bicicletas. E foi aí que o bug entrou no sistema.

Ditam as regras recentes do ciclismo que o esloveno quer, o esloveno faz. A UAE preparou a aceleração, o dono da camisola arco-íris mudou de velocidade, ninguém seguiu na roda.

Ninguém? Não. Um gaulês solitário ergueu-se como único resistente. Chama-se Paul Seixas, tem ascendência portuguesa e conta com meros 19 anos. Durante 20 quilómetros, até à derradeira dificuldade, o francês acompanhou o rei-sol. Foi ao planeta onde só vive Pogi.

Claro que o esloveno teria de expulsar o invasor. Um está na plenitude das suas forças, chegou ao 112.º triunfo na carreira, em 2026 leva quatro vitórias em cinco dias de corrida. Chegou ao terceiro monumento da temporada, após Sanremo e Flandres, mais o segundo em Roubaix.

O festejo de Tadej
Dario Belingheri

A 112.ª edição da Liège-Bastone-Liège contava com os cinco últimos triunfadores, com Pogačar somando três e Remco Evenepoel duas. A grande expetativa residia, no entanto, em saber o que faria Paul Seixas, o menino que já soma sete conquistas em 2026, a primeira delas no Alto da Fóia, na Volta ao Algarve.

Foi a 35 quilómetros do fim que se soube que Remco não chegaria ao hat-trick. Ficaria, também, evidente nova camada do fenómeno Seixas, da história que vemos em direto.

Há quem lhe chame o melhor corredor de 19 anos da longa história do ciclismo. Ganhou a Volta ao País Basco, ganhou a Flèche Wallone, só ficou atrás de Pogačar neste monumento. Estava previsto que a Decathlon, outrora modesta equipa francesa que ganhou recentemente um endinheirado novo patrocinador, protegesse Seixas em 2026, não o levando a qualquer grande volta. A cada proeza, a cada nova corrida, cresce a pressão para que Paul vá ao Tour, o maior dos palcos. Um francês não vence a Volta a França desde 1985, então com Bernard Hinault. Será possível resistir à pressão?

Talvez aqueles 20 quilómetros, os 20 quilómetros a que não estamos habituados, tenham sido um vislumbre do futuro. Um futuro em que o rei-sol pode passar a ter uma sombra.

No presente, o menino foi afastado no Côte de la Roche-aux Faucones, 1,3 quilómetros a 10,1%. Pogi, sentado, imprimiu um ritmo que Seixas, sofrendo, foi incapaz de seguir.

O esloveno triunfaria com comodidade, chegando 45 segundos à frente de Seixas. Remco Evenepoel ainda agarrou o terceiro lugar.

A quarta Liège-Bastogne-Liège de Pogačar fá-lo igualar as marcas de Moreno Argentino e Alejandro Valverde. Eddy Merckx, com cinco, é o recordista, tal como é o dono do maior número de monumentos, com 19 das principais competições de um dia. Tadej vai em 13.

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