Ciclismo

O infalível Nelson Oliveira, o discreto rei da regularidade da história do ciclismo

Nelson Oliveira iniciou 24 grandes voltas, concluindo-as todas. É algo inédito no ciclismo
Nelson Oliveira iniciou 24 grandes voltas, concluindo-as todas. É algo inédito no ciclismo
Tim de Waele

Principiou 24 grandes voltas, concluiu-as todas. O veterano português fixou um novo recorde, sendo o ciclista que mais vezes competiu no Tour, Giro e Vuelta sem nunca abandonar. São 15 anos e 504 etapas sem nunca se deixar travar por quedas, lesões ou cansaço

O infalível Nelson Oliveira, o discreto rei da regularidade da história do ciclismo

Pedro Barata

Jornalista

Participar em 24 grandes voltas significa, desde logo, ser 24 vezes escolhido por equipas do World Tour, a Liga dos Campeões do ciclismo, para integrar coletivos que compitam nos picos mais altos da molidade. De seguida, é preciso alinhar à partida em 21 etapas em cada corrida, 504 jornadas no total.

São 504 dias em que se pode acordar mais ou menos cansado, com o corpo debilitado à medida que as três semanas de cada grande volta avançam, as doenças à espreita. São 504 dias a fugir a quedas, ou a ter quedas e a levantar-se e seguir. São 504 dias a chegar dentro dos limites de tempo, não sendo eliminado num ciclismo onde se acelera cada vez mais. Há mil e um motivos para ceder, cada curva esconde um perigo, mas escapa-se sempre ileso.

É esta a vida de Nelson Oliveira nos últimos 15 anos. Desde que debutou na Vuelta em 2011, então pela Radioshack, o homem de Vilarinho do Bairro, Anadia, correu as maiores provas por etapas das bicicletas em 24 ocasiões. Concluiu-as todas, algo inédito.

O Tour que agora terminou deixou o português, da Movistar, isolado neste recorde. Até cortar a meta em Paris, Oliveira partilhava o registo com o polaco Sylwester Szmyd, que correu o Tour, o Giro e a Vuelta no total de 23 vezes, chegando sempre ao fim. Nelson elevou a fasquia para 24.

Nelson Oliveira concluiu o seu 10.º Tour
NurPhoto

A marca do português, de 37 anos, divide-se entre as 10 participações no Tour, as 10 na Vuelta e as quatro no Giro. O jornal Record fez as contas: são 72.658,2 quilómetros em competições de três semanas, o que dá quase duas voltas ao mundo pela linha do equador, representa 19% da distância total entre a Terra e a Lua e equivale a fazer 231 vezes o trajeto entre Lisboa e o Porto.

Pouco amigo dos holofotes, o veterano reconheceu, à Lusa, ser “especial" chegar a este recorde, mas mantendo a postura discreta: “Nunca foi o meu forte [ser protagonista]. Sempre foi trabalhar em prol da equipa e acaba por ser um reconhecimento, nada mais”, comentou.

Nos últimos dias, a imprensa internacional foi realçando o feito do homem da Movistar. Em entrevista ao espanhol AS, Oliveira reconheceu ser “difícil” acabar 24 grandes voltas, assegurando que “não é uma questão de sorte“. Há sempre ”dias maus“, com ”doenças ou pequenos acidentes“, mas ”o importante é levantar e continuar a pedalar", diz quem chegou a correr com uma costela fissurada num Tour.

O fiel companheiro

Nelson Oliveira é a personificação da figura do gregário, um homem de trabalho no pelotão. Ao longo da última década e meia, a sua regularidade, fiabilidade e qualidade ao serviço em prol de outros fê-lo um dos mais respeitados nomes do ciclismo mundial.

Depois de entrar no World Tour em 2011, pela porta da Radioshack, nunca mais saiu da divisão máxima. Seguiu-se a Lampre, onde trabalhou para Rui Costa, com quem muito correu pela seleção nacional, entrando na Movistar em 2016 e não mais abandonando a histórica equipa espanhola.

A vitória numa etapa da Vuelta 2015 é o grande êxito individual da carreira de Oliveira
Tim de Waele

Auxiliou Nairo Quintana a terminar no pódio do Tour e Enric Mas e Alejandro Valverde a concluir no pódio da Vuelta, tendo o grande momento de brilho individual justamente na corrida espanhola, em 2015, quando ganhou uma etapa. Estaria várias vezes perto de voltar a levantar os braços, nomeadamente na segunda etapa do Tour 2024 ou na oitava do Giro 2021.

Individualmente, a sua especialidade foi sempre o contrarrelógio. Foi terceiro na luta contra o tempo em tiradas do Tour e do Giro, logrando resultados assinaláveis com a camisola de Portugal vestida: concluiu seis vezes no top 10 de Mundiais, ficando a sete segundos do bronze em 2017, e duas vezes no top 10 de Europeus, ficando a 17 segundos do bronze em 2016. Tetracampeão nacional no contrarrelógio, obteve dois diplomas olímpicos, no Rio e em Paris, com as suas quatro presenças em Jogos a serem um máximo para o ciclismo português.

Aos 37 anos, o Tour que acaba de concluir demonstrou um Oliveira ainda cheio de forças, entrando quatro dias em fugas. Com contrato até 2027, a regularidade de Nelson não parece ter fim previsto.

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