Quem era Finlay Tarling, o ciclista saído de uma aldeia de Gales para pedalar contra o tempo
Finlay Tarling, em 2024, com uma das três medalhas de bronze que conquistou nos Mundiais juniores de ciclismo de pista
Com um pai fã de ciclismo, Finlay Tarling, irmão também de ciclista profissional, era criança quando começou a entrar em provas no estrangeiro. O galês que morreu esta sexta-feira, aos 19 anos, durante a 8ª etapa da Volta a Portugal, era um especialista em contrarrelógio e vaticinavam-lhe um futuro a pedalar nas clássicas de um dia
Ele a desafiar o tempo, ou ele e duas rodas, os pés presos aos pedais, e os ponteiros dos minutos e dos segundos a fugirem. “Os contrarrelógios deverão tornar-se a minha disciplina preferida”, profetizou Finlay Tarling em jovem, ainda mais jovem, na emblemática Chronos des Nations de 2023, prova de um dia, especial por encerrar a temporada de ciclismo em França, particular ao ser apenas um ciclista sozinho, de cada vez, a pedalar contra o tempo.
O galês tinha 17 anos, feliz da vida estava. Vira de fresco o irmão, Joshua, a vencer a contenda sénior. Finlay morreu esta sexta-feira, 14 de agosto, na 8ª etapa da Volta a Portugal que ligava Melgaço a Fafe com 166,8 quilómetros de troço.
Calmeirão de tamanho para quem vive a pedalar, os seus 1,86 metros na altura não o impediam de ser já um prometedor ciclista: a pedalar no escalão júnior, acabou no 2º lugar (por um segundo) no tal Chrono des Nations, quase tão bom como a proeza do mano, o mais conhecido dos Tarling, ciclista da INEOS, hoje campeão europeu de contrarrelógio e então mais rápido até do que Remco Evenepoel, especialista na disciplina. “Foi a festa de família perfeita”, disse então, ao Sporza, site da Bélgica, um Finlay que prevaricava contra o tempo, também para longe do cardume de ciclistas na estrada: “Gosto de atacar.”
Foi na retaguarda, quando descolou um pouco do pelotão e se deixou ficar para trás, que “houve uma colisão do ciclista com um viatura ligeira”, confirmou, num primeiro momento, a Guarda Nacional Republicana. Aconteceu na passagem da etapa da Volta a Portugal em Ponte de Lima - mais tarde, a GNR referiu ter sido um atropelamento. Nunca nas 86 edições anteriores da prova-rainha do ciclismo nacional houvera uma morte na estrada.
Era o alcatrão que encantava Finlay Tarling, nascido em Ffos-y-ffin, uma aldeia pitoresca no oeste do País de Gales. Finda a adolescência, a ter que tricotar a junção da carreira júnior com a entrada no ciclismo profissional, dizia, ou “tinha que admitir”, sonhar “principalmente com a estrada”. Ou seja, para longe dos seus primórdios. O pai, Michael, era fã de velódromos, pedalador lúdico na pista, eram os filhos rebentos e quis plantar-lhes logo o gosto.
Finlay tinha meia-dúzia na idade quando começou a entrar em provas, e a ganhá-las, em Gales e no estrangeiro. Aos 15 já estava na Flanders Colorgalloo, uma equipa belga, dali a pouco saltaria para o Willebrord Wil Vooruit, clube de ciclismo neerlandês. Com essa cores vestiu as primeiras licras, competindo até nas versões para a juventude da Liège-Bastone-Liège e da Paris-Roubaix, ambas corridas de um dia, no caso as maiores clássicas (Monumentos) do ciclismo para onde as virtudes do galês pareciam destinadas.
Acabou essas experiências no 48º e 24º lugar, auspícios suficientes para a Israel - Premier Tech Academy, então no ProTour, a segunda divisão internacional para as equipas de ciclismo, o ir buscar em 2024. “As óbvias qualidades do Fin”, assim o tratou, pela alcunha, Tim Elverson, diretor da academia, “fazem dele um especialista no contrarrelógio”, disse ao site ProCyclingUK. “Mas, com algum trabalho, acredito que irá esticar as suas pernas, no futuro, em corridas como as clássicas.”
Era uma pedalada mais rumo à “ambição” adolescente de Finlay Tarling, quando confessou querer “um contrato com uma equipa do World Tour”, o patamar de elite do pelotão internacional. Porém, de quando em vez, o velódromo atraía-o: há dois anos, nos Mundiais de pista júnior, regressou com três medalhas de bronze.
O desiderato de palmear alcatrão entre a elite estava perto. Reformulada a sua equipa por empurrão, forçada pela contestação que a rodeava (por vir do país que vem, e por se passar o que se passa na Faixa de Gaza), mudou de nome este ano e ascendeu à principal divisão do ciclismo. Chama-se NSN Cycling Team e Finlay Tarling pertencia à NSN Development Team, espécie de equipa B da formação. Com ela estava na Volta de Portugal.
Foi o 15º mais rápido entre os 113 ciclistas do pelotão na quinta etapa, a única assente num contrarrelógio. Esta temporada já pedalara tanto em contextos ainda humildes, caso do Giro d'Itália Next Gen (para jovens), como em troços mais exigentes, com homens feitos a rodeá-lo, no Tour do Ruanda - onde fez um 2º e um 4º lugares em etapas - e no Tour do Reino Unido. Nos Campeonatos Nacionais britânicos, só dois ciclistas o baterem no contrarrelógio. Era a fugir ao tempo que Finlay Tarling se destacava. Ficou sem ele aos 19 anos.