Ciclismo

Carro que atropelou Finlay Tarling na Volta a Portugal entrou “por um acesso secundário“ e “não vinha em contramão“

Os responsáveis da Volta a Portugal a falarem à imprensa, em Fafe, no dia da morte de Finlay Tarling
Os responsáveis da Volta a Portugal a falarem à imprensa, em Fafe, no dia da morte de Finlay Tarling
NurPhoto

O acidente que causou a morte ao galês, de 19 anos, durante a 8ª etapa da Volta a Portugal, aconteceu após numa descida onde Finlay Tarling seguia a alta velocidade após se afastar do carro de apoio da sua equipa, embatendo contra uma viatura que entrou no percurso por julgar que o pelotão já tinha passado. O ciclista “soltou-se da viatura de apoio” e a GNR “não conseguiu acompanhá-lo”, explicou Carlos Canatário, tenente-coronel da Guarda, à RTP

No dia da tragédia, a quente no meio do caos, houve uma consonância: não era momento para especular, ainda menos para adivinhar. O pedido veio de Cândido Barbosa, o presidente da Federação Portuguesa de Cicislimo, esteve na voz de Ezequiel Mosquera, diretor da Volta a Portugal, e também por outras palavras na intervenção do representante da Guarda Nacional Republicana (GNR) em Fafe, na sexta-feira, pouco após o acidente que causou a morte a Finlay Tarling. Havia que dar tempo à investigação.

Os primeiros pormenores do que pode explicar o acidente que vez um carro colidir com o ciclista galês durante a 8ª etapa da Volta surgiram logo no sábado: Finlay Tarling descolou do pelotão na passagem por Ponte de Lima, estava com o carro de apoio da sua equipa numa subida a que se seguiu uma descida, onde largou o veículo, ganhou velocidade e, ao abrir a sua trajetória numa curva, embateu com uma viatura de um civil que entrou no percurso da prova por julgar que todos os ciclistas já tinham passado.

É o resumo das explicações dadas por Carlos Canatário, tenente-coronel da GNR, em entrevista à RTP. A viatura não vinha em contramão. Vinha na via da direita, na sua mão. Vinha era em sentido contrário ao sentido da prova. E o ciclista cortou - como é natural, como os ciclistas fazem – a curva pela via mais à esquerda, e foi isso que fez com que o ciclista e a viatura colidissem”, disse, contrariando as primeiras informações relatadas no dia do acidente, inclusive pelas autoridades.

O oficial da Guarda, indicando que ainda há um inquérito a decorrer para determinar, entre outros aspetos, qual era a sinalização montada na via por onde o condutor entrou no circuito da Volta, e se alguma pode ter sido removida, informou que se tratava de “um acesso secundário”. O homem terá questionado a outras pessoas no local se o pelotão já tinha passado pela zona antes de entrar no percurso. “Como esperou ali algum tempo e não vinha mais ninguém, perguntou se podia avançar.” Quando o fez, o carro-vassoura da Volta, veículo que segue os ciclistas na cauda do pelotão, ainda estava por chegar.

“Conjugação de fatores”

Aquando do acidente, descreveu Carlos Canatário ao canal público de televisão, o pelotão “estava partido em três” e Finlay Tarling era “um de três ciclistas que tinham ficado para trás”. Por norma, em qualquer prova de ciclismo as viaturas da organização e da GNR tratam de quase os escoltar - mas, desta feita, a GNR não conseguiu acompanhar o galês da equipa NSN Development. “O dispositivo móvel estava a adaptar-se. É necessário perceber esta dificuldade: ao longo de toda a prova, o dispositivo móvel tem de estar sistematicamente a adaptar-se porque a configuração do pelotão vai mudando.

Os dispositivos da Guarda na retaguarda do pelotão eram “os habituais”: um carro e duas motos que se estavam “a desdobrar” para “encostarem a cada um dos três ciclistas”. O oficial lamentou a “conjugação de diversos fatores que levaram a este desfecho”, garantindo que “aquilo que estava planeado fazer foi feito, não houve desvios na operacionalização do planeamento”. Carlos Canatário ainda acrescentou ser “humanamente impossível” colocar um militar da GNR em cada acesso ao percurso de uma etapa. Já na sexta-feira, dia do acidente, Ezequiel Mosquero, diretor da Volta, explicara ser muito difícil de controlar um estádio de 1300 quilómetros de extensão“, aludindo à rota completa da prova.

Sobre o condutor da viatura que colidiu com Finlay Tarling, referiu que não apresentou indicíos de consumo de álcool ou de substâncias psicotrópicas nos testes feitos ao sangue.

A Volta a Portugal conclui este domingo, no Porto, cercada por esta tragédia - nunca um ciclista morrera durante em 87 edições da prova. Lá fora, a Cyclistes Professionnels Associés, principal associação de ciclistas internacional, manifestou-se “sem palavras e cheia de raiva” face à morte de Finlay Tarling e o seu presidente, Adam Hansen, defendeu à BBC a necessidade de robustecimento dos capacetes utilizados pelos atletas face às velocidades a que se deslocam em prova: “Tem de haver uma revisão. Os capacetes de biciclesta são submetidos apenas a testes gerais e comuns no standard da União Europeia, que está homologado para os 19,5 km/h. Isto não é suficiente para provas de estrada.”

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