Cristiano Ronaldo

Ronaldo volta a não jogar pelo Al-Nassr no dia em que a liga saudita lembrou que “nenhum indivíduo determina as decisões” do seu clube

Pelo segundo jogo seguido na mesma semana, Cristiano não vai estar em campo pelo Al-Nassr
Pelo segundo jogo seguido na mesma semana, Cristiano não vai estar em campo pelo Al-Nassr
Yasser Bakhsh

Pelo segundo encontro seguido (este contra o Al-Ittihad, de Sérgio Conceição), Cristiano Ronaldo não consta sequer na ficha de jogo do Al-Nassr. Continua assim aceso o suposto descontentamento do capitão da seleção nacional com o clube, alegadamente, devido à falta de investimento no plantel

A perspetiva, mãe das nuances, exerce o seu domínio sobre quase tudo. Vejamos: o que é uma multa a rondar os 11 mil euros aplicada a um treinador de futebol por não comparecer a uma conferência de imprensa quando se diz que o seu salário anual ronda os €12 milhões? Perante tal escala, um outro castigo com valor a duplicar que o mesmo Jorge Jesus também terá de pagar à Federação Saudita de Futebol ao repetir a falta de comparência pela segunda vez esta semana. Não se trata, contudo, de um esquiva isolada ao momento de responder às perguntas dos jornalistas.

A decisão do técnico do Al-Nassr de não ir ao momento de antevisão ao jogo desta sexta-feira, contra o Al-Ittihad, empanturrada ficou de relevância por estar refém de uma perspetiva maior: ao escusar-se de novo à obrigação, Jorge Jesus acentuou a gravidade da suposta pirraça a ser feita por Cristiano Ronaldo, o futebolista mais bem-pago do mundo, provavelmente também o mais conhecido, que se estará a recusar a jogar pelo seu clube.

A ausência de Jorge Jesus e subsequente multa que terá de arcar fizeram antever que outra reincidência vinha a caminho da parte do capitão do Al-Nassr. Tal como na partida frente ao Al-Riyadh, equipa no sopé do campeonato saudita, Ronaldo não consta esta sexta-feira na ficha do jogo contra ao Al-Ittihad, de Danilo Pereira e Roger Fernandes, treinado por Sérgio Conceição e rival do Al-Nassr na luta pelo título apesar da 6ª posição que ocupa na liga.

Nada mudou a fotografia que Cristiano publicou na quinta-feira, dia em que soprou 41 velas, para mais de 600 milhões de seguidores no Instagram, na qual aparecia a treinar no relvado. “💛💙” foi legenda, dois corações com as cores do Al-Nassr, um post genérico como tantos outros que lá estão com imagens suas a treinar no Al-Nassr.

Já esta sexta-feira, em resposta à BBC, a Saudi Pro League disse que “nenhum indivíduo, por mais significativo que seja, determina as decisões para lá do seu próprio clube”. O que não é a mesma coisa de nenhum futebolista ter uma palavra a dizer na gestão do clube. “O Cristiano tem estado totalmente comprometido com o Al-Nassr desde a sua chegada e desempenhou um appel importante no crescimento e ambição do clube. Como qualquer competidor, ele quer ganhar”, pintalgou o mesmo porta-voz do campeonato da Arábia Saudita, ao dar a primeira reação oficial do futebol saudita à postura de Ronaldo.

A BBC ou o The Athletic chegaram a sugerir que a causa do desgosto do português seria a transferência de Karim Benzema de um equipa grande da Arábia Saudita para outra. Ao ir aterrar no Al-Hilal após protagonizar uma desavença com o Al-Ittihad, o avançado francês, de 38 anos, demonstrou o forte investimento que o líder do campeonato mantém sua equipa. Mas o jornal ABola, ao avançar com a notícia do finca-pé do português na segunda-feira, distribuiu por vários motivos a pirraça do português.

O que se passa?

Um deles era o alegado esvaziamento de funções de Simão Coutinho e José Semedo, diretor-desportivo e CEO do Al-Nassr, ambos amigos do homem cuja cenoura mais recente posta diante das suas intenções é a perseguição dos 1000 golos marcados na carreira - vai em 961, os últimos 117 marcados na Arábia Saudita. A relação com Cristiano não terá sido inocente para a chegada de ambos ao clube, no último verão.

Outro era o descontentamento do português com a falta de investimento do Al-Nassr, opulento clube que desde a chegada de Ronaldo, há três anos, já gastou €409 milhões a contratar jogadores, um esbanjar só possível por ser um de quatro clubes que tem o Fundo de Investimento Soberano (PIF) do país como dono de 75% do seu capital. Ou seja, pode fazer compras e pagar salários ao alcance de poucos: só o Al-Hilal (€694 milhões) gastou mais durante esse período.

Não ficou claro se o descontentamento do capitão do Al-Nassr, portador da braçadeira desde o primeiro encontro para o qual se equipou, em 2022, estará piurso com a falta de investimento dos dirigentes do endinheirado clube que lhe paga um salário para lá dos €200 milhões anuais, ou se com o PIF - e, por arrasto, com o reinado que organizará o Mundial de 2034 do qual Cristiano é um embaixador.

As suas redes sociais assim o provam, além da relação próxima com Mohammed Bin Salman, princípe herdeiro saudita: em novembro, Ronaldo jantou com ele e Donald Trump, na Casa Branca, no dia seguinte a uma delegação do reinado visitar o presidente dos EUA.

No comunicado enviado à BBC, a liga saudita pareceu querer esclarecer esse ponto. “O campeonato está estruturado em torno de um princípio: os clubes operam independentemente sob as mesmas regras. Cada um tem a sua direção e liderança. As decisões quanto a contratações, gastos e estratégia residem nos clubes, dentro de uma estrutura desenhada para garantir a sustentabilidade e balanço competitivo”, terá escrito, sem se rir, quem organiza a prova onde só quatro de 18 equipas têm o beneplácito milionário do PIF.

A contratação de Benzema pelo Al-Hilal, neste mercado, contrasta com as chegadas ao Al-Nassr de Haydeer Abdulkareem, jogador iraquiano vindo do Al-Zawra’a, do seu país, e de Abdullah Al-Hamdan, um avançado saudita contratado ao clube que colmatou a sua saída com um goleador que tem cinco troféus da Liga dos Campeões numa prateleira lá de casa. Também a isso a Saudi Pro League quis responder: “Um clube fortaleceu-se de uma particular forma. Outro escolhou uma abordagem diferente. Ambas foram decisões tomadas pelos clubes.”

Quando terminar, em Riade, o Al-Nassr-Al-Ittihad sem a estrela mais cintilante do futebol saudita, Jorge Jesus terá de escolher se aparece, ou não, na conferência de imprensa. O próximo jogo na agenda é a 11 de fevereiro, a contar para a Liga dos Campeões 2, o equivalente à Liga Europa do Médio Oriente. Quando essa partida chegar, Ronaldo, o capitão da seleção nacional, estará há quase duas semanas sem competir - a quatro meses do Mundial começar.

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