Enquanto Ronaldo não diz “a verdade“, mais um amigo saiu em sua defesa
Adeptos com a camisola de Ronaldo da seleção nacional durante um jogo de Portugal no Mundial de 2026
Alex Pantling - FIFA
Enquanto Cristiano não diz “a verdade” como anunciou que dirá “a seu tempo”, os amigos do capitão que abandonou o estágio da seleção nacional vão fazendo a sua defesa. Agora foi Pies Morgan, comunicador inglês, a criticar Jorge Jesus, ao apelidá-lo de “um imbecil arrogante” por alegadamente mentir a Ronaldo. No quase monólogo de 10 minutos que dedicou ao tema do momento no seu programa semanal, disse que o treinador, a quem chamou “o Ten Hag do futebol internacional”, devia “agradecer ao Ronaldo por ser o maior jogador português da história“
Estão quatro homens em estúdio, diante das câmaras. Às tantas, um deles diz ao cicerone da ocasião: “Tira a cabeça dentro do teu próprio rabo e sê objetivo.” Não seria a primeira vez que alguém chamaria a atenção a Piers Morgan.
Conhecido em latitudes portuguesas por ser amigo de Ronaldo e depois, só depois, um jornalista, o anfitrião já se dedicara, nos dias anteriores a segunda-feira, entre outras coisas, a anunciar na sua conta de X que iria falar acerca da novela do momento. E lidar com Jorge Jesus, a quem chamou “Ten Hag português” ou “imbecil arrogante”, urgindo as pessoas a verem o seu programa para “ficarem mais bem informadas”.
Deixado o tema para o equador do “Football Uncensored”, de periodicidade semanal e onde diz versar sobre o mundo da bola sem filtros, Piers Morgan introduziu o assunto em tom sóbrio, como se nada fosse. “Muitas coisas se escreveram sobre ele desde que abandonou o estágio da seleção”, disse na introdução, ao questionar um dos painelistas pela sua opinião e, de resposta, ouvir que Cristiano “já não é mimado como antes era”. Aí começou o seu solilóquio de quase 10 minutos durante o qual as intervenções dos restantes foram meras vírgulas.
De amizade confessada e professada com Ronaldo, quem entrevistou logo após a sua conturbada saída do Manchester United pouco antes do Mundial de 2022, o comunicador inglês baseou o seu caso numa “citação” atribuída a Carlo Ancelotti”que está a ser muito partilhada nas redes sociais”, sobre Luka Modrić, quando ambos ainda estavam no Real Madrid: “Não quero pô-lo a aquecer se não tenho a certeza de que vai jogar. Respeito-o demasiado para isso.” Morgan já a tinha partilhado no X através de uma publicação de Fabrizio Romano, outro comunicador, este mais influenciador de transferências e mexericos.
Isto “não tem nada a ver com dinheiro, fama e essas coisas”, mas com “as garantias absolutas” dadas por Jorge Jesus a Cristiano quanto à forma “como seria utilizado”, razão invocada por Piers Morgan para o capitão foragido da seleção nacional ter decidido “prosseguir a sua carreira internacional” após o Campeonato do Mundo. Nada de novo até aqui, apenas uma repetição da narrativa defendida nos dias anteriores por quem é amigo ou admirador de Ronaldo, coisas por vezes postas por diante de ser jornalista. Mas, neste caso, houve nuances.
Antes dissera-se que Jesus supostamente apalavrou com Cristiano que este jogaria o primeiro e o quarto encontros da fornada que passou da Liga das Nações, agora Piers Morgan alegou que acordo era para o quarentão estar “nos dois primeiros e descansar nos outros dois”. O inglês diz que o treinador disse ao jogador que teria 90 minutos na partida contra o País de Gales, mais um diz-que-diz, e no seu interior acrescentou que Ronaldo “ficou chateado” por sair aos 67 minutos.
Explanado na mesma frequência do feito por Edu Aguirre, outro amigo do futebolista, na semana passada em Espanha, no programa “El Chiringuito“, o relato de Morgan contou que Jesus terá pedido perdão ao capitão de Portugal, também a Pedro Proença, cedendo de que iria “explicar em público que tal não deveria ter acontecido”. O treinador, no domingo, negou tal coisa — “Pedir desculpa do quê? A quem? Eu não peço desculpas a ninguém.”
No resto da sua reconstituição dos acontecimentos, Piers Morgan alegou que o treinador “fez o contrário” do acordado com Cristiano e, mais ainda, “fez um Ten Hag”, adjetivação pessoalizada no exemplo do técnico neerlandês que estava no Manchester United aquando da saída turbulenta do português, em 2022, pouco antes do Mundial: recusou-se a entrar numa partida a três minutos do fim e faltou depois a treinos alegando motivos familiares.
Esse seria um tempo profícuo para o comunicador inglês: teve a primeira entrevista dada por Ronaldo após a tal outra polémica que protagonizou em Inglaterra, uma de várias que o português já lhe deu. Fixado no topo da sua página de X, para ser a primeira coisa com que uma pessoa se depara ao clicar no seu nome, está um pequeno excerto de uma dessas conversas. São 12 segundos de vídeo onde Cristiano o elogia— “consigo ver que tens uns bons abdominais”.
Voltando à defesa feita por Piers Morgan, a sua crítica visou Jorge Jesus por o treinador “tentar apequenar e humilhar o Ronaldo, e pô-lo na sua caixa, ao dizer que todos os jogadores são importantes e bla, bla, bla”. Referiu-se não à hoje famosa conferência de imprensa no Parken, estádio de Copenhaga de onde Cristiano demorou uns 10 minutos a sair após ouvir o selecionador, mas às explicações dadas por Jesus na ressaca do jogo em Alvalade, contra Gales, ainda antes de capitão ser suplente, aquecer na segunda parte e não entrar em campo em Oslo, frente à Noruega.
“Está chateado pela falta de respeito. Por ser prometida uma coisa e acontecer o contrário. O seu argumento é que este treinador disse o oposto ao que lhe disse nos bastidores”, alegou, ao acusar Jesus de “mentir” ao jogador no episódio que o próprio selecionador já admitiu publicamente: tinha apalavrado com Cristiano utilizá-lo na partida forasteiras com os noruegueses, mas “o jogo pediu outras coisas” e decidiu apostar em outras jogadores. E Portugal ganhou, coletivamente.
Ronaldo ajoelhado no relvado durante o jogo entre Portugal e o Usbequistão da fase de grupos do Mundial de 2026
Alex Pantling - FIFA
A “porcaria de jogador” que foi Jorge Jesus
Quando os restantes presentes no programa responderam a Piers Morgan coisas como “sabes que estás a ser subjetivo por causa da tua admiração pelo Ronaldo” ou, notando o aumento do seu tom de voz, “estamos só a tentar dar um equilíbrio à tua bullshit”, o anfitrião fixou a mira em Jorge Jesus, uma das pessoas, opinou, que incluiu nas que se dedicam com “extraordinárias tentativas” para “apequenar o maior a alguma vez jogar futebol”.
Não demorou Morgan a incumbir-se de manifestar as perguntas que gostaria de ver serem feitas ao selecionador nacional, colocando uma que de objetiva pouco terá: “Achas que consistentemente, nas últimas semanas, tens tratado o Ronaldo como algum jogador medíocre de divisões inferiores, que podes tratar como merda?”
A sua apologia de Cristiano Ronaldo misturou-se com um ataque a Jorge Jesus, ignorando as chamadas de atenção dos comentadores que lhe faziam companhia, ao alertarem que ele estava a dedicar-se ao que se queixava estarem a fazer ao alvo da sua admiração. “A propósito, este Ten Hag do futebol internacional”, disse acerca do treinador,”nunca foi bom o suficiente para representar Portugal enquanto jogador, ele era uma porcaria, é ele quem está a tentar apequenar o maior jogador português da história”.
Apreciador de Ronaldo “por ser sempre honesto”, Piers Morgan acha que o selecionador nacional “está a tentar ser o tipo que o deita abaixo e rebenta o balão”. Desejou-lhe ”boa sorte com isso”. Encarrilando no tom apregoado por Pedro Proença, no domingo, quando o presidente da Federação Portuguesa de Futebol falou pela primeira vez sobre o caso para defender, no plural, que ”temos de prestar a vénia a Ronaldo”, trilhou um ato para Jorge Jesus: ”O que ele devia estar a fazer é agradecer ao Ronaldo por ser o maior jogador português da história.”
Pedro Proença na tribuna a assistir ao jogo de Portugal na Liga das Nações
Já depois de alguém lhe pedir que fosse objetivo ainda usou a despedida de Lionel Messi da seleção Argentina para traçar o paralelo, aproveitando a coincidência no calendário que longe está de ser coincidente nas circunstâncias. “O Messi tem o seu último jogo esta semana, será uma celebração incrível do segundo melhor jogador da Argentina. Assenta-vos bem que o Cristiano possa nunca ter uma última partida por Portugal porque o treinador decidiu ser o ‘Big Dog‘ que o humilhou?”, questionou, fazendo por elevar um pouco mais o tom do debate enquanto se aguarda pela “verdade” que Ronaldo assegurou dizer “a seu tempo a todos os portugueses”.
Para o fim da acesa conversa, Piers Morgan afiança que “o Cristiano não pensa que deveria começar ou jogar os 90 minutos de todos os jogos”, condição que o futebolista também defendeu há duas semanas, no meio da Football Summit da FPF, na Cidade do Futebol, para muita gente escutar via televisão e ao vivo, na arena cheia às centenas onde a Federação decidiu realizar a primeira conferência de imprensa de antevisão a um jogo da era Jorge Jesus.
Esta terça-feira, porém, o jornal “O Jogo” escreveu uma notícia que contradiz esta narrativa: Cristiano terá ficado ainda mais chateado quando ouviu o treinador dizer, em Copenhaga, que Gonçalo Ramos seria titular frente à Dinamarca, sendo o empurrão final para a sua decisão de abandonar o estágio da seleção nacional. No “Football Uncensored” ainda se escutou que “a sua tarefa é fazer tudo o que seja necessário para ganhar um jogo e se, durante um jogo, acha melhor o Ronaldo não entrar, então essa é a sua escolha”.