O talento gregário do PSG anulou a ameaça do Bayern e repete presença na final da Liga dos Campeões
Alex Grimm
Com uma exibição completa e serena, longe do frenesim da primeira mão, os franceses empatarm (1-1) em Munique e tentarão revalidar o título europeu. Dembélé marcou para uma equipa que, fiel ao pretendido pelo seu treinador, foi uma máquina coesa, desperdiçando até as melhores oportunidades para um triunfo mais cómodo
Aquando da saída do mais famoso jogador que o PSG tinha, consumando uma velha novela que há muito o apontava a Madrid, Luis Enrique prometeu que, a partir daquele momento, controlaria tudo. Sem uma individualidade acima do coletivo, a equipa seria sua, do treinador, um sistema funcional, um sistema com muito talento, com muitíssimo talento, mas um sistema, uma mecânica.
Pois bem, eis o saldo desde que o PSG é o PSG de Luis Enrique, sem anomalias na engrenagem: duas temporadas, duas vezes finalista da Liga dos Campeões. Em Munique, onde ergueu o título na época passada, o clube francês — que se mantém como um instrumento de política externa do Catar, mesmo que com uma identidade oposta a quando concentrava egos sem uma estrutura — empatou (1-1), saindo do serão até com conforto, com calma, sem sofrer desnecessariamente, uma exibição em que ditou as regras, definiu as bases táticas e emocionais, sofrendo um golo aos 90+4', sem tempo para um forcing final bávaro.
Jogo do ano, parte II? Com escassos segundos de vida, a segunda mão parecia querer seguir as pisadas deixadas pelo frenesim parisiense, pelo banho de golos e futebol de ataque e vertigem e ausência de defesas da semana passada.
Minuto três, tabela entre Fabían Ruiz e Khvicha Kvaratskhelia, um toma-lá-dá-cá que abriu uma avenida na defesa do Bayern. O georgiano das meias em baixo e do talento irreverente, a maior dose de improviso na máquina de Luis Enrique, levantou a cabeça e serviu o ambidestro Dembélé, desta vez usando a canhota para aumentar a vantagem que o PSG já trazia de casa.
O golo de Dembélé para o 1-0
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Pese embora o começo em sprint, os franceses, até pelo golo madrugador, foram à Baviera colocar alguma calma na tempestade. Circularam a bola, baixaram o ritmo, não responderam ao fogo com fogo. Era outro encontro face a Paris, não uma dança fogosa e veloz, mas mais uma batalha tensa, de nervos, um jogo de frieza do PSG e, em largos momentos, de impotência do Bayern.
João Pinheiro, nomeado para um desafio de máxima exigência, cedo ficou no centro da polémica. Poupada uma expulsão a Nuno Mendes e um penálti a João Neves, o árbitro português foi alvo da ira dos da casa. Kompany, com o seu outfit do costume, roupa casual, larga, chapéu de beisebol, calças largas, tipo rapper nova-iorquino, canalizou algum do nervosismo alemão. No outro banco, Luis Enrique, de porte magro, seco, marcas do vício de andar de bicicleta e de correr, surgiu com a sua pose a roçar o altivo, um general que se tem em alta consideração (e justificadamente).
O Bayern não foi o rolo compressor habitual. Kane, fora do jogo, chegou aos 30' com somente quatro passes realizados, distante da versão goleador e distribuidor de futebol em que mais brilha. Ainda apontaria o 55.º golo na temporada, na única vez que disparou com direção. O primeiro tiro enquadrado dos da casa surgiu aos 44', por Musiala, numa noite em que a precipitação e o bloqueio levaram ao desaparecimento dos homens dos 174 festejos nos 51 desafios anteriores da campanha.
Mikel Arteta a correr na direção dos adeptos do Arsenal, de mãos dadas com os jogadores, após a vitória contra o Atlético de Madrid, em Londres
A exibição de Dembélé resume o que este PSG possui de diferente face a outras versões do milionário projeto do Catar. Uma estrela, uma Bola de Ouro, totalmente dedicado à causa coletiva, defendendo, seguindo instruções, um galáctico transformado em gregário e que nem por isso deixou de marcar. Jamais se viu um outro atacante francês com um acento no “e” final efetuar esforço semelhante.
Em todo o lado esteve, novamente, João Neves. O português é uma roacha nos duelos, um fino condutor da bola, um pensador quando é preciso passar, uma ameaça a subir à área. Multiplica-se, desmultiplica-se, constrói, destrói. Forçou Neuer a uma das seisdefesas do veterano ao longo da noite, um número que demonstra como os forasteiros estiveram sempre mais perto de aumentar a vantagem.
O Bayern teve meros fogachos de Luis Díaz e Olise no segundo tempo, com respostas seguras de Safonov. Nuno Mendes, amarelado muito cedo, lidou com eficácia com o canhoto francês das mil e umas fintas. Na outra baliza, Doué, tão ágil que parece fazer desaparecer o corpo para driblar adversários, e Kvaratskhelia, que tem tanto de talentoso como de personalidade forte, ameaçaram o 2-0.
Em cima do apito final do contestado João Pinheiro, Kane empatou. Foi pouco mais do que o golo de honra para o Bayern. Será o PSG a defrontar o Arsenal na partida decisiva. O controlo desejado por Luis Enrique está a levar à possibilidade de construção de uma dinastia feita de talento com ordem.