O futebol infinito que vive em Messi começa o Mundial com um hat-trick
Messi, com três golos, igualou os 16 de Klose em Mundiais
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A Argentina arrancou a defesa do título da melhor forma, batendo (3-0) a Argélia com três golos do seu capitão. A uma semana de cumprir 39 anos, Messi brilhou, igualando Klose como melhor marcador da história dos Mundiais
Há um toque de eterno que se expressa no presente ao ver Lionel André Messi Cuccittini jogar futebol, como se estivéssemos a assistir ao teto da Capela Sistina ser pintando já sabendo a relevância histórica e cultural que a obra teria para a humanidade. Aqui estamos nós, testemunhos da grandeza, nostálgicos do agora, porque isto está-se a acabar.
Mas ainda não acabou. Não só ainda não terminou como, sem um colossal esforço, sem parecer coisa especialmente difícil, eis um hat-trick a abrir a sexta presença num Mundial, eis três golos no grande palco global a uma semana de cumprir 39 anos.
Discutir a idade ou a condição física de Lionel Messi não fez muito sentido. Para quem há muito deixou de viver meramente do que as pernas lhe dão, para quem habita na periferia dos jogos, aguardando pelo momento certo para aparecer, confiando numa equipa que lhe empresta os pulmões que ele já não tem, a passagem do tempo não causa assim tantos danos. Ele radiografa, paciente, os encontros, um homem totalmente irrelevante em campo até, bang, transforma-se no mais importante. Não no mais importante deste relvado, mas no mais importante de todos os relvados. No melhor de sempre.
Na primeira etapa da defesa do título da Argentina, o conjunto de Scaloni superou, por 3-0, a Argélia. Lionel Messi guiou a sua seleção, marcando três vezes, tendo mais um anulado, vendo Luca Zidane evitar-lhe outro com uma grande estirada.
Messi faz o 1-0
Michael Steele
Messi faz o 1-0
Michael Steele
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Em Kansas, num estádio que se pintava em parte de azul celeste e em parte de verde, a história que a Argentina deixou, gloriosamente, em Doha foi retomada. As cores do fim de dia no Missouri apadrinharam um confronto que principiou logo agressivo, tenso, sem esperar para aquecer.
Os instantantes da madrugada do desafio deram entradas duras, de meter respeito, todos mostrando ao que vinham. Como se conjugava talento com nervo, antes da primeira dezena de minutos já havia um golo anulado para cada lado, com Messi e Chaïbi a terem os respetivos disparos certeiros a não somarem ao marcador. Não obstante, a Argélia não cumpriu a promessa, perdendo-se entre escolhas duvidosas de Petkovic e um desnorte precoce na segunda parte.
Se a história dos campeões recomeçava pós-Catar, Messi pareceu não ter saído de Doha, deu ideia de ainda estar no Lusail. Aos 17', Rodrigo de Paul provou que não é só as pernas que Leo já não tem, não é só o homem que corre os quilómetros que o capitão não faz, filtrando um passe que encontrou o génio na zona Messi. Foi aí que o canhoto, em zona frontal enquadrado com o alvo, lançou um remate que passou pelas mãos de Luca Zidane e se abraçou em união com as redes.
A ligação Olise-Mbappé valeu uma 2ª parte de luxo para França
A Argélia não rematou à baliza de Dibu Martínez até ao descanso. Na verdade, o fim de dia converteu-se noite e os norte-africanos não dispararam enquadrado uma única vez, saindo da ronda inaugural sem nunca ficar perto de marcar. A Argentina, no primeiro tempo, também esteve longe do perigo. Ainda assim, os sul-americanos levaram para o campo a sua proposta de passes curtos, de fluidez, de dança coletiva em torno da bola, juntando passes e promovendo quases conversas ao ouvido com bola entre colegas.
Esta é uma equipa que passa minutos e minutos atraindo o adversário, paciente. Vai criando uma teia enquanto Messi vive na borda do jogo, por vezes até indiferente à ação. É como um cozinhado demorado, que vai apurando o sabor, o aroma, a junção de ingredientes. Quando está pronto, entra Messi.
Omar Vega
Omar Vega
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Há infinito futebol em Messi. Há jogo interminável na criação, na visão, no passe, na perceção, uma bomba cognitiva com técnica sem limites. No Kansas viu-se uma versão maximalista do impacto que o número 10 é capaz de ter, cada ação absolutamente determinante.
Aos 60', uma tentativa com força de Mac Allister foi defendida para a frente por Luca Zidane, cujo pai sofreu na bancada com a exibição do filho. De pé direito, oportuno, Leo dobrou a vantagem.
Ia-se ouvindo abanda sonora do Catar.Já não é a terceira que se pretende erguer, é a quarta. Há mais de 60 anos, desde o Brasil em 1962, que o campeão não retém o título. É esse o desafio da equipa técnica liderada por Scaloni e com Ayala, Samuel e Aimar como integrantes, uma comissão de ex-jogadores que mais parece uma manutenção do legado espirutual da seleção da Argentina.
O 3-0 veio aos 76'. Foi simples na sua complexidade, tudo feito para deixar Messi, outra vez, na zona Messi. Leo sempre foi o mais pragmático dos génios, cada movimentação medida ao milímetro. Receber, ajeitar, rematar, sem floreados. E lá deixou um toque de infinito no presente. Foi substituído logo a seguir.
O capitão chegou aos 16 golos em Mundiais, igualando o recorde de Miroslav Klose, dois mais que Mbappé. Se este é o último tango, Messi vai-se esforçar por nos deixar com muitas saudades desta viagem.