“Em quase todos os estágios, um jogador é informado que perdeu um familiar”: o Sudão está na CAN para ser um “ícone de esperança”
Kwesi Appiah, o selecionador do Sudão
Mohamed Farag - FIFA
Cerca de 14 milhões de deslocados ou 24,6 milhões de pessoas em fome aguda contam os horrores do “maior desastre humanitário do mundo”, segundo as Nações Unidas. Apesar de não haver futebol disputado em solo sudanês desde o início da guerra civil, a nómada equipa conseguiu a proeza de chegar à CAN. "Quando jogamos, as armas calam-se", diz o selecionador
Antes de cada sessão de treino, os jogadores da seleção do Sudão têm um ritual. Juntam-se, dão as mãos, fazem silêncio. O mutismo dura alguns instantes até ser interrompido por Bakhit Khamis, o capitão.
É esta a forma que a equipa encontrou para, sempre que inicia os trabalhos, se conectar com o propósito maior que a guia. O Sudão é uma seleção sem casa para jogar, sem campeonato local a decorrer, vinda de uma terra onde a esperança parece estar a desaparecer. Mas ali, juntos, um grupo de futebolistas descobriu um sentido coletivo.
A guerra civil assola o Sudão desde abril de 2023. Os números do conflito entre as Forças Armadas Sudanesas e as Forças de Apoio Rápido contam-se em cálculos de tragédia: 14 milhões de deslocados, 24,6 milhões de pessoas em fome aguda. António Gueterres fala de "um pesadelo de violência, fome e doença".
As Nações Unidas classificam a situação como "o maior desastre humanitário do mundo" e avisam que a guerra pode estar a atingir uma fase ainda mais letal. "Não se consegue imaginar a escala daquele sofrimento humano", comentou Tom Perriello, enviado especial dos Estados Unidos ao Sudão.
O conflito capta atenções de muitas potência regionais e globais, mas os horrores correm o risco de se tornarem banais para a opinião pública internacional. Mas não para quem os vive: há relatos, reportados pela Nações Unidas, de morgues em Cartum, a capital, a atingirem a sua capacidade máxima, amontoando-se os cadáveres nas ruas.
Perante este cenário, ter uma equipa de futebol a disputar a principal competição de África — apenas pela quarta vez nos últimos 45 anois — soa a milagre. Quando Kwesi Appiah, o ganês que esteve em três CAN como futebolista e, arrumadas as chuteiras, em mais duas e no Mundial 2014 como selecionador do seu país, assumiu o banco sudanês, apenas lhe pediram que "construísse uma equipa". Appiah achou aquela uma fasquia baixa e redefiniu objetivos: ou estar na CAN 2025, ou ir ao Mundial 2026.
Os nómadas
Quando a guerra civil tomou conta do quotidiano do país de 50 milhões de pessoas, o futebol parou. Sem campeonato nacional ou capacidade de acolher encontros de seleções, o Sudão recorreu aos favores desportivos que lhe foram sendo feitos. E não foram poucos.
O Al Merrikh e o Al Hilal foram aceites, na época passada, na liga da Mauritânia. Foi uma fórmula encontrada para providenciar aos clubes que compõem a base da seleção — 15 dos convocados para a CAN fazem parte destes dois emblemas — um espaço competitivo.
O Al Hilal até ficou em primeiro no campeonato da Mauritânia, mas havia ficado decidido que os conjuntos sudaneses não poderiam vencer o título. Esta temporada, Al Merrikh e Al Hilal voltaram a fazer as malas e competem na primeira divisão do Ruanda.
O jogo entre o Sudão e o Senegal, realizado no Sudão do Sul
Anadolu
Também a seleção se tornou nómada. A Arábia Saudita, sempre rápida na diplomacia desportiva, ofereceu-se para dar ao Sudão a nova base para a equipa realizar estágios durante as janelas internacionais. Já as partidas em casa foram-se dispersando, nos últimos dois anos e meio, por Mauritânia, Sudão do Sul, Líbia e, também, Arábia Saudita.
Ainda assim, a Líbia tem sido o palco preferencial dos jogos. Tal deve-se, em boa parte, ao grande apoio que os 'Falcões de Jediane' encontram no país que se situa na fronteira noroeste do território sudanês. Segundo as Nações Unidas, cerca de 300 mil refugiados sudaneses encontram-se na Líbia.
Foi em Benghazi que o conjunto de Appiah bateu o país do selecionador por 2-0, em outubro de 2024, um dos resultados mais escandalosos do passado recente do futebol africano e, também, o símbolo do êxito do Sudão na qualificação para a CAN.
A emoção e o exemplo de Drogba
Só um dos convocados para a CAN compete na Europa. Trata-se de Sheddy Barglan, do Den Bosch, da segunda liga neerlandesa. Os irmãos Abo e Mo Eisa, atualmente na Tailândia, mas educados no futebol inglês e com experiência nos campeonatos abaixo da Premier League, deram um forte impulso a uma seleção que também conta com a ajuda da diáspora.
O peso do contexto vivido foi bem explicado pelo selecionador em entrevista ao The Athletic: "Em quase todos os estágios um jogador é informado que perdeu um familiar. Tens de ir lá e consolá-lo. Falamos muito sobre o que está a acontecer em casa quando estamos juntos", confessou Appiah, que acrescentou ao Times: "Sei que, quando jogamos, as armas calam-se."
O discurso é seguido por Abdelrahman Kuku, outro filho da diáspora, nascido no Egito, filho de sudaneses, antes de rumar à Austrália: "A guerra dá-nos motivação. Sabemos que somos a única fonte de felicidade para as pessoas no Sudão. Quando jogamos, nada é mais importante. Nos estágios, falamos imenso sobre como o Sudão era bonito e como gostaríamos, um dia, de voltar a jogar em casa."
Por estranho que pareça dizê-lo em 2025, o Sudão foi um dos primeiros países africanos a destacar-se na cena internacional. Aquando da criação da Taça das Nações Africanas, na célebre reunião do Hotel Avenida, em Lisboa, em 1956, o era apenas um de quatro países africanos, juntamente com Egito, África do Sul e Etiópia, que pertencia à FIFA.
Nas primeiras edições da CAN, o Sudão foi terceiro em 1957, segundo em 1959 e 1963 e campeão em 1970. Não obstante, as últimas décadas foram de quase apagão, com apenas quatro apuramentos desde os anos 80 e somente uma vez a ir além da fase de grupos, em 2012.
Dois adeptos do Sudão num encontro da Taça Arábe
Mohamed Farag - FIFA
Na atualidade, o grande objetivo é definido, à CNN, por Mazin Abusin, dirigente da federação do Sudão. "Ser um ícone de esperança", não só para quem ficou no país, mas "para todos os refugiados no Sudão do Sul, no Chade, no Egito ou na Líbia". "É bem possível que esta seleção seja o único elemento que une todo o país", comenta Abusin.
A equipa de Appiah chegou a sonhar com uma inédita qualificação para o Mundial. No entanto, nos momentos decisivos da corrida para rumar às Américas, o poderio de Senegal e Congo, adversários do grupo, impôs-se.
Quando a luta ainda era por estar presente nos EUA, Canadá e México, Abdelrahman Kuku confessou que Appiah usava "o exemplo do que o Drogba fez" para evidenciar como um apuramento mundialista "poderia levar ao fim da guerra". O ganês referia-se ao icónico discurso do lendário avançado costa-marfinense, que apelou ao cessar-fogo mal a sua seleção garantiu uma inédita presença no Alemanha 2006.
O destino do drama humanitário no Sudão não dependerá dos caprichos da bola que rolar em Marrocos. Mas, nesta CAN, já há uma equipa que merece o estatuto de campeã.