Futebol internacional

O eterno regresso do Manchester United à “fórmula mágica”, sem que a magia exista: nenhum pupilo de Ferguson é Sir Alex

Carrick e Fletcher: antigos jogadores que viraram técnicos interinos do United
Carrick e Fletcher: antigos jogadores que viraram técnicos interinos do United
Matthew Peters

Pela sexta vez desde a saída do lendário técnico, os red devils recorrem a um ex-jogador treinado pelo escocês para assumir o banco de Old Trafford. Depois do interino Fletcher, chega Michael Carrick, interino até final da época, nova resposta ancorada na nostalgia para esquecer os horrores do presente

O eterno regresso do Manchester United à “fórmula mágica”, sem que a magia exista: nenhum pupilo de Ferguson é Sir Alex

Pedro Barata

Jornalista

É colossal o legado de Alex Ferguson: 27 anos no Manchester United, 13 vezes campeão inglês, cinco Taças, quatro Taças da Liga, 10 Supertaças, duas Ligas dos Campeões...

... e cinco filhos futebolísticos de Sir Alex como treinadores do clube após a reforma do escocês. Desde a saída do banco de Ferguson, em 2013, o ciclo repete-se: é contratado um treinador para liderar uma nova era, com perfis tão diversos que vão de David Moyes a Louis Van Gaal, de José Mourinho a Erik Ten Hag, culminando em Ruben Amorim. O projeto falha e retorna-se à zona de segurança, ao conforto, abandonam-se as experiências culinárias e cozinha-se aquele prato seguro.

"Há uma lógica circular: para reviver Ferguson, vamos reproduzir a era Ferguson, mas sem Ferguson. Como? Recorremos aos antigos jogadores. Giggs, Solskjær, Van Nistelrooy, Fletcher, Carrick." O ciclo é descrito à Tribuna Expresso por Jonathan Liew, jornalista do The Guardian.

Na sequência do despedimento de Ruben Amorim, Darren Fletcher, menino de Ferguson, assumiu a liderança técnica, de forma interina. Esteve dois jogos, com um empate e a eliminação da FA Cup.

O próximo inquilino do pouco estável cargo é Michael Carrick, menino de Ferguson. O ex-internacional inglês será uma espécie de interino permanente, uma contradição de termos que traduz um treinador que, estando a prazo, ficará durante seis meses, até ao final de 2025/26. Quem será um dos adjuntos de Carrick? Jonny Evans, menino de Ferguson.

É a sexta vez, nos menos de 13 anos desde a reforma de Ferguson, que entra em cena um pupilo do escocês. Carrick assume o cargo pela segunda vez.

"Não sei se é uma obsessão, mas o desejo que o United tem de voltar aos dias de glória significa que qualquer pessoa com história no clube será bem-vindo pelos adeptos, será uma chegada aclamada", destaca Bill Rice, da BBC Radio Manchester.

Olhe-se para o grupo de candidatos que a imprensa inglesa foi indicando como estando na corrida para liderar os red devils até final da campanha. Fletcher, Solskjær, Carrick, Nistelrooy. Não é difícil ver o que têm em comum.

Também não custa muito olhar ao historial de cada um enquanto técnicos. Fletcher, até este par de desafios, só sabia o que era ser treinador principal nos sub-18 do clube; Ole Gunnar Solskjær, desde que saiu de Old Trafford, esteve 29 encontros no comando do Besiktas, de onde foi despedido em agosto após ser eliminado pelo Lausanne (detido pela INEOS, dona de 28,94% do United); Michael Carrick, três épocas no Middlesbrough, no Championship; Van Nistelrooy, que após ser interino nos red devils teve o registo de cinco vitórias em 27 partidas pelo Leicester.

Nenhum destes quatro parece atrair interesse de outros clubes da Premier League. Não obstante, constituíam o lote auto-imposto pelo quarto clube mais rico do mundo, segundo a Deloitte, para comandar os 17 jogos restantes de uma época em que o clube apenas disputará 40. Ou seja, quase metade da temporada.

"O United deveria olhar para o mercado e encontrar o melhor homem, e não apenas centra-se em ex-jogador. É preciso um treinador de renome mundial, com provas dadas, não experiêncais", opina, à Tribuna Expresso, Bill Rice.

O ruído exterior

"Se as pessoas não conseguem lidar com os Gary Nevilles e as críticas, precisamos de mudar o clube."

Na conferência de imprensa que foi uma pré-despedida do gigante de Manchester, Ruben Amorim mencionou o menino de Ferguson que melhor e com mais força simboliza o poder mediático que os futebolistas da era dourada possuem.

Ferguson com Solskjaer, o seu pupilo que mais tempo treinou o United, e Neville, a mais influente voz sobre o clube no espaço público
VI-Images

O espaço público inglês está recheado de nomes sonantes do passado. Neville lidera a conversa, mas também Rio Ferdinand, Paul Scholes, Wayne Rooney, Patrice Evra ou Roy Keane são destacadas vozes na televisão, nos podcasts, no mundo digital.

Todas estas figuras vão-se convidando umas às outras para programas, nos quais falam sobre os tempos aúreos, contribuindo para a nostalgia. Como se um gigantesco emblema de dimensão global fosse coisa de um grupo fechado de jogadores que praticamente só conheceram um treinador ao longo da vida, os pupilos de Ferguson transformam a discussão em algo circular, rendondo, repetitivo.

Recentemente, num destes programas, Scholes e Nicky Butt esforçaram-se para explicar "a essência do ADN" do Manchester United: "É correr riscos. Ir direto à jugular. O United não se conforma com o 1-0. Vai em busca do segundo, do terceiro, do quarto. É jogar 4-4-2, não com três centrais. Atacar, atacar, atacar!"

Após a pouco sofisticada descrição, Scholes e Butt manifestaram o seu apoio à contratação de Roy Keane como sucessor de Darren Fletcher. O irlandês não trabalha como treinador principal desde 2010/11, no Ipswich Town, e o último encontro que dirigiu na Premier League foi em 2008/09, no Sunderland.

Já depois de se saber que Carrick seria o eleito, outro membro do clã, Wayne Rooney — jogos como treinador na Premier League: zero —, mostrou-se disponível para se juntar à equipa técnica de Michael, até porque esteve com ele "ainda na semana passada em Barbados", nas Caraíbas.

O chefe do clã

"Boss, tem de ir ajudar o David."

A frase foi dita por Patrice Evra a Ferguson poucos meses depois de Moyes substituir Sir Alex no banco. A história, contada na autobiografia do francês, relata como o canhoto foi a casa do ex-treinador quando os resultados e o ambiente com Moyes descambaram.

Ferguson rejeitou o pedido de Evra, argumentando que já dera a Moyes "a maior oportunidade da sua vida".

A história já foi há mais de uma década, mas a permanece a ideia de Ferguson como chefe de clã, fonte de autoridade que, estando de fora, ainda continua a ser the boss. Quando Fletcher sucedeu a Ruben Amorim, ligou a Sir Alex, que, contou o então interino, lhe deu "a sua benção".

A linguagem, a reverência, o respeito patriarcal, tudo aponta para um líder de uma tribo a quem se deve prestar vassalagem. Segundo noticiou a TalkSport, Ferguson recomendou à direção do United que contratasse Carrick, e não Solskjær, até final da temporada. O mesmo Solskjær que, durante os quase três anos em que orientou os red devils, nunca deixou o carro no lugar de estacionamento reservado, no centro de treinos, para o treinador da equipa principal. Sentia que aquele ainda era o sítio de Sir Alex.

"O grande perigo é o United nunca conseguir progredir enquanto se mantiver tão ligado ao passado. Vimos isso com o Liverpool, que também foi orientado por antigos jogadores — Graeme Souness, Roy Evans [ou Kenny Dalglish] —, mas só se reergueu verdadeiramente com Klopp", lembra Bill Rice.

O clube onde só dois génios vencem?

No The Athletic, James Horncastle escreveu que o clube vive numa retropia. O fenómeno foi descrito pelo sociólogo Zygmunt Bauman como sendo "a tendência para pessoas que vivem inseguras e insatisfeitas com o mundo moderno procurarem soluções para os problemas no passado, como prisioneiros do outrora".

Ruud van Nistelrooy, o interino antes de Amorim
Martin Rickett - PA Images

Para acentuar o sentimento de querer permanente voltar ao passado está o facto de nenhum outro clube tão grande ter vencido quase tudo com apenas dois treinadores. Apesar de toda a sua gigantesca glória, o United só foi verdadeiramente feliz com Matt Busby, técnico entre 1945 e 1969, e Ferguson, líder entre 1986 e 2013.

Os red devils têm 20 títulos de campeão inglês, mas 18 foram com Busby ou Ferguson. Foram três vezes campeões europeus, sempre com Busby ou Ferguson. O último técnico do Manchester United a conquistar o principal título inglês que não seja um dos dois lendários managers foi Ernest Mangnall, que os ganhou em 1908 e 1911. Por outras palavras, nos últimos 115 anos só dois homens foram campeões ingleses com o colosso de Manchester.

A INEOS entrou com elogios a si própria, garantindo que o clube passaria a ser gerido de acordo com as melhores práticas. Um resumo dos menos de dois anos da participação de Jim Ratcliffe é brutal: renovar o contrato de Ten Hag, reforçar-lhe a equipa com €214 milhões e despedi-lo meses depois; contratar Dan Ashworth como diretor-desportivo para este só durar uns meses; contratar Amorim, reforçar-lhe a equipa com €250 milhões e despedi-lo meses depois; levar a equipa até à pior posição da liga em 50 anos; despedir numerosos funcionários do clube.

E de regresso à casa de partida. Michael Carrick, mais Evans, mais o ruído externo. E Ferguson a ver como chefe de clã que tudo supervisiona.

"O grande problema do Manchester United é que se acha um clube especial, mesmo já não o sendo. Que são os escolhidos. Que têm uma fórmula mágica para ganhar jogos de futebol a que mais nenhum clube consegue aceder. Isto deve-se puramente à era Ferguson, uma das eras mais dominantes que qualquer clube de futebol inglês já viveu. É como uma igreja onde ninguém se lembra da mensagem original, por isso fixam-se nas decorações e nos hinos e esperam que a santidade regresse", conclui Jonathan Liew.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt