Do bombeiro ao ideólogo: Roberto De Zerbi é a escolha do Tottenham para evitar a descida de divisão
Roberto de Zerbi em Alvalade, quando o Marselha visitou o Sporting para a Liga dos Campeões, em outubro de 2025
Soccrates Images
Sem vitórias para o campeonato há 13 jogos, os vencedores da passada Liga Europa estão em 17.º na Premier League, só um ponto acima da zona de descida. Após a saída de Tudor, contratado enquanto interino, os Spurs vão dar, segundo toda a imprensa inglesa, um contrato de longa duração a um dos cérebros mais complexos do futebol europeu
Então vamos lá tentar perceber: apercebendo-se da aproximação dos lugares de descida de divisão, o Tottenham decidiu, a 11 de fevereiro, despedir Thomas Frank. Para o lugar do dinamarquês, foi contratado Igor Tudor, tendo como justificação a fama de homem capaz de apagar incêndios, de salvador, de pragmático que chegaria, evitaria a queda e abandonaria Londres. A natureza provisória da relação ficou evidente quando ao croata foi dado o título de treinador interino.
Pois bem, foi mesmo provisório. Passados 44 dias, Tudor foi despedido. O técnico, que somou declarações algo surreais e decisões ainda mais incompreensíveis, chegou como bombeiro e saiu com o incêndio a causar o pânico por todo o lado: cinco jornadas da Premier League no banco, um ponto conquistado, os Spurs em 17.º da tabela, apenas um ponto acima do West Ham, que ocupa o derradeiro lugar de queda para o Championship.
Com Tudor fora, era momento de tomar uma decisão. Convém lembrar que estamos perante o vencedor da passada edição da Liga Europa, um membro dos big fivena origem da Premier League e dosbig six que, em teoria, ainda existem em Inglaterra. É o nono posicionado no Deloitte Football Money League, o nono clube que mais receitas gerou no mundo em 2024/25.
Não obstante tudo isto, a coerência há muito parece ter deixado o lado branco de Londres. A 11 de fevereiro, a ideia para evitar a descida era um penso rápido. A 31 de março é uma terapia de profunda transformação de corpo e mente, uma longa sessão de metamorfose.
Segundo toda a imprensa inglesa, nomeadamente a Sky Sports ou a BBC, o Tottenham chegou a acordo com Roberto De Zerbi para que o italiano assuma o banco da equipa. Terá, informa a Sky Sports, um contrato válido por cinco anos, que fará do transalpino um dos mais bem pagos técnicos da endinheirada Premier League. Do interino mais interino de que há memória para o longo prazo de cinco anos que, para um clube que teve cinco técnicos permanentes e quatro interinos desde a saída de Pochettino em 2019, soa a eternidade.
O Tottenham não vence para o campeonato há 13 jogos, a pior série do clube desde 1934/35
Shaun Brooks - CameraSport
De Zerbi, de 46 anos, consolidou-se, nas últimas temporadas, como um dos cérebros da moda na Europa. Ganhou notoriedade no Sassuolo e passou pelo Shakhtar Donetsk antes de, em 2022, aterrar na Premier League, pela porta do Brighton. Um sexto e um 11.º lugares em Inglaterra deram corpo de resultados ao que já se sabia das intenções do italiano: pressionar, ser agressivo, sair a jogar desde trás, numa ideia muito guardiolesca, mas com traços de Klopp e Bielsa.
No entanto, no Brighton não foram só os conceitos que brotam da mente de De Zerbi a ter protagonismo. Também se evidenciou a personalidades, por vezes, de conflito, de atrito, o desgaste que provoca nos futebolistas, a instabilidade que lhe pode estar associada. Não será por acaso que vai para o oitavo clube nos últimos 10 anos.
Estas luzes e sombras foram evidentes no derradeiro trabalho de De Zerbi. Em Marselha chegou a parecer haver um casamento perfeito, uma química entre a paixão de clube e treinador, entre a ambição mútua, percepções validadas por uma temporada de estreia em que o conjunto do Mediterrâneo foi vice-campeão francês.
O arranque da presente campanha foi promissor, com o Marselha a liderar a Ligue 1 à oitava ronda. Ainda assim, o colapso seria rápido e sem tréguas: o balneário pareceu implodir depois de Jonathan Rowe e Adrien Rabiot entrarem em confronto num treino, as notícias quanto à saturação sentida pelos jogadores face às constantes mudanças de estrutura tática tornaram-se recorrentes, os adeptos perderam a paciência.
Uma derrota por 3-0 em Brugge deixou os franceses de fora da fase a eliminar da Liga dos Campeões e pareceu deixar De Zerbi a prazo. O despedimento efetivou-se na sequência de um 5-0 aos pés do PSG.
No entanto, De Zerbi saiu como o treinador do Marselha com maior percentagem de vitórias no presente século (57%). O segundo melhor? Igor Tudor (56%).
O risco e a crítica
A mudança radical na seleção de treinador feita em mês e meio traz ao Tottenham um idealista, que terá pouco tempo para reerguer um balneário com a confiança em mínimos. Os londrinos não vencem qualquer partida para o campeonato há 13 encontros, a pior série do clube desde 1934/35. Desde então, houve meros cinco pontos somados.
Treinador croata despedido depois de conseguir apenas um ponto em cinco jogos na liga inglesa
O terceiro treinador da temporada dos Spurs terá sete jornadas para evitar a primeira descida para os duas vezes campeões ingleses desde 1977. Sunderland, Brighton, Leeds, Everton, Wolverhampton, Aston Villa e Chelsea serão os adversários num caminho cheio de riscos.
O Tottenham está entalado entre dois treinadores portugueses, que prometem ser os maiores adversários na luta na qual De Zerbi se foi meter. Os campeões da Liga Europa somam 30 pontos, o West Ham de Nuno Espírito Santo leva 29, o Nottingham Forest de Vítor Pereira conta 32. Melhor está o Leeds, com 33.
De Zerbi ainda não foi oficializado e já há três grupos de adeptos do Tottenham, todos oficialmente reconhecidos, a criticarem a contratação. Em causa está o que estas associações entendem ter sido o apoio dado pelo italiano a Mason Greenwood enquanto ambos conviveram em Marselha.
Greenwood, recorde-se, foi acusado de tentativa de violação, comportamento controlador e coercivo e agressão. O jogador, que chegou a estar detido, sempre negou as acusações. Antes do julgamento, o caso viria a cair devido "uma combinação entre a retirada de testemunhas fundamentais e novo material, o que levava a não haver perspetiva realista de condenação", comunicaram as autoridades.
O avançado não voltaria a jogar pelo Manchester United depois do caso, vendo também o seu contrato com a Nike terminado. Agora, os grupos de adeptos do Tottenham citam declarações feitas por De Zerbi, nomeadamente quando o técnico classificou Greenwood como "boa pessoa" e "um homem muito diferente ao que se retrata em Inglaterra", para apelar a que o clube se distancie do transalpino.