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Sempre Oyarzabal, a ressurreição de Guedes e o treinador que rejeitou Wall Street e fintou a IA: como a Real Sociedad ganhou a Taça do Rei

A festa da Real Sociedad, com Oyarzabal, capitão e goleador de finais, em primeiro plano
A festa da Real Sociedad, com Oyarzabal, capitão e goleador de finais, em primeiro plano
Europa Press News

Os bascos, em perigo de descida no Natal, apostaram em Pellegrino Matarazzo, um italo-americano licenciado em matemática aplicada que fugiu de uma vida na banca ou nas finanças em prol de um percurso no futebol iniciado na quarta divisã alemã. O técnico, cinco meses volvidos, tornou-se herói, guiando a Real, uma vez mais recheada de talento da formação, à terceira Taça do Rei do seu palmarés

Sempre Oyarzabal, a ressurreição de Guedes e o treinador que rejeitou Wall Street e fintou a IA: como a Real Sociedad ganhou a Taça do Rei

Pedro Barata

Jornalista

Gonçalo Guedes anda com pressa. Talvez correndo atrás do tempo perdido, das épocas menos felizes do passado recente, o português voltou a jogar naquele estilo vertiginoso, contundente, com uma agressividade e uma urgência no sprint que o assemelham a um animal enfurecido, investindo contra adversários, não o mais estético dos atacantes, mas voraz e decidido.

A luta contra o relógio de Guedes, que galopa para estar no avião que Roberto Martínez levará para as Américas no verão, assumiu-se plenamente em Sevilha. La Cartuja ainda sentia o terramoto causado pelo SC Braga naquele mesmo estádio 48 horas antes quando Gonçalo fugiu pela esquerda. Cruzou para Ander Barrenetxea e o lento, mas colocado, cabeceamento deu no 1-0 para a Real Sociedad diante do Atlético de Madrid. O primeiro minuto não se completara e já a final da Taça do Rei via os bascos em vantagem.

Em cima do intervalo, quando os colchoneros já haviam igualado através de Lookman, Guedes voltou a maximizar o tempo. Ganhou um penálti, transformado, em tempo de descontos, por Mikel Oyarzabal.

Julián Álvarez voltaria a empatar, antes do êxtase da Real nos penáltis. A terceira Taça do Rei para a equipa de San Sebastián, a segunda para Gonçalo Guedes, que já a erguera ao serviço do Valencia.

Não obstante, quando a noite deu lugar ao dia, o goleador da final da Liga das Nações 2018/19 já não vivia com a mesma pressa. O corpo pesava, a cara não era letal, mas sim de olhar perdido, cansado. Os sinais dos festejos — vulgo, da ressaca, da merecida ressaca — eram notórios.

Gonçalo Guedes tem sido um dos destaques dos bascos
NurPhoto

Depois de temporadas difíceis, longe do seu melhor no Benfica e no Wolverhampton, o regresso ao habitat natural do potente extremo está a dar frutos. Na La Liga onde brilhou pelo Valencia, Guedes é o futebolista com mais encontros disputados na época da Real (38), levando nove golos e nove assistências. Marcou em dois dérbis contra o Athletic, marcou e assistiu diante do Barcelona, assistiu na final.

De volta ao radar da seleção, as razões de celebração eram óbvias. Take Kubo, o japonês confortável a falar espanhol, avisou que Guedes lideraria a festa. Gonçalo não desiludiu. É um dos destaques do êxito de um clube orgulhoso das suas raízes, do seu legado e impacto social. Um clube que, depois de 1986/87 e 2019/20, leva a terceira Taça.

De Columbia para a quarta divisão

Em dezembro, o risco de descida para a Real Sociedad não era uma ameaça vaga. O projeto, vindo de muitos anos de estabilidade e consolidação, abalara. Sergio Francisco, um homem da casa, foi despedido quando os bascos seguiam em 16º na La Liga, somente dois pontos acima da zona de queda para o patamar inferior.

Para acabar com a crise, Erik Breto, diretor de futebol, propôs a Jokin Aperribay, presidente, um homem de 48 anos, há mais de 12 meses sem trabalho, com passado nos bancos do futebol alemão. O líder desconhecia Pellegrino Matarazzo, o candidato em questão, e aconselhou-se junto de uma plataforma de inteligência artificial. A máquina, como contou Aperribay à Cadena Ser, disse-lhe que não era um bom técnico para a Real Sociedad.

O presidente ouviu mais o diretor de futebol do que a IA e Matarazzo foi contratado. E, assim, um licenciado em matemática aplicada acabou no banco do emblema de Gipuzkoa, a pequena província berço de resmas que treinadores de elite.

Matarazzo nasceu em Nova Jérsia, filho de emigrantes da zona de Nápoles. O pai era mecânico de automóveis, a mãe trabalhava numa fábrica. Nos Estados Unidos dos anos 80, com o soccer ainda na fase pré-Mundial 1994, aquela família, amante das proezas de Diego Armando Maradona, tinha paixão por um jogo minoritário na sociedade.

Enquanto jogava futebol na escola, e depois na faculdade, Pellegrino foi obtendo reconhecimento académico. Acabaria por licenciar-se em matemática aplicada na Universidade de Colombia, em Nova Iorque. O canudo, e o percursos nos estudos, atraíram atenções e interesse de várias empresas. A banca ou as finanças seriam o futuro mais normal. Só que o coração pedia outra coisa.

Pellegrino Matarazzo transformou uma equipa que esteve em risco de descida
Eurasia Sport Images

Matarazzo foi sempre o melhor jogador de futebol nas equipas por onde passou nos Estados Unidos. Ficando com Wall Street como plano B, pensou ele, decidiu arriscar uma carreira de botas calçadas. Um empresário arranjou-lhe um teste na Salernitana, em Salerno, a terra natal da mãe. O problema é que a prova nunca chegou a realizar-se.

O regresso ao lado do Altântico onde nasceu parecia levá-lo, finalmente, ao encontro com o destino em Wall Street. Mas um outro contacto apresentou-lhe a hipótese de ir jogar para o Eintracht Bad Kreuznach, da quarta divisão alemã. Pellegrino voltou a voar sobre o oceano, nunca mais voltando a ficar nos Estados Unidos. Foi há 25 anos.

A carreira como jogador nas divisões secundárias alemãs foi complementada com a formação como técnico. Iniciou-se no treino nos escalões jovens do Nuremberga, antes de conhecer Julian Nagelsmann enquanto frequentava o nível mais elevado da UEFA. Pela mão do atual selecionador alemão chegaria ao Hoffenheim, primeiro para os sub-17, posteriormente para adjunto de Nagelsmann na equipa A.

A estreia a solo foi com êxito imediato, devolvendo, em 2019/20, o Estugarda à Bundesliga. Seguiu-se o regresso ao Hoffenheim, desta feita como treinador principal, antes da aterragem na costa do Atlântico.

Será que foi o primeiro técnico dos Estados Unidos a erguer a Taça do Rei ou, por outro lado, o terceiro italiano, após Ranieri e Ancelotti? Foi o primeiro italo-americano, contestou na conferência de imprensa de Sevilha.

A reviravolta às costas de Zubieta

Unai Marrero, o guarda-redes que parou dois penáltis no desempate contra o Atlético, é da cantera da Real. Também lá foram criados Pablo Marín, autor do castigo máximo decisivo, Barrenetxea, que marcou o 1-0, e Oyarzabal, responsável pelo 2-1.

Dez dos vencedores da Taça do Rei vieram de Zubieta, a cidade desportiva da Real. Como quase sempre ao longo da sua história, os txuri urdin recrutam em casa, numa província cheia de talento e apaixonada pelo clube.

Matarazzo vive feliz em Donostia. É importante mergulhar na cultura, contou à ESPN. É surpresa para ninguém que o técnico, diariamente, passeia pela parte velha da cidade, comendo pintxos ou bebendo um copo de vinho. É a imagem de um tipo sorridente, que tenta falar basco e já gera devoção na cidade, onde se fala em San Rino Matarazzo. Na manhã prévia à celebração com os adeptos, a rotina da caminhada manteve-se intacta.

Oyarzabal com uma camisola de Aitor Zabaleta, adepto da Real assassinado por um grupo de radicais do Atlético de Madrid em 1998, a envolver a Taça do Rei
Eurasia Sport Images

A Real é sétima classificada na La Liga, a quatro pontos do quinto, o Betis. Já derrotou o Barcelona no campeonato e, antes da final, eliminou o Athletic, o grande rival. Após essa meia-final, o presidente voltou a perguntar à IA se Matarrazo era o técnico indicado. Nessa ocasião, já a máquina contestou afirmativamente.

O grande ídolo em San Sebastián continua a ser Mikel Oyarzabal. O capitão, dono de 430 encontros e 130 golos pelo clube de sempre, mantém uma relação especial com as finais, tendo marcado em todas as que disputou. Após festejar nos duelos decisivos do Europeu sub-21 de 2019, da Taça do Rei de 2021, dos Jogos Olímpicos de Tóquio, da Liga das Nações 2020/21, do Europeu 2024 e da Liga das Nações 2024/25, o encontro com o golo foi, novamente, cumprido.

Num clube altamente consciente do papel social e comunitário que possui, Oyarzabal uniu-se à homenagem feita pelos adeptos nas bancadas. O canhoto colocou uma camisola com o nome de Aitor Zabaleta em redor do troféu. Em 1998, antes de um encontro para a Taça contra o Atlético, Ricardo Guerra, um neonazi percentente a um grupo de adeptos radicais do clube de Madrid, apunhalou Zabaleta no coração, assassinando-o.

Nos festejos, de regresso a San Sebastián, Aitor foi, novamente, recordado. Para Matarazzo, a celebração terá ido buscar memórias de infância.

Em 1982, quando tinha quatro anos, Itália foi campeã do mundo. O seu pai, que tinha um jipe vermelho, pintou-o de verde, branco e azul, igual à bandeira transalpina, e liderou o desfile, em Nova Jérsia, que envolveu toda a diáspora italiana. Mais de quatro décadas passadas, Pellegrino vive novas alegrias azuis e brancas. Wall Street já não é um plano B.

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