Futebol internacional

O futebol europeu pode ter encontrado o homem para destronar Gianni Infantino: Nasser Al-Khelaïfi, o omnipresente patrão do PSG

Nasser Al-Khelaïfi, líder do PSG
Nasser Al-Khelaïfi, líder do PSG
Tullio Puglia - UEFA

Enquanto vários atores internacionais vão respondendo aos acelerados planos da FIFA, o jornal “Politico” avança que o presidente do PSG — e dono de mais um sem-fim de cargos — está a ser pressionado para se candidatar às eleições de 2027. Do outro lado, Infantino tenta convencer federações acenando-lhes com milhões para “ajudar a pagar maiores salários”

O futebol europeu pode ter encontrado o homem para destronar Gianni Infantino: Nasser Al-Khelaïfi, o omnipresente patrão do PSG

Pedro Barata

Jornalista

Dizer quem é, ou o que faz, Nasser Al-Khelaïfi corre sempre o risco da incompletude. Na verdade, o enquadramento do antigo tenista depende sempre do ângulo sobre o qual o analisemos.

Al-Khelaïfi é presidente do Paris Saint-Germain, o bicampeão europeu. Nesse universo, é também líder do Qatar Sports Investments, a empresa criada por Doha para investir no desporto e que detém, desde 2011, o clube parisiense. Em 2022, adquiriu 21,67% da SAD do SC Braga.

Outras facetas de Nasser incluem presidir ao beIN Media Group, cadeia de televisão e entretenimento, e chefiar a federação de ténis do Catar, país que chegou a representar na Taça Davis. Em 2021, na sequência do impacto sísmico da Superliga, Al-Khelaïfi chegou-se à frente para salvar a então ECA, a associação de clubes europeias, renomeada como European Football Clubs e presidida, claro, por Nasser, que também é membro do Comité Executivo da UEFA.

O catarense pode, agora, voltar a entrar em cena para intervir numa situação de crise. De acordo com o jornal “Politico”, vários dirigentes do futebol europeu pretendem que o patrão do PSG se assuma como candidato de oposição a Gianni Infantino nas eleições da FIFA, agendadas para março de 2027. Esta intenção, que vem sendo cozinhada há algum tempo, terá sido apressada pelo plano de vender participações do Mundial a investidores.

Nasser Al-Khelaïfi com Gianni Infantino
DeFodi Images

A rádio britânica TalkSport vai na mesma direção, especificando países que estão a tentar persuadir o eventual candidato: Bélgica, Polónia, Espanha, Alemanha e Noruega. A federação norueguesa, sob a liderança de Lise Klaveness, tem sido das poucas vozes a levantar-se contra Infantino, tendo apresentado uma queixa junto do comité de ética da FIFA na sequência do caso Balogun.

O presidente da federação alemã, Bernd Neuendorf, foi contundente nas críticas à ideia de Infantino, opinando que não se deve “transformar o futebol num produto nas mãos de investidores” e argumentando que medidas assim levam a que se caminhe “a passos largos para destruir o futebol”. O germânico é membro do conselho da FIFA, mas, como a restante cúpula do futebol, não foi previamente informado deste negócio.

Ao Politico, um porta-voz de Al-Khelaïfi assegurou que este “não tem a ambição, intenção ou interesse” de se candidatar à FIFA. No entanto, alguns atores mostram otimismo na tarefa de seduzir o patrão de Nuno Mendes, Vitinha e João Neves, eleito em maio de 2022, pela “France Football”, como a pessoa mais influente da modalidade.

As contas da aprovação

A ideia de criar uma nova subsidiária da FIFA para gerir os interesses comerciais, nomeadamente a exploração do Mundial, e depois vender partes dessa empresa, levaria ao encaixe de qualquer coisa como €3,7 mil milhões, segundo os cálculos de Zurique. Com esta movimentação, pretende-se passar o financiamento anual de cada federação nacional dos atuais €8 milhões para €20 milhões no período entre 2027 e 2030, ascendendo a €22 milhões entre 2031 e 2034 e €24 milhões entre 2035 e 2038.

A Sky Sports informa que o plano de Infantino engloba receber já €3,6 mil milhões, procedentes da venda de parte da nova subsidiária, em outubro. Neste sentido, as federações poderiam ter, dentro de poucos meses, um significativo encaixe. A mesma fonte sublinha que, na apresentação do projeto às federações nacionais, está a ser acenada a hipótese de “subir salários” de dirigentes e staff como motivo para aprovar a mudança.

O negócio, que transformaria a vertente comercial da FIFA e o modo como é explorado o Mundial, deve ser aprovado em tempo recorde. Infantino deu até 19 de setembro para que as 211 federações-membro se manifestem, apesar de praticamente ninguém ter conhecimento da iniciativa. Escreve o “Independent” que nem os conselheiros mais próximos do suíço foram informados.

Inúmeros membros do conselho da FIFA, que tem de aprovar o projeto, asseguraram desconhecer esta venda até à publicação das notícias. A CONCACAF, confederação para a América do Norte, Central e Caraíbas, e a confederação asiática também manifestaram desagrado pela falta de aviso prévio.

A confederação africana foi mais prudente, afirmando-se “empenhada em continuar as consultas” quanto ao processo, de forma a “apoiar o aumento dos recursos financeiros e de outras naturezas para o desenvolvimento do futebol em África e em todo o mundo”.

Há 211 federação nacionais que fazem parte da FIFA. Deste total, 54 estão em África e 46 na Ásia, muitas de menor dimensão, dependentes dos cheques de Zurique e parte fundamental da base de apoio de Infantino. A UEFA, onde estão os críticos mais sonoros, tem 55, com a CONCACAF a apresentar 35. Na Oceânia há 11 associações e na CONMEBOL, da América do Sul, outras 10. É necessária uma maioria simples para dar luz-verde à mudança.

Aleksander Ceferin, presidente da UEFA
Jonathan Moscrop/Getty

A UEFA, que agendou uma reunião de emergência para coordenar uma resposta, já acentuou as críticas. “A FIFA não pode continuar a usar o futebol para se enriquecer a si mesma e aos seus amigos. É tempo de priorizar federações, clubes, ligas, jogadores e adeptos”, lê-se num comunicado. Em 2021, a negativa da UEFA à realização do Mundial de dois em dois anos levou a que o projeto caísse.

Gianni Infantino, num vídeo gravado pela própria FIFA, reiterou que a entidade máxima do futebol mundial ficaria com o controlo exclusivo quanto à governação da modalidade, as competições, o calendário e os regulamentos. Disse ainda estar em curso um processo “democrático” e de “consulta” a todos os interessados.

O responsável máximo da FIFA já terá recebido mais de 200 cartas a apoiar a sua reeleição até 2031.

O Mundial é a grande fonte de receitas da FIFA, com a passada edição, de acordo com o “Guardian”, a gerar cerca de €13 milhões de lucros. Este negócio tem a JP Morgan como parceira, sendo um dos potenciais investidores a Thrive Eternal, de Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump.

A multiplicação das receitas para as federações nacionais é um argumento poderoso de Infantino. Ainda assim, a atribuição do dinheiro da FIFA aos diversos países tem, historicamente, levado a problemas em diversas geografias. Apenas um quinto das federações mostra contas auditadas e, recentemente, Nigéria, República Democrática do Congo e Bangladesh enfrentaram casos de dúvida quanto ao legítimo paradeiro dos fundos vindos de Zurique.

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