Futebol internacional

Cerco a Infantino aperta-se: ex-jogadores pedem mudança e líder da UEFA avisa que o presidente da FIFA terá oposição nas eleições

Presidente da FIFA continua a ser alvo de cerradas críticas
Presidente da FIFA continua a ser alvo de cerradas críticas
Gabriel Aponte

Emmanuel Petit, Lucy Bronze e Mikaël Silvestre são algumas das caras do futebol que assinaram uma declaração conjunta onde dizem “basta“ às ações recentes da FIFA, dias depois de Aleksander Čeferin sublinhar que Infantino ou sai pelo próprio pé ou terá um rival na luta pela liderança. Mas destituir o ítalo-suíço via eleições não é um caminho linear

As ondas de choque que se seguiram à revelação de que Gianni Infantino pretendia vender a privados uma percentagem da operação comercial da FIFA, com a criação da subsidiária FIFA Forward Enterprise, da qual seria comissário, continuam a reverberar.

Um mês depois, os efeitos da proposta, abandonada entretanto pelo presidente da FIFA face à escalada das críticas, ainda se sentem, dividindo o mapa-múndi do futebol. Há muito que é conhecida a oposição das confederações europeias, asiáticas e da América do Norte, Central e Caraíbas aos atos de Gianni Infantino - ainda que várias federações dentro destas organizações já tenham manifestado apoio ao líder da FIFA, como é o caso de México, Catar ou Emirados Árabes Unidos - e agora chega também a voz de alguns jogadores e antigos futebolistas.

Nomes como Emmanuel Petit, campeão mundial em 1998, o antigo guarda-redes da seleção inglesa, David James, ou Lucy Bronze, duas vezes campeã da Europa com Inglaterra, subscreveram e publicaram nas suas redes sociais um manifesto em que pedem mudanças na cúpula da FIFA, num movimento aparentemente iniciado por outra glória francesa, Mikaël Silvestre.

O nome de Silvestre tem particular relevância, já que o antigo defesa faz parte do FIFA Players’ Voice Panel, grupo de ex-jogadores que monitoriza e aconselha a FIFA em matéria de iniciativas contra o racismo.

“Partilhamos as mesmas preocupações que milhões de adeptos de todo o mundo. Como eles, assistimos ao jogo que amamos a afastar-se dos seus valores fundamentais sob esta liderança da FIFA”, pode ler-se no texto, cuja primeira parte acaba com uma frase forte: “Enough is enough”, que em português se pode traduzir por “Basta”.

Ainda que nunca mencione o nome de Infantino, este grupo de jogadores sublinha que “durante demasiado tempo” viram “decisões importantes a serem tomadas sem que os futebolistas fossem consultados ou considerados” e também “sem qualquer preocupação com os adeptos”.

“A mudança é necessária. O poder toldou a capacidade da atual liderança para distinguir entre os seus próprios interesses e o que é melhor para o futebol. Os eventos recentes tornam o silêncio impossível”, lê-se ainda no comunicado, uma posição concertada de alguns futebolistas, que se juntam a Luís Figo, que no início deste mês, num texto de opinião publicado no diário britânico “Daily Mail”, defendeu a saída de Infantino, acusando-o de ter um comportamento “baixo e desonesto” e de querer “enriquecer os amigos e a si próprio”.

UEFA dá duas opções a Infantino

Estas vozes críticas alinham-se com a posição forte da UEFA, que tem em cima da mesa um boicote às provas da FIFA caso Infantino continue no poder. Entre as federações europeias que já retiraram oficialmente o apoio à recandidatura do ítalo-suíço nas eleições do próximo ano estão a Alemanha, Inglaterra, Escócia ou as seis federações nórdicas (Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Islândia e Ilhas Faroé), que no domingo assinaram um comunicado conjunto.

“As seis federações nórdicas perderam a confiança no presidente da FIFA e estão preocupadas com a governação e os processos de decisão da organização”, aponta o comunicado, onde se apela a uma “análise profunda e independente” à transparência dos métodos da FIFA.

Uma posição de força parece estar nas cogitações do líder da UEFA, Aleksander Čeferin. Numa entrevista ao podcast britânico “The Rest is Politics: Leading”, o dirigente esloveno disse que a criação da FIFA Forward Enterprise seria “pior do que a Superliga”.

Gianni Infantino, presidente da FIFA, com Aleksander Ceferin, líder da UEFA
Mike Hewitt - FIFA/Getty

“No primeiro caso, os clubes queriam lançar uma nova liga, o que é errado e destruiria o futebol. Mas aqui o futebol seria literalmente vendido”, frisou. E face à gravidade do plano de Infantino, gizado sem o conhecimento das federações e de grande parte dos membros mais importantes da administração da FIFA, Čeferin acredita que o presidente da FIFA só tem duas opções: ou afastar-se pelo próprio pé ou enfrentar oposição nas próximas eleições da FIFA, em março.

“Uma opção que tem é perceber que não tem apoio. E isto não se refere apenas ao apoio político daqueles que votam, mas ao apoio dos adeptos, dos jogadores, ex-jogadores e treinadores. Outra é candidatar-se às eleições de março, mas, nesse caso, penso que terá um candidato contra ele”, lançou o presidente da UEFA, que diz não saber ainda quem vai avançar. Ele não será, até porque, sublinha, a sua “credibilidade” na crítica fica muito mais intacta se não tiver qualquer interesse no cargo.

Mundo dividido

Não será, no entanto, linear o caminho para a destituição de Gianni Infantino via eleições. O presidente da FIFA continua a reunir muitos apoios, nomeadamente nas confederações da América do Sul e de África. Samuel Eto'o, antigo avançado e atual presidente da federação dos Camarões, é uma das figuras que recentemente deixou palavras elogiosas à ação de Infantino. Numa entrevista à CNN, Eto'o apoiou o plano da FIFA de abrir as portas ao investimento privado, destacando o papel do antigo secretário-geral da UEFA no desenvolvimento do futebol africano.

Ajudou o nosso continente. Ajudou as nossas federações a desenvolverem-se muito mais rapidamente, e temos de reconhecer isso“, apontou o ex-avançado de Barcelona e Inter.

Infantino vai também fazendo as suas habituais operações de charme um pouco por todo o globo. De acordo com o “The Guardian”, o dirigente viajou na última semana para a República Dominicana para assistir a uma reunião da União de Futebol das Caraíbas, apesar dos pedidos do presidente da Concacaf, Victor Montagliani, para não o fazer.

Nessa reunião, aponta o jornal britânico, anunciou o arranque de uma série de projetos financiados pela FIFA, que estariam há meses parados. A manobra foi vista como uma tentativa de conquistar votos entre as federações locais, muitas delas dependentes das verbas do organismo.

Na última semana, a FIFA confirmou ainda o primeiro Mundial sub-15, que terá lugar no Azerbaijão, em outubro, e está aberto às 211 federações a nível global. Uma confirmação que surgiu dias após o “The New York Times” noticiar que Infantino teria um plano para abrir as portas a investimento privado nesta nova competição.

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