Futebol internacional

Mudou o tom em Infantino: quer “consultar“ as federações, diz que a discordância é bem-vinda e está aberto a auditoria externa

Gianni Infantino à chegada à Polónia, para o Mundial sub-20 feminino
Gianni Infantino à chegada à Polónia, para o Mundial sub-20 feminino
NurPhoto

Numa carta enviada aos 211 membros da FIFA, o presidente da organização que manda no futebol internacional, muito contestado e criticado, sobretudo, pela UEFA e a CONCACAF, disse querer falar com todas as federações, mostrou-se disponível a ouvir propostas para melhorar a entidade e até está disponível para pedir uma avaliação independente à gestão da FIFA

O presidente e recandidato à liderança da FIFA propôs, na segunda-feira, uma consulta às 211 federações-membro para reformar a governança do organismo regulador do futebol mundial, numa carta à qual as agências noticiosas AFP e EFE tiveram acesso.

“Proponho que o Conselho [da FIFA] estabeleça uma consulta direta, estruturada e com prazo determinado com as confederações, associações-membro e partes interessadas relevantes sobre como fortalecer ainda mais o processo decisório da FIFA”, escreveu o ítalo-suíço Gianni Infantino.

O dirigente expressou abertura ao diálogo, numa altura em que enfrenta crescente oposição, após ter promovido em julho, sem consulta prévia, um projeto para vender participações dos Mundiais a investidores privados através de uma nova empresa comercial, proposta na qual recuaria.

“Esta consulta visa convidar à apresentação de propostas específicas relativas ao envolvimento mais precoce dos órgãos institucionais e aos respetivos papéis do presidente, da Mesa, do Conselho e do Congresso, bem como a formas concretas de reforçar a transparência, a participação e a responsabilização nas principais iniciativas estratégicas”, acrescentou.

As propostas recebidas vão ser debatidas na próxima reunião do Conselho da FIFA, agendada para 15 de outubro, sendo que “todas as associações-membro têm voz igual” e quaisquer alterações estatutárias ou recomendações decorrentes serão submetidas ao Congresso para revisão e deliberação.

“O tratamento dado a qualquer federação não dependerá da sua posição sobre uma proposta ou questão institucional. Todas têm o direito de serem ouvidas. Concordar não é pré-requisito para o diálogo e a discordância nunca deve impedir o respeito mútuo”, reconheceu Infantino.

Determinado em “proteger a independência da FIFA, fortalecer as suas instituições e garantir que o progresso beneficia o futebol em todo o mundo”, o dirigente questionou ainda se o Conselho deseja encomendar uma avaliação externa e independente da atual estrutura de governança do organismo para as principais iniciativas e recomendar possíveis melhorias.

“Continuaremos a explorar maneiras sustentáveis de aumentar os recursos da FIFA e expandir o apoio ao desenvolvimento e a solidariedade para todas as associações-membro. O que muda não é a ambição, mas a robustez do processo através do qual as principais iniciativas são desenvolvidas, analisadas e decididas. O progresso que fizemos na última década proporciona-nos uma base sólida para o futuro”, direcionou.

As decisões “não estavam tomadas”

Quanto à sua intenção de vender 21% dos direitos comerciais do Mundial, desvendada por jornalistas e que era desconhecida pelos 211 membros da FIFA, o dirigente diz que “a proposta entrou no domínio público antes do planeado processo institucional estar completo”, dando o braço a torcer: “Reconheço que, sem o contexto total, isto causou preocupação e criou a impressão de que as decisões já estavam tomadas. Não estavam.”

Apesar do recuo no projeto de comercialização dos Mundiais, as confederações da Europa (UEFA), da Ásia (AFC) e da América do Norte, Central e Caraíbas (CONCACAF) mantêm a pressão e exigem a saída de Gianni Infantino da FIFA, assim como diversas federações-membro.

“Instituições fortes não esperam que os seus sistemas falhem para então considerar como aprimorá-los. Devemos manter a nossa ambição, ouvir atentamente e garantir que as principais iniciativas sejam examinadas por meio de processos claros e eficazes”, terminou.

Infantino, de 56 anos, anunciou a recandidatura à presidência da FIFA em maio, num Congresso realizado antes do Mundial2026, que se disputou entre Estados Unidos, México e Canadá e foi conquistado pela campeã europeia Espanha.

Nono presidente da história do organismo, o advogado pode chegar aos 15 anos no cargo, caso seja reconduzido e permaneça em funções até 2031, num ato eleitoral que está agendado para março de 2027, em Rabat, capital de Marrocos.

Gianni Infantino foi nomeado presidente da FIFA em 2016, ao derrotar três adversários nas urnas e suceder ao suíço Joseph Blatter, que renunciou ao cargo um ano antes e foi impedido de participar nas atividades do organismo até 2027, após enfrentar acusações de fraude e corrupção, das quais seria absolvido de forma definitiva pela justiça helvética em 2025.

Depois de completar o remanescente do derradeiro mandato de Blatter, que não conta para o limite de 12 anos segundo os estatutos da FIFA, o antigo secretário-geral da UEFA concorreu sem oposição em 2019 e 2023 e foi eleito por aclamação nesses dois escrutínios.

Infantino é o único candidato assumido às próximas eleições da FIFA, cujo prazo para a apresentação de listas, que têm de ser apoiadas por, pelo menos, cinco federações-membro, terminará em 18 de novembro.

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