O Israel-Irlanda foi tão futebolístico quanto político: os jogadores não se cumprimentaram e houve de queixas cânticos racistas
Os jogadores da seleção irlandesa, todos de cabeça baixa, no momento em que tocou no estádio o hino nacional de Israel
Ben McShane
Após reuniões dos futebolistas irlandeses para decidirem se, de facto, iam a jogo, e de pedidos vindos da Irlanda para que o boicotassem, a seleção do país ganhou o primeiro de dois encontros contra Israel na Liga das Nações. Em campo, os irlandeses tiveram vários gestos de protesto e o capitão de Israel teve resposta: “O nosso país é 10 vezes melhor do que o deles.” A Federação Irlandesa está a investigar se houve cânticos racistas contra um jogador
Houve coisas vistas no jogo que foram antevistas: os jogadores da Irlanda não cumprimentarem os adversários com os habituais ‘passou-bem’ no momento de formatura das equipas; a braçadeira preta que cada irlandês usou em campo; também a troca de galhardetes entre capitães que não se realizou. Em Debrecen, na Hungria, terreno neutro onde Israel realizou o seu encontro caseiro por a UEFA o impedir, desde outubro de 2023, de jogar no seu país por questões de segurança, viram-se depois outras coisas.
Alinhados no relvado para o momento de escuta dos hinos nacionais, os onze irlandeses deixaram a cabeça cair entre os ombros, baixando-a enquanto tocou no estádio esquelético, quase sem gente, o hino de Israel. Foi um gesto de protesto, mais um, aprontado ao encontro que ponderaram não jogar. Quando a bola rolou, a Irlanda marcou os três golos com que venceu a partida; o autor do último, Jack Moylan, durante o festejo tirou a faixa preta do braço, beijou-a e ergueu-a em direção aos poucos adeptos israelitas.
Antes do duelo, a contar para a Liga das Nações, com tanto de futebolístico como de político, a Federação Irlandesa de Futebol anunciara que os seus jogadores iriam usar esse adereço em “reconhecimento de todas as vidas perdidas” no conflito na Faixa de Gaza.
Adeptos irlandeses manifestam-se contra Israel durante o jogo entre Shamrock Rovers e Bohemians, da liga do país
Viram-se, e ouviram-se, mais coisas. Escreve o “The Irish Times” que Adam Idah, marcador de um dos outros golos, foi visado por cânticos racistas vindos dos poucos adeptos israelitas nas bancadas. Filho de pai nigeriano e mãe irlandesa, terá sido visado por sons de macaco sempre que tocou na bola, para os quais Jayson Molumby, companheiro de seleção, alertou o árbitro. Disse-lhe: “Ouça.”
Foi pela ausência de mais pormenores, sobretudo de uma queixa específica contra racismo, que o oficial do apito não acionou o protocolo da UEFA para essas situações e, por consequência, o episódio não pode ser formalmente investigado pela entidade que manda no futebol europeu, explicou uma fonte da Federação do país ao mesmo jornal. Isso não demoveu os responsáveis do futebol irlandês de “rever imagens” da partida, incluindo as gravações de microfones postos à beira do relvado, para “determinar se há provas”. Se houver, irão “exigir à UEFA uma investigação”.
Há meses que a polémica fervia em relação a esta partida. Num sentimento coletivo vindo do seu passado de separatismo da coroa britânica — que explica como, há dois anos, a Irlanda alinhou com a Noruega e a Espanha para serem os primeiros países a reconhecerem a independência da Palestina —, houve associações no país (à cabeça, a Irish Sport for Palestine) a pedirem que a seleção boicotasse o jogo. Em protesto, o canal de televisão que costuma transmitir os jogos da seleção fê-lo sem narração nem comentário, e dezenas de pubs no país recusaram-se a mostrar a partida.
O irlandês Jack Moylan a mostrar a faixa preta na direção dos adeptos de Israel após marcar o seu golo
Ben McShane
O encontro realizou-se no domingo. Na véspera, os futebolistas irlandeses estiveram reunidos durante horas no hotel da seleção, já na Hungria, para decidirem se iriam a jogo. Dessa cimeira saiu a recusa de um deles, o guarda-redes Gavin Bazunu, incapaz de o fazer pela “crença“ de que “matar pessoas é errado”. A Irlanda teve de inscrever na ficha de jogo um defesa no seu lugar.
Paul Cooke, presidente da Federação Irlandesa de Futebol, reconheceu à “RTE“, televisão pública do país, não ter conhecimento de quais seriam as possíveis sanções da UEFA caso os jogadores se tivesse recusado, em bloco, a entrar em campo no primeiro ato de um problema: para 4 de outubro está agendado o segundo jogo entre as seleções, a contar para a fase de grupos da Liga das Nações. Será a vez da Irlanda como anfitriã, mas em estádio neutro, em Backa Topola, na Sérvia. A data quase coincide com o aniversário dos ataques do Hamas contra Israel, ocorridos a 7 de outubro de 2023.
Os jogadores irlandeses voltarão a ter as mesmas conversas, vão ponderar se regressam ao campo. “Foi uma decisão difícil participarem neste”, concedeu Viktor Hallgrímsson, islandês que treina a seleção, criticado pela Federação Israelita antes da partida pela “ignorância, hipocrisia, estupidez“ das suas declarações. O selecionador dissera: “Estamos a jogar contra o genocídio.”
Jogado o jogo, Manor Solomon, o capitão de Israel e atacante do West Ham, do Championship inglês, questionado acerca das ações de protesto dos adversários, afirmou que o seu país “é 10 vezes melhor” do que a Irlanda. “Obviamente que eles nos odeiam e nós não gostamos deles”, acrescentou. Prestadas estas declarações, os jornalistas de Israel questionaram Hallgrímsson pela ausência do jogo de Finn Azaz, irlandês que, pela família da mãe, poderia ter representado o país derrotado. “Foi minha decisão, ele não estava em forma suficiente para jogar”, explicou o treinador, lembrando a “situação diferente” do visado.
“Bullshit”, ouviu-se de um dos jornalistas israelitas na sala de imprensa.