O modesto Benim é o improvável convidado para a despedida de Messi. E o segredo para enriquecer pode estar na camisola do “deus do futebol”
Jogadores da seleção do Benim entram em campo para defrontar o Botswana, na passada CAN
DeFodi Images
Uma seleção que apenas defrontou três vezes adversários de fora de África é a (barata) escolha para o adeus de Leo (quarta-feira, 00h, Sport TV1). Os jogadores, pouco habituados a estes palcos, passearam por Buenos Aires nas horas anteriores ao encontro, já depois de se terem queixado da falta de condições do seu alojamento, garantindo que não facilitarão a vida ao homenageado e pedindo que, para evitar conflitos, se dê “uma camisola de Messi para cada futebolista do Benim”
Como é que uma equipa cujo precedente mais próximo de um confronto contra oposição de fora do seu continente é de 2012 acaba a visitar a vice-campeã do mundo? Como é que um conjunto modesto, que jamais disputou a principal competição do planeta, repleto de jogadores que ganham a vida na Finlândia, Roménia, Bulgária e na África do Sul, ou no Egito e na Suíça, vai ficar para a história por participar na despedida da seleção de um dos melhores desportistas de sempre?
As razões para ser o Benim a subir ao relvado do Monumental quando esta quarta-feira, quando o dia 7 de outubro estiver a começar em Portugal continental (00h, Sport TV1) são, basicamente, vindas de duas áreas: a logística e o dinheiro.
Começando pela parte menos financeira. Sabemos que, com a chegada da Liga das Nações, as seleções europeias disputam um muito reduzido número de amigáveis, o que condicionou os calendários do resto do mundo. Assim, nesta como em outras pausas internacionais, uma gigante como a Argentina — ou o vizinho Brasil — pode embarcar em digressões a partes distantes do globo. Veja-se como os pentacampeões mundiais acabaram de realizar desafios na Austrália e na Índia, por exemplo.
A questão é que esta fórmula, também já seguida pelos argentinos, que em 2025 foram a Angola e em 2023 à Indonésia, implica bastante desgaste para as já sobrecarregadas pernas. Assim, não raramente, a decisão tem sido organizar particulares em casa, reduzindo as viagens e servindo, até, para que quem passa o ano a competir a um oceano de distância mate saudades da família.
É aqui que entra a razão económica. Seguir a via de fazer amigáveis em casa, e não de viajar à procura da oferta mais alta, não significa renunciar aos números que entram na conta bancária. Veja-se a lista de alguns dos adversários que, nos últimos anos, visitaram a poderosa Argentina: Panamá, Curaçau, Mauritânia, Zâmbia, Burquina Faso, Benim. Tal deve-se a que as federações destes países, ao contrário do que sucede com outras de maior prestígio, não cobram por ir disputar amigáveis, em oposição ao que a própria Argentina faz quando se desloca ao estrangeiro. Basta cobrir as despesas de deslocação e alojamento.
Messi a preparar-se para o seu último encontro pela Argentina
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Em teoria, é um win-win: as pequenas seleções visitam um palco e defrontam oposição que é apenas do campo dos sonhos, a Argentina não gasta dinheiro com convidados caros.
A maximização do lucro, por vezes, roça a falta de respeito. Há dias, a federação argentina ordenou que se reduzissem os custos da viagem do Burquina Faso, tendo o particular estado em risco de ser cancelado. O Benim, testemunha da última vez de Messi de azul celeste, também se queixou de falta de condições no seu alojamento, apontando deficiências no hotel, tais como falta de água num dos pisos. A viagem, essa, durou 25 horas, com várias escalas. Os problemas na hospedagem terão sido solucionados e as chitas, cognome da equipa que apenas participou em cinco das 35 edições da Taça das Nações Africanas, terão o seu nome escrito para sempre na história de Lionel com a Argentina.
Olhos postos no prémio
A seleção que tem como melhor prestação de sempre a chegada aos quartos de final da CAN, em 2019, é orientada pelo veterano alemão Gernot Rohr. Aos 73 anos, passou boa parte da carreira em África, sendo o Benim a quinta seleção que treina, seguindo-se às de Gabão, Burquina Faso, Níger e Nigéria. Num outro momento da sua vida desportiva, em 1995/96, chegou a levar o Bordéus, com um tal Zinedine Zidane na equipa, à final da Taça UEFA, que seria perdida perante o Bayern Munique.
Com o foco mediático do planeta futebol virado para Buenos Aires, a delegação do Benim goza de incomum atenção. Na véspera do amigável, alguns jogadores e membros do staff foram vistos a passear, comprando souvernirs como recipientes para baber mate com as cores da Argentina. Mohamed Tijani, entrevistado durante essa ocasião, repetiu o orgulho por estar num momento tão especial para o “deus do futebol”, forma de tratar Messi que tem sido repetida pelos beninenses.
Messi a passar ao lado do troféu do Mundial, na final da edição de 2026: os argentinos não quiseram que esta fosse a última imagem de Lionel na seleção
Outro entrevistado foi o guarda-redes Marcel Dandjinou. Ao jornal espanhol “Marca”, assegurou que a equipa não está “a fazer turismo” na Argentina, mas sim com o propósito de “jogar e competir”. E prometeu, caso se veja perante um penálti de Messi, que não irá facilitar nem oferecer-lhe qualquer golo.
O guardião do Kruger United, da África do Sul, abordou ainda outro tema. Vários portais especializados têm alertado para a possibilidade de, caso a camisola que Lionel Messi utilize vá parar a leilões, acabe vendida por cifras astronómicas, podendo até superar os€8,8 milhões da indumentária que Maradona vestiu no celébre Argentina-Inglaterra do Mundial de 1986.
Perante a hipótese de tamanho tesouro chegar a um feliz contemplado dos visitantes, Dandjinou confirma que escolher só um “não será fácil”, pelo que apela a que seja dada “uma camisola de Messi a cada futebolista do Benim”.
Praticamente virgens em lides intercontinentais, os homens do Benim viajam para medir forças contra um adversário de fora de África apenas pela quarta vez na história. Os precedentes deram-se contra os Emirados Árabes Unidos, em amigáveis em 2005 e 2007, e Omã, num particular de 2012. Uma série de circunstâncias atirou anónimos jogadores para um momento histórico.