Com lágrimas nos olhos, paz na alma e rodeado de quem ama, Messi despediu-se da Argentina
Messi a saudar o público na sua despedida
Marcelo Endelli
O astro capitaneou a seleção uma última vez, marcando e assistindo no 3-0 contra o Benim. Com um estádio repleto de gente devota ao craque, Leo saiu em grande após 208 jogos, 126 golos e incontáveis proezas
“Estou a falar mais do que nunca. Não me quero ir embora, não quero deixar o relvado.“
A terminar o seu discurso, Lionel Messi reconheceu que raras vezes ter-se-á aventurado em tão prolongado monólogo, superior a nove minutos de duração. Recuando mais de duas décadas, ao começo de uma história que poderianem ter as cores da Argentina, nota-se o contraste com os primeiros estágios nas seleções jovens, quando o estrondo que causava com os pés era oposto ao mutismo, à ausência de palavras. Um pibe de Rosário, mas a viver em Barcelona, brutalmente capaz no relvado, aparentemente incapaz de qualquer outra atividade ou até convívio social.
Passaram mais de 20 anos. “Veinte años no es nada“, proclamao famoso tango. Bem, são alguma coisa. Num Monumental que estava cheio muito antes de um jogo que começou com meia-hora de atraso, num dia que virou noite e desenhou um ponto final, a história acabou. Como Messi quis, quando Messi quis.
Argentina 3-0 Benim. O último dos 208 jogos, o derradeiro dos 126 golos. Também houve duas assistências num amigável cheio de simbolismo: Messi assistiu, para o 1-0, Nico Otamendi, parceiro dos anos de sofrimento, das finais perdidas, que depois teria protagonismo na era dos títulos; serviu, no 2-0, Nico Paz, um dos jovens que terá a missão de cuidar do legado de Leo, um elegante criativo que marcou um golo que poderia ser à Messi; apontou o 3-0 num penálti forte e colocado, um penálti como o que terá querido apontar no desempate da Copa América 2016, contra o Chile. Então o remate saiu por cima, a Argentina chorou, Messi chorou e despediu-se da seleção.
Agora foi para as redes, a Argentina chorou, Messi chorou edespediu-se da seleção. Mas em definitivo e em glória.
O discurso de Messi
Marcelo Endelli
O discurso de Messi
Marcelo Endelli
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A partida foi regada a lágrimas. As gotas de emoção começaram a cair ainda no aquecimento, visíveis até em crianças que não sabem o que é o futebol sem Messi, a vida sem Messi, a existência sem a possibilidade de assistir a jogos com a convicção de que, muito provavelmente, assistir-se-á a um milagre da bola.
Scaloni, o colega de seleção com quem Messi trocou os primeiros passes na estreia contra a Hungria, em 2005, aqueles primeiros instantes antes de ser expulso num amigável, chorou antes, durante e depois do desafio. Claro que chorou, ou não fosse carinhosamente apelidado de la llorona, a chorosa, pelos seus jogadores.
Entrando em campo acompanhado pelos três filhos, o capitão foi particularmente transparente nas emoções durante o hino. A canção foi interpretada por Fabio Santana, antigo combatente da Guerra das Malvinas, conflito entranhado no coração coletivo de um povo. As bandeiras aproclamar a posse do território voltaram a encher o estádio.
Messi a passar ao lado do troféu do Mundial, na final da edição de 2026: os argentinos não quiseram que esta fosse a última imagem de Lionel na seleção
Perante as lágrimas, havia quem sorrisse com ternura. Era o caso de Ángel Di María, já retirado das lides nacionais, assistindo do lado de fora, de calças de ganga e um passado colossal nas decisões — golos nas finais do Mundial 2022, Copa América 2021 e Jogos Olímpicos 2008 — que o tornam, possivelmente, no mais importante jogador da seleção que não tenha genes de extraterrestre. De Rosário como Leo, Ángel foi quem mais internacionalizações partilhou com o amigo, 113 jogos em conjunto de albiceleste vestida.
“Tenho apenas que agradecer”, disse o homenageado no discurso final, quando garantiu que representar a seleção foi “o mais bonito” que lhe sucedeu na carreira. O primeiro pensamento, ainda assim, foi para o seu pai, falecido pouco depois do Mundial, seguindo-se palavras de agradecimento para os colegas: “Fizeram-me cumprir o sonho de menino de ser campeão do mundo, da América, da Finalíssima. Foi um prazer enorme partilhar momentos dentro e fora do campo. Sabia que tinha guerreiros ao meu lado, que davam a vida”, comentou.
Em tom de tributo constante, a partida foi interrompida ao minuto 10 para uma sessão de aplausos. Os jogadores do Benim aproveitaram a ocasião, com Sessi D’Almeida, capitão e ex-Tondela, a dar um presente ao astro antes do apito inicial e Tamimou Ouorou, jovem defesa, a relevar uma excelente noção de oportunidade ao ir saudar Messi logo após a dita pausa ao décimo minuto.
Um espetáculo de drones desenhou a camisola de Messi no céu de Buenos Aires, sobre o estádio Monumental
Tobias Skarlovnik
Messi foi tentando juntar golos à ocasião, mas desperdiçando um par de boas oportunidades na área e vendo os adversários, como prometido, a não facilitarem. Na conjugação de simbolismos, a Argentina acabou com sete canhotos no onze, como uma cimeira de zurdos em homenagem ao melhor de todos eles.
Houve drones, cartazes, cânticos. Já perto do final, deu para assistir a um último sprint do homem que passou boa parte da carreira a caminhar, a observar, a pensar e escrutinar ângulos e possibilidades. Aquela corrida serviu para lembrar quando Marcelo Bielsa viu pelas primeira vez um vídeo do adolescente argentino que estava no Barcelona e teve como primeira reação pedir a quem estava consigo que colocasse a cassete em velocidade normal. A imagem estava em velocidade normal, o miúdo é que, efetivamente, corria muito rápido.
“Vou sentir muita falta de jogar aqui”, confessou Messi, “grato” por “ser argentino” e por tudo o que viveu. Os anos do sofrimento, das finais que escapavam no prolongamento ou nos penáltis, ficaram como passos necessários até à consagração final, rumo às celebrações do Maracanã, onde prevaleceu sobre a América, ou do Lusail, onde conquistou o mundo. É Lionel em paz com o seu legado, com o conquistado, uma paz evidente no Mundial 2026, em que jogou para continuar a jogar, para não ser eliminado, para ter mais uma eliminatória, mais um encontro. Cumprida essa derradeira missão, aos 39 anos, sai nos seus termos.
Foi “o dia mais triste” da carreira para quem continuará a representar o Inter Miami. Ao terminar o discurso, Antonella, a mulher, chorava. Mas ainda mais chorava Enzo Fernández, que em criança fazia contas aos anos de Messi e aos seus, calculando se seria possível jogar, uma vez que fosse, com o ídolo. Conseguiria fazê-lo bem mais do que uma vez, sendo decisivo na desejada conquista do Mundial. Para Enzo, como para tantos outros, os últimos anos não se resumiram somente a ganhar pela seleção. Foram ganhar com Messi, com o ídolo feito colega, o herói transformado em amigo.
No inesquecível “Messi es un perro”, Hernán Casciari escrevesobre a “nostalgia do presente cada vez que joga Messi”. Já se vai podendo ter, de facto, nostalgia, nostalgia como a nostalgia é, referente ao passado, a algo que sucedeu. Nostalgia de Messi, que deixou a bola, as botas, o microfone. “Vou ter saudades vossas”, atirou, numa frase que poderia ser dita, sobre ele, por qualquer um dos milhares que assistiam ao adeus de Messi, feito como Messi quis, quando Messi quis, com quem Messi quis.