Futebol nacional

Os golos saíram do Rio Ave, o peixe mais pequeno na rede predatória de que faz parte

Os golos saíram do Rio Ave, o peixe mais pequeno na rede predatória de que faz parte
Eurasia Sport Images

De uma assentada, os vila-condenses perderam André Luiz e Clayon — responsáveis diretos por 19 dos 22 golos da equipa na I Liga — para o Olympiacos, também detido por Evangelos Marinakis. Enquanto continuam a entrar jogadores vindos dos gregos, os maus resultados levaram os adeptos a protestar perante uma situação cada vez mais comum no futebol

Os golos saíram do Rio Ave, o peixe mais pequeno na rede predatória de que faz parte

Pedro Barata

Jornalista

Já escrevia Padre António Vieira, no Sermão de Santo António aos Peixes, que os grandes comem os pequenos. "Não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande", notou no texto pregado no Maranhão, no Brasil, a 13 de Junho de 1654.

Para o Rio Ave, não foi um, nem mil, que foram para o animal maior. Foram dois. O suficiente para acentuar uma crise e colocar um projeto sob escrutínio.

A particularidade em Vila do Conde é que o clube se colocou nesta situação predatória, nesta cadeia alimentar da bola, por opção, não por imperativo da natureza. A 20 de novembro de 2023, 555 de 569 sócios do Rio Ave aprovaram a criação de uma SAD que teria Evangelos Marinakis como acionista maioritário.

"Ficará garantido um investimento de 20,5 milhões de euros até Junho de 2024, estando depois o investidor fortemente comprometido a dar continuidade à política de crescimento e afirmação do Rio Ave FC, como seu principal acionista", comunicava-se.

Só que o clube com 31 épocas no principal campeonato nacional, idas às finais de todas as provas a eliminar do quadro competitivo português e quatro presenças europeias não passava meramente a ser detido por um empresário dos media e da indústria naval. Entrava numa rede da qual também fazem parte o Olympiacos, emblema dos amores de Marinakis, e o Nottingham Forest, clube presente na milionária Premier League. Não é difícil perceber qual seria o peixe miúdo nesta relação.

O centro do poder desta rede evidenciou-se, com nitidez, na reta final do mercado de transferências. Clayton e André Luiz, responsáveis diretos por 19 dos 22 golos do Rio Ave na presente edição da I Liga, rumaram ao Olympiacos, deixando em Vila do Conde uma equipa em crise de resultados e órfã das suas duas principais referências.

Até ao momento destas saídas, André Luiz somou sete golos e cinco assistências pelo Rio Ave 2025/26, enquanto Clayron marcou em 10 ocasiões e deu uma mão-cheia de vezes a marcar.

Olhando aos 22 festejos da equipa no campeonato, apenas três não tiveram a dupla brasileira enquanto goleador ou assistente: os remates certeiros de Vrousai perante o Estrela e de Aguilera contra o Gil Vicente, aos quais se soma o auto-golo de Espigares no jogo com o conjunto de Barcelos.

Significa isto que, a dias de disputar a 21.ª ronda da I Liga, o atual plantel do Rio Ave foi responsável por um total de quatro golos na competição. O croata Dario Spikic marcou duas vezes — em ambas servido por Clayton —, Vrousai e Aguilera levam um solitário remate para o fundo das redes.

Houve lenços brancos dirigidos à tribuna presidencial depois da derrota contra o Arouca
MANUEL FERNANDO ARAÚJO

Segundo toda a imprensa nacional, Clayton rumou à Grécia por €5 milhões, ao passo que André Luiz foi por €6,75 milhões. Valores que não impressionam pela grandeza e contrastam com as verbas que foram faladas para outros clubes, sobretudo quando o canhoto foi associado ao Benfica. Noticia o Record que as águias chegaram a apresentar uma proposta de €12 milhões, mais três por objetivos, por André Luiz, quantidade superior à soma que levou a dupla para o Pireu, zona de Atenas onde mora o Olympiakos.

Uma constelação de nacionalidades

Para colocar gasolina no fogo provocado por estas saídas, os resultados das últimas semanas instalaram a crise. O Rio Ave chegou a parecer relativamente tranquilo na tabela, mas a forma recente instalou a ideia de um coletivo que, em certas ocasiões, quase parecia dar a temporada por completa.

Os vila-condenses perderam quatro dos últimos cinco encontros, sempre por mais do que um golo de diferença e não marcando em nenhuma dessas derrotas. Desde o triunfo diante do moribundo AFS, no início de dezembro, o Rio Ave somente obteve quatro pontos em sete rondas.

Na sequência do 3-0 caseiro que o Arouca impôs, houve uma subida de tom na contestação dos adeptos. Além dos clássicos assobios, viram-se lenços brancos dirigidos para a tribuna presidencial. Alexandrina Cruz, presidente do clube desde 2023, é a líder da SAD detida por Marinakis desde outubro passado.

Sotiris Sylaidopoulos, técnico do Rio Ave e ex-treinador da formação do Olympiacos
MANUEL FERNANDO ARAÚJO

No banco da equipa senta-se Sotiris Sylaidopoulos, mais uma marca helénica. O grego, praticamente sem experiência a orientar equipas principais na carreira, destacou-se ao vencer a Youth League com os sub-19 do Olympiacos em 2023/24.

A ponte entre Vila do Conde e o Pireu apresenta atividade constante. No mesmo fecho de mercado em que se confirmou a saída de Clayton, foi anunciada a vinda de Gustavo Mancha, central brasileiro que chegou do Olympiacos. Foi o sexto reforço para esta época proveniente dos gregos. O atual plantel conta com 16 nacionalidades diferentes, sendo João Tomé o português com mais minutos. O lisboeta é apenas o 15º mais utilizado da campanha.

Na época passada, a primeira completa desde a compra do Rio Ave, foram cinco as entradas de futebolistas vindos do Olympiacos. Em sentido inverso, Costinha foi para a Grécia por €2,5 milhões.

O outro peixe graúdo da família, o Nottingham Forest, também tem levado alguns nomes para Vila do Conde. Entre a época passada e esta, quatro jogadores rumaram do City Ground para os Arcos.

Recorde-se que, no final da época anterior, Marinakis colocou as ações que detém no Forest num blind trust, um fundo cego, gerido de forma independente, para contornar as regras da UEFA e permitir que os ingleses e o Olympiacos participassem em simultâneo nas competições europeias.

Segundo dados da UEFA e da FIFA, em 2012 havia 40 clubes envolvidos em grupos de propriedade múltipla. Em 2015 eram 62; em 2018 passaram a 128; em 2021 saltaram para 216. Em 2023 eram 301 e, ainda que o rasto de alguns donos vá sendo difícil de seguir, estima-se que em 2025 tenha superado os 400 emblemas a nível global.

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