A FPF tem um plano (e 366 medidas) para os próximos 10 anos: ganhar um Europeu ou Mundial e chegar à liderança do ranking da FIFA
José Fonseca Fernandes
Portugal ganhar um Europeu ou um Mundial, chegar a nº 1 do ranking da FIFA, triplicar o número de árbitros, profissionalizar todas as equipas da liga feminina ou criar a primeira Universidade do Futebol (e promover o Walking Football). Estes são alguns dos objetivos que Pedro Proença quer atingir até 2036 e constam no Plano Estratégico apresentado, esta terça-feira, pela Federação Portuguesa de Futebol. O primeiro, crê a entidade, que pensa a médio-prazo
A alusão ao anafado homem barbudo, sentado no trenó a reboque de renas, existe dentro da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Quem lá esculpiu o novo ensejo a médio-prazo para a modalidade crê que uma estratégia, muitas vezes, é parecida a uma carta que enviamos ao Pai Natal: repleta de desejos a concretizar. De facto, o Plano Estratégico da FPF está cheio de objetivos a concretizar até 2036: chegar aos 400 mil praticantes federados da modalidade-mor, triplicar o número de árbitros, reduzir para metade o tempo médio de decisão nos processos de disciplina e justiça, profissionalizar todas as equipas da liga feminina ou ver a seleção no 1º lugar do ranking da FIFA.
Olhando para as metas delineadas no documento desvendado esta terça-feira, é feliz a analogia feita por quem trabalha na e com a entidade. Algumas parecem atingíveis dando tempo ao tempo, um exemplo a vontade em realizar os primeiros Censos do futebol português, mas existem as que parecem adversas em neve para poderem deslizar com fruição, como o desejo em ter 13 mil árbitros em atividade daqui por uma década - no atual ambiente tóxico que rodeia a classe, cheio de ruído clubístico e mediático, existem 4442.
Ao completar o seu primeiro ano na presidência, Pedro Proença apresentou o documento que a entidade crê nunca ter sido elaborado no país: impactar o futebol durante o máxim número de anos que esta presidência poderá durar (existe uma lei de limitação de mandatos), com base em 27 objetivos que dão luz a 366 medidas, das quais 65 (ou 25%) já foram implementadas. O Plano Estratégicao visa, nas palavras de Proença nele impressas, “uma profunda intervenção” com vista ao “crescimento sustentável do futebol” e “sucesso do ecossistema”, ficando assente em 10 eixos que serão monitorizados consoante 31 “indicadores de impacto”.
Neles, sim, estão as prioridades balizadas: a FPF quer criar uma entidade externa profissional para regular a arbitragem, como acontece em Inglaterra, e apresentar (até 2028) uma proposta ao Governo para rever o regime fiscal de IVA, além de reduzir a taxa aplicada à bilheteira e dos custos com seguros, combatendo o que a organização acreditar ser um certo preconceito em relação ao futebol.
Pretende realizar os tais Censos e fundar a primeira Universidade do Futebol, na sua sede, com uma licenciatura já a funcionar daqui por dois anos; ambiciona ter a seleção a conquistar um Europeu ou um Mundial na próxima década; e vai tentar chegar às 60 mil praticantes federadas (hoje há cerca de 21 mil), além de profissionalizar as 10 equipas da principal liga feminina que, nas últimas épocas, tem acolhido vários exeplos de clubes com salários em atraso.
Outro almejo é colocar Portugal na liderança do ranking da FIFA, altitude já visitada pelo atual selecionador nacional, Roberto Martínez, quando treinava a Bélgica. Chegar lá, mais do que retribuir com proveitos palpáveis, equivale a projetar uma certa imagem do futebol português, uma “marca”, como é sublinhado com força no Plano Estratégico e por Pedro Proença. A palavra é repetida com insistência, à semelhança do novo logótipo da FPF, de feições mais arredondadas e amigas do design virado para ser aproveitado em diversos usos.
O documento realça que a seleção nacional tem “o estatuto” de ser “a mais seguida do mundo nas redes sociais”, facto ao qual ajudará ser capitaneada por Cristiano Ronaldo, o seu jogador-bandeira e futebolista com mais seguidores do planeta. Mas ele é finito, tem 41 anos, o próximo Mundial será o seu útimo.
Ainda assim, a FPF quer atingir os quatro milhões de pessoas registadas no Portugal+, o seu portal do adepto, abrir lojas físicas da Portugal Store (os nomes e termos ingleses não são poucos no documento feito em conjunto com a consultora Ernst & Young), criar jogos e torneios de “legends nacionais e internacionais” ou colocar “peças icónicas” das seleções nacionais em museus estrangeiros.
O olho para lá das fronteiras é notório. Pedro Proença já não recusara, no último verão e em entrevista à Tribuna Expresso, a hipótese de exportar a Supertaça e a Taça de Portugal. Agora a federação pondera uma reformulação do formato das fases finais de ambas as provas, adotando uma final four - depois de alterada a vida das equipas da I Liga, que vão passar a entrar só à 4ª eliminatória.
A hipotética disputa das competições nalgum país longínquo, à semelhança do que acontece em Espanha e Itália, coincide na intenção do presidente em tentar levar a Portugal Football Summit, cimeira de conferências que estreou no final do ano passado, para os EUA, a Arábia Saudita ou algures na Lusofonia. Porque não são países, são mercados.
E a FPF quer aumentar para cerca de €70 milhões as receitas com merchandising, patrocinadores e licenciamento, que hoje rondam os €40 milhões.
Os jogadores da seleção nacional a celebrarem a conquista da Liga das Nações, em 2025. Na próxima década, a FPF quer que Portugal conquistou um Campeonato da Europa ou do Mundo
Edith Geuppert - GES Sportfoto
O “Gene Luso” e o Walking Football
Desbravadas as intenções mais macro e descascando as 366 medidas que constam nas 10 áreas prioritárias do Plano Estratégico Dentro, várias ilustram a ambição da FPF - e a sua abundância merece a tal analogia natalícia das cartas dirigidas ao senhor das barbas brancas, nas quais se pede tudo.
Na prioridade em fazer crescer os cerca de 250 mil praticantes atuais em Portugal, para os 400 mil, na próxima década, quem manda na modalidade já imperial na prática desportiva do país pretende, por exemplo, “adaptar espaços urbanos e de lazer para a prática informal de futebol e futsal” e criar o “plano ‘Gene Luso’”, assim chamado para detetar “talento luso-descendente que poderá representar as seleções nacionais”. Existe uma ideia que é um sinal cabal dos tempos - “criar um sistema de scouting digital com IA para identificação precoce de talentos” - e a FPF gostava também de ver o Governo a incluir o futebol nas modalidades do Desporto Escolar.
As mais de três dezenas de medidas vão aplicar-se no país bicéfalo em quase tudo, sem poupar os chutos na bola: as Associações de Futebol do Porto (mais de 46 mil) e de Lisboa (quase 39 mil) destacam-se no número de praticantes federados, incomparáveis com os poucos milhares registados nas regiões do Alentejo e das Beiras. Falta representatividade do interior do país na formação (as redes de captação e sedução dos grandes clubes levam os jovens para os seus centros de treino) das novas gerações que, cada vez mais, se relacionam com o futebol de outra forma.
O Plano Estratégico da FPF destaca-o, citando um estudo de 2022 da La Liga e da Nielsen, feito em 15 países: mais de um terço (34%) dos jovens entre os 15 e 24 anos já preferem ver apenas os highlights de um evento desportivo a assistir à sua totalidade. Entre os mais jovens, 47% costumavam acompanhar, em simultâneo, mais do que um encontro via dois ecrãs e 51% consumiam estatísticas durante um jogo de futebol.
A federação parece estar atenta às tendências da juventude, mas não ignora as mais antigas: há 12 medidas para incentivar a prática do Walking Football, uma versão lenta, sem correrias ou contacto físico, tradicionalmente praticada por pessoas para lá do meio século de vida. A associação inglesa, aliás, só tem escalões masculinos a partir dos 50 anos e femininos a começar nos 40.