Não perder o comboio do título ou derradeira carruagem para o mal menor: o Sporting-Benfica é um dérbi de últimas oportunidades
Catamo e Dahl em disputa no dérbi da primeira volta
DeFodi Images
Este domingo (18h, Sport TV1), leões e águias medem forças pela 329ª vez. Separados por dois pontos, ainda que com os de Alvalade com uma jornada menos, a equipa de José Mourinho tem no dérbi a chance de maquilhar uma época falhada, enquanto o conjunto de Rui Borges, em plena semana de alta exigência, está obrigado a vencer para manter a perseguição ao FC Porto
Há recordes para todos os gostos. Ainda assim, há uns com sabor particularmente estranho, desconhecido, como uma sobremesa de baixa qualidade, mas que se torna marcante pela sua singularidade.
Ponto prévio: a época do Benfica é má. Nada que se faça até final da temporada poderá apagar isso.
O clube da Luz enterrou, como admitido pelo seu treinador, as esperanças de título longe da meta, diante do Casa Pia, a seis jornadas do fim. Por comparação, há um ano, a instável equipa de Bruno Lage entrou na derradeira ronda da competição com hipóteses de ser campeã.
A somar a isto, o Benfica não atingiu qualquer final de uma das taças domésticas. Também aqui há um défice face a 2024/25, quando chegou à decisão da Taça da Liga, vencendo-a, e da Taça de Portugal, perdendo-a.
Até na Liga dos Campeões, palco do momento mais glorioso da campanha encarnada, se baixou o rendimento perante o que se vira há 12 meses. Agora a queda foi no play-off, em 2024/25 deu-se um degrau acima, nos oitavos de final.
Pois bem, vamos lá conjugar isto com a hipótese de ser a quinta equipa, nas nove décadas de existência da I Liga, a terminar invicta. Benfica de Jimmy Hagan, Benfica de John Mortimore, FC Porto de Villas-Boas, FC Porto de Vítor Pereira. Benfica de José Mourinho?
Mourinho chegou ao Benfica em setembro. Ainda não bateu FC Porto, Sporting ou SC Braga esta época
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Soa a contraditório. E é, porque é uma invencibilidade a roçar o mentiroso, uma invencibilidade perdulária, cheia de pontos perdidos.
São nove empates em 29 rondas, com 10 pontos a escaparem perante Rio Ave, Santa Clara, Casa Pia e Tondela, tudo equipas do 12º lugar para baixo. É um clube que não encadeia cinco vitórias seguidas desde abril de 2025, então com o triunfo que fechou o quinteto a surgir contra o secundário Tirsense.
É agarrado a este possível recorde de sabor estranho que o Benfica visita Alvalade (domingo, 18h, Sport TV1). Ganhar, ter esperanças de ficar em segundo, garantir a condição de equipa invicta: eis algo a que José Mourinho se pode agarrar. Do outro lado estará quem, lambendo as feridas de uma eliminação da Champions, não tem muito tempo para se lamentar.
Semana decisiva, parte II
São oito dias que definem grande parte da temporada do Sporting. Visita ao Arsenal, receção ao Benfica, visita ao FC Porto. Liga dos Campeões, I Liga, Taça de Portugal, a chance de ficar vivo em tudo ou de sair praticamente morto, atirado ao tapete.
O primeiro embate deu queda, fechando a melhor prestação verde e branco no maior palco da UEFA em mais de 40 anos. Rui Borges, obcecado em falar sobre a “energia“ dos seus futebolistas, terá de ativar o modo recuperação, isto sem contar com um plantel excessivamente profundo, visto que as lesões, uma vez mais, debilitam as contas. O transmontano não tem contado com Fotis Ioannidis, Luís Guilherme e Nuno Santos, estando Geovany Quenda ainda a voltar à melhor condição física.
O Arsenal é a equipa que mais golos marcou na Premier League na sequência de cantos: 16
Quatro dias após o embate de Londres, e três dias antes de se deslocar ao Dragão para a segunda mão da meia-final da Taça de Portugal, não há muita ginástica pontual para o Sporting. É ganhar ou ganhar, mantendo a pressão no FC Porto. Os líderes, a cinco pontos de distância, mas com mais um jogo realizado, acabam, também, de sofrer uma eliminação europeia, recebendo o Tondela logo a seguir ao dérbi (domingo, 20h30, Sport TV2).
Para Rui Borges, um triunfo permite afastar a sombra do rival da cidade, puxar pelo discurso de luta até ao fim em diversas frentes e dar brilho ao campeonato do Sporting, havendo título ou não. Se em 2024/25, com a instabilidade do pós-Amorim, os leões ergueram um título magro em pontos (82), agora ainda é possível chegar aos 89, mais do que em três das quatro épocas completas de Ruben, por exemplo. Se isso sucedesse, e mesmo assim o campeonato fosse para norte, seria sempre legítimo dizer que se fez tudo o que estava ao alcance.
Evitar um cenário Schmidt ou Lage
Não é preciso puxar muito pela memória para lembrar como terminaram 2023/24 e 2024/25. Treinador fragilizado, técnico contestado, Rui Costa a prometer confiança, entrada na nova temporada, um par de maus resultados, despedimento, reiniciar.
Há algumas semelhanças com o presente. A temporada correu mal, pior do que as duas anteriores. Houve, novamente, reforços caros que, meses após chegarem, já parecem descartáveis. E há um homem no banco a ser criticado.
Eliminado em Londres, resta ao Sporting lutar pela revalidação da dobradinha
Ryan Pierse - UEFA
Novidade: esse homem é o mais famoso e laureado dos treinadores portugueses. José Mourinho aterrou com a aura, os créditos, a palavra e o mediatismo, só que os resultados não acompanharam.
Chegados a abril, à fase de discutir títulos, Mou sabe que, ao contrário de Lage, vencedor da Supertaça em agosto, terminará de mãos vazias. Talvez por isso, o setubalense tem apostado em debates laterais, como a alegada aposta na formação ou as críticas à arbitragem.
Dentro de campo, e por muito que as desilusões face a opositores da luta pela manutenção tenham sido excessivas, há um ponto em que Mourinho costumava ser especialista e em que, neste regresso, o bicampeão europeu ainda não logrou ajudar o Benfica: bater os rivais, levando a melhor nos grandes clássicos.
Entre Sporting, FC Porto e SC Braga, os encarnados de Mourinho já disputaram seis partidas, somando zero vitórias. Os duelos diretos afastaram o Benfica da luta pela Taça de Portugal, onde foi eliminado no Dragão, da Taça da Liga, cedendo diante do Braga, e também tiveram impacto no campeonato, com, até agora, oito pontos cedidos.
Para não entrar em 2026/27 como os seus antecessores, com uma posição altamente precária, Mourinho tem de ganhar em Alvalade e alimentar a fé no segundo lugar. Tudo o resto seria arriscar novo reset em setembro.
Do vermelho para o verde?
A chegada de Jorge Jesus, em 2009/10, ao Benfica, alterou a dinâmica de poder na Segunda Circular. Elevando a qualidade e o rendimento do lado encarnado da capital, a parte verde e branca foi deixada para trás, com consequências além da vigência de JJ na Luz.
Assim, entre 2009/10 e 2019/20, passou-se uma década em que o Benfica terminou sempre à frente do Sporting na I Liga. Os confrontos diretos chegaram a ser altamente desequilibrados, como se vê pela série de seis derrotas seguidas dos leões contra as águias, entre 2010 e 2012, ou por o Sporting ter estado quase sete anos sem sequer marcar em casa do rival para a I Liga.
O remate de Geny Catamo que poderia ter mudado tudo: acabaria por ir ao poste
Chegou 2020, apareceu Ruben Amorim em Alvalade e a dinâmica cambiou. O Sporting terminou quatro das derradeiras cinco épocas à frente do Benfica. O balanço dos últimos novo jogos mostra quatro vitórias verde e brancas, quatro igualdades e só um êxito encarnado.
Há um ano, em maio de 2025, a equipa de Rui Borges carimbou este ascendente ao levar a melhor nas duas finais que decidiram 2024/25. No campeonato, na Luz, sacou o empate que lhe convinha, seguindo-se o Jamor onde selou a dobradinha.
Caso os três pontos fiquem com os da casa, será praticamente a confirmação de nova campanha com o lado que até há pouco tempo não tinha argumentos para ombrear com o rival a levar a melhor. É também por isto que para o Benfica de José Mourinho o dérbi é uma derradeira oportunidade de salvar o orgulho na longa disputa da capital, iniciada a 1 de dezembro de 1907 e prestes a conhecer o 329º embate.