Com a confiança na FPF “ferida”, Duarte Gomes diz ser “impossível matematicamente” antecipar árbitros nomeados sem fugas de informação
Duarte Gomes, ex-Diretor Técnico da FPF, ao lado de Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem.
MIGUEL A. LOPES
O antigo Diretor Técnico Nacional denunciou que a investigação pessoal que realizou para averiguar os mais recentes casos ligados à arbitragem nacional estava a ser acompanhada “em tempo real” por alguém ligado ao Estrela da Amadora. Um conjunto de “sequências cronológicas demasiado credíveis” motivaram a demissão de Duarte Gomes, disse o ex-árbitro em entrevista ao jornal “A Bola“, na qual acrescentou que, se fosse o presidente do Conselho de Arbitragem, teria feito o mesmo para “proteger o bom-nome” da classe
Assim que lhe foram começando a chegar indícios de que o sistema da arbitragem nacional estava imundo, Duarte Gomes encontrou-se três vezes com Luciano Gonçalves. O antigo Diretor Técnico Nacional confrontou alguém com quem pensava ter uma “relação muito boa, de cumplicidade pessoal e profissional”, apresentando-lhe os resultados de uma investigação pessoal que revelou “indícios incómodos sob o ponto de vista deontológico e ético”.
Apesar de não nomear pessoas na entrevista que deu ao jornal “A Bola“, pelo relato de Duarte Gomes subentende-se que o juiz Hélder Malheiro revelou-lhe “dois factos” que o fizeram querer reunir com o Presidente do Conselho de Arbitragem.
Primeiro, o filiado da Associação de Futebol de Lisboa soube 11 dias antes que ia apitar o Moreirense-Estrela da Amadora, jogo relevante para a luta pela manutenção na qual a equipa da Reboleira estava envolvida. A informação ter-lhe-á sido prestada numa videochamada com um ex-árbitro assistente internacional. No mesmo contacto, o elemento ligado à estrutura do emblema tricolor demonstrou também ter conhecimento, 20 dias antes, que o Estrela da Amadora-Famalicão ia ser dirigido por Fábio Veríssimo.
Depois, Duarte Gomes também terá ficado incomodado com a proposta feita a Hélder Malheiro na véspera do referido Moreirense-Estrela: se o conjunto da Amadora vencesse, o árbitro em final de carreira receberia a oportunidade de prolongá-la. Durante as averiguações, o antigo Diretor Técnico Nacional reuniu capturas de ecrã onde Luciano Gonçalves confirmava a Hélder Malheiro a proposta. “A mensagem dizia 'sim é verdade' e tinha alguns emojis pedindo silêncio. Foi apagada pouco depois pelo remetente.”
Duarte Gomes diz que a probabilidade de antecipar a nomeação de um árbitro “é entre 0,1 e 0,2%” e, portanto, “impossível matematicamente”. Com a confiança “ferida de morte”, deixou o cargo que desempenhava na Federação Portuguesa de Futebol. “As sequências cronológicas eram demasiado credíveis para me manter em funções.” E confessa ter “deixado de acreditar” em Luciano Gonçalves.
Duarte Gomes considera que Pedro Proença, presidente do organismo, deveria ter agido de outra forma perante o caso. “Não me revi num conjunto de decisões que ele, legitimamente, tomou em relação ao tema.” No entanto, é a Luciano Gonçalves que sugere a demissão por não estar a “proteger o bom-nome” da classe. “O Duarte Gomes, se fosse presidente do Conselho de Arbitragem e tivesse sido colocado nesta situação, sobretudo se fosse inocente, teria suspendido o seu mandato, ter-se ia-afastado e teria deixado que a justiça fizesse o seu trabalho.”
As reuniões com Luciano Gonçalves só deixaram Duarte Gomes ainda mais “desconfortável e incomodado”. O presidente do Conselho de Arbitragem “reagiu com alguma surpresa” e alegou que o elemento ligado ao Estrela da Amadora tinha conhecimento prévio das nomeações por “mera coincidência”. Porém, Duarte Gomes relata dois casos em que o sentimento de perseguição o assolou. “Alguém estava, em tempo real, a par de tudo o que eu tentava fazer para esclarecer.”
“Assim que a primeira dessas reuniões terminou, o ex-árbitro interferente, com quem não falava há algum tempo, fez-me uma videochamada. Não atendi, deixou-me uma videomensagem. Perceba isto: segundos depois de uma primeira conversa a dois, privada, houve uma ligação desse ex-árbitro assistente, o que me fez deduzir de imediato que ele teve conhecimento daquela reunião e tentou, de alguma forma, justificar a legalidade das condutas do presidente do Conselho de Arbitragem. Confesso que não gostei. Segunda interferência: logo após essa reunião, e estamos a falar de um espaço de dois ou três minutos, o ex-árbitro ligou também para o árbitro denunciante, a dar-lhe nota que sabia que iria haver uma conversa a três e que ele devia pensar bem na sua carreira e futuro profissional”, recorda.
A arbitragem portuguesa caminha sobre brasas e Duarte Gomes alerta para o que se pode seguir. “Houve um conjunto de situações que entretanto me foram chegando por mensagem de várias origens, incluindo de árbitros, sobre relatos não palpáveis e que, portanto, coloco num patamar diferente em termos probatórios e de avaliação pessoal.” Quanto aos restantes casos, nomeadamente a promessa de prémios de €1 milhão para dirigentes e a pressão para a escolha do árbitro do FC Porto-Benfica, entrega às autoridades a responsabilidade de investigarem.