Mais de 1400 dias depois, Mikaela Shiffrin continua numa busca identitária nos Jogos Olímpicos de Inverno
Mikaela Shiffrin após a sua primeira prova em Milão-Cortina 2026
Mattia Ozbot
A lenda do esqui alpino, recordista de triunfos na Taça do Mundo, entrou em Milão-Cortina prolongando o pesadelo de Pequim: desta vez não caiu, mas foi extremamente cautelosa e, após a sua colega Breezy Johnson ter feito o melhor tempo no downhill, Shiffrin foi apenas 15ª no slalom e a dupla norte-americana favorita não chegou às medalhas
O cenário é-lhe extraordinariamente familiar. A neve, a descida, o sol assim para o cinzento casmurro, o percurso que se inclina aos seus pés.
Ganhar no slalom confunde-se com a identidade de Mikael Shiffrin, 71 vezes vencedora na prova na Taça do Mundo, um recorde. Ganhar, no geral, mistura-se com a norte-americana de 30 anos, em 108 ocasiões a melhor em competições da Taça do Mundo, outro recorde.
Cortina d’Ampezzo é, igualmente, habitat já explorado. Não é desconhecido, como o era Pequim, há quatro anos, quando os Jogos tinham como vizinhas fábricas abandonadas e paisagens inóspitas.
Mas algo evocava más memórias. Os anéis. O palco olímpico. As três quedas em seis provas de 2022.
Passaram 1451 dias, mas algo ficou em Shiffrin. Uma marca que a levou à prudência, a esquiar com o travão sempre acionado.
O norte-americano de 21 anos a fazer aquilo que ninguém fazia há 50 anos: aterrar, de forma legal, um mortal para trás em Jogos Olímpicos
No combinado alpino feminino por equipas fazia dupla com Breezy Johnson, recém-sagrada campeã de downhill. A compatriota realizou a primeira manga nessa especialidade, deixando Mikaela nas melhores condições possíveis para arrebatar uma medalha no slalom. Em oito participações na especialidade na Taça do Mundo da presente época, a golden girl do Colorado nunca fez pior do que segundo.
Só que desde a saída que Shiffrin não foi Shiffrin. Muito cautelosa, extraordinariamente prudente, sem faísca. Era como esquiar com um peso na memória. Acabou com o 15º melhor tempo entre as 18 que terminaram. Ao cruzar a chegada suspirou, desapontada.
Apesar do registo de Johnson ter colocado a parelha estelar dos EUA em primeiro, o resultado final para Breezy e Mikaela neste exercício coletivo foi apenas quarto. O ouro foi para Ariane Raedler e Katharina Trupe, da Áustria, a prata para as alemãs Kira Weidle-Winkelmann e Emma Aicher. O bronze foi para Jackie Wiles e Paula Moltzan, que levavam o nome de equipa EUA 2, mas adiantaram-se às mais cotadas dos Estados Unidos
Mikaela Shiffrin estreou-se nos Jogos com uma prestação muito abaixo do que tem feito
Christophe Pallot/Agence Zoom
A “mais eficiente, graciosa, limpa e técnica esquiadora” da história, como descrita pelo The Athletic, ampliou para sete as corridas olímpicas sem subir ao pódio. Não o faz desde 2018, quando obteve um ouro e uma prata em PyeongChang para adicionar ao ouro que já trazia de Socchi 2014.
Grande favorita a brilhar em Pequim 2022, a ausência de medalhas de Shiffrin foi um dos destaques dos passados Jogos. O bloqueio da norte-americana a Oriente surgiu meses depois do caso de Simone Biles em Tóquio, que alertou para a saúde mental dos grandes craques olímpicos.
Entre o segmento de downhill e o slalom, Johnson, consciente do peso colocado em cima da sua parceira, tentou aliviar o fardo de Mikaela. "Ouve, eu já tenho o meu ouro [nestes Jogos], não te preocupes comigo, não há pressão", disse a campeã olímpica e mundial.
Em 2022, a golden girl saiu do palco olímpico dizendo sentir-se "uma piada". Reergueu-se e, apesar de ter sofrido de Transtorno de Stress Pós-Traumático na sequência de uma queda em novembro de 2024, voltou a dominar as competições entre Pequim e Milão-Cortina.
No entanto, competir perante os anéis mais famosos do desporto terá ativado os fantasmas. E assim prossegue a busca de Mikaela pela sua identidade competitiva. Segue-se o slalom gigante, a 15 de fevereiro, e depois o slalom, especialidade pessoal, dia 18.
"Não encontro um nível de conforto que me permita produzir velocidade máxima. Terei de aprender o que fazer, perceber como posso ajustar-me no pouco tempo que tenho até às próximas corridas", comentou a esquiadora depois da estreia nos Jogos. "Tenho estado muito bem em todos os slaloms da temporada. Há algo a aprender com este dia. E vou aprender", prometeu.