Jogos Olímpicos de Inverno 2026

O “curlingfiasko” virou a festa dos irmãos Wranå, os suecos de ouro contra o ruído americano

Os irmãos Wranå durante a discussão da medalha de ouro nos Jogos
Os irmãos Wranå durante a discussão da medalha de ouro nos Jogos
China News Service

Isabella, estreante em Jogos, e Rasmus, já com duas medalhas olímpicas, deram o título nos pares mistos do curling à Suécia. Os irmãos, filhos de um bicampeão do mundo, levaram a melhor numa final épica, derrotando na última pedra a dupla dos EUA formada por uma técnica de laboratório e um agente imobiliário

O “curlingfiasko” virou a festa dos irmãos Wranå, os suecos de ouro contra o ruído americano

Pedro Barata

Jornalista

No fim de tudo, a tarde virara um espaço de emoções contrastantes. Rasmus Wranå, figura do curling, com cinco títulos mundiais, quatro europeus e duas medalhas olímpicas, formando equipa com Isabella Wranå, debutante em Jogos, campeão do mundo em juniores, mas até há pouco um nome relativamente distante do topo da modalidade; de um lado o barulho dos Estados Unidos, os gritos do público, Korey Dropkin gesticulando e puxando pelos adeptos como se fosse o chefe de claque, do outro a serenidade sueca, o semblante pensativo de Rasmus, os óculos de Isabella dando-lhe um ar de estudante atenta.

Para culmirar as antíteses, a derradeira oposição. Uns a lançar, os outros a esperar. Uns perseguindo, os outros sendo perseguidos. Um último lançamento para determinar ouro e prata, prata e outro.

A final dos pares mistos do curling chegou à derradeira ação com os Estados Unidos da América na frente por 5-4. No entanto, na oitava e última ronda, a parelha composta por Korey Dropkin e Cory Thiesse encerrou a participação fazendo o objeto que define a modalidade andar em excesso. Abrira-se uma janela de oportunidade para a reviravolta.

Previamente ao começo deste ronda ouvira-se Thunderstruck, dos AC/DC, no sistema sonoro do recinto. O que se seguira foi como um silencioso trovão: impactante, mas calado na sua expetactante viagem.

Coube a Isabella lançar o último bocado de granito polido, vindo da ilha escocessa de Ailsa Craig, até ao alvo. A mais nova dos Wranå, de 28 anos, arremessou, o mais velho, de 31, escovou. A tentativa foi perfeita.

Enquanto a pedra viajava, o ar encheu-se com a gélida tensão do momento. Até que um grito irrompeu pela arena. Era Isabella, celebrando: 6-5 para a Suécia, os manos Wranå, primeira equipa de irmãos a representar o país nórdico nos Jogos de inverno, campeões olímpicos.

Os manos Wranå com o ouro
China News Service

Depois do martelo para o ouro, até a forma como cada um dos manos festejou evidenciava os trilhos diferentes para atingir a glória. Isabella exultou, saltou, esbracejou. Rasmus, habituado a estes cenários, foi fleumático, cumprimentando os adversários norte-americanos, que aceitaram a prata com desportivismo.

O atribulado caminho até à final

O pai Wranå, Mats, é uma figura do curling sueco, bicampeão mundial e treinador. Os filhos, que cresceram competindo um contra o outro, seguiram a vocação paterna, mas com êxito díspar.

Rasmus é, juntamente com Anders Kraupp, o único homem a ganhar os três tipos de campeonato nacional na Suécia (por equipas, misto e pares misto). Campeão olímpico por equipas em Pequim 2022 e prata em PyeongChang 2018, tem cinco títulos mundiais, quatro europeus e um global de 17 medalhas em competições planetárias, continentais e olímpicas.

Isabella está a conhecer a glória ao lado do irmão. Em 2024, os Wranå sagraram-se campeões do mundo, sendo sucedidos, no ano seguinte, pela dupla que agora bateram na final de Milão-Cortina.

Não obstante, a ligação de Ramus e Isabella ao curling não podia ser mais diferente dos conquistadores da prata de 2026. Jogadores amadores, Cory Thiesse — a primeira mulher dos EUA a subir ao pódio do curling na história dos Jogos — é técnica de laboratório e Korey Dropkin é agente imobiliário. Conheceram-se no secundário e tornaram-se equipa quando Dropkin convidou Thiesse para formar dupla consigo após falhar a qualificação para Pequin 2022. Passados quatro anos, são campeões do mundo e vice-campeões olímpicos.

O rumo dos nórdicos até ao ouro esteve longe de ser uma suave linha reta. Na fase inicial da competição, em que 10 seleções jogam entre si para apurar os quatro semi-finalistas, os Wranå perderam três jogos consecutivos.

Seguindo para as rondas a eliminar com cinco triunfos e quatro derrotas, os títulos na imprensa sueca eram sugestivos: “curlingfiasko” era a expressão da exigência de um país habituado a ganhar no curling, contando 25 ouros em Mundiais, registo só superado pelos colossais 61 do Canadá.

Antes das meias-finais, Isabella e Marcus perderam diante da Grã-Bretana e dos EUA. Foram, justamente, essas as vítimas nos dois derradeiros confrontos, virando de pernas para o ar a prestação olímpicas em escassos dias.

Na sequência da final, a mais nova era, novamente, a mais expressiva. O momento clutch fora seu e Isabella não escondeu que estava nervosa, o que não a impediu de fazer o lançamento perfeito. O meu irmão ajudou-me imenso. É um grande jogador, uma grande pessoa e um grande irmão. É uma alegria jogar curling com ele, confessou a campeã.

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