Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Em outubro, Julia Simon foi condenada por roubar dinheiro a uma colega de seleção. Agora é bicampeã olímpica de biatlo

Julia Simon a disparar nos Jogos Olímpicos Milão-Cortina
Julia Simon a disparar nos Jogos Olímpicos Milão-Cortina
Alexander Hassenstein

Meros três meses e meio depois de usurpar o cartão de crédito de uma compatriota para fazer compras (e de ter feito semelhante a uma fisioterapeuta), a francesa é um dos grandes nomes de Milão-Cortina. Duplamente vencedora na arte de esquiar e disparar, Simon está a receber apoio psicológico para “perceber” o que a levou a roubar sem ter “motivos económicos para o fazer”

Em outubro, Julia Simon foi condenada por roubar dinheiro a uma colega de seleção. Agora é bicampeã olímpica de biatlo

Pedro Barata

Jornalista

A neblina que cobria os picos das montanhas da fronteira entre Itália e a Áustria conferia um toque lúgubre à fotografia da chegada da prova de 15 quilómetros do biatlo. A Antholz-Anterselva Biathlon Arena localiza-se no Tirol do Sul, também conhecido, desde há uns anos, como a Itália de Jannik Sinner, e a paisagem comportava-se como frequentemente imaginaríamos uma tarde cinzenta nos telhados da Europa.

Foi naquele pedaço de neve que Julia Simon concluiu, triunfal, a competição. Fechou a dezena e meia de quilómetros com velocidade impressionante, só falhando um alvo no manejo da arma que carregava às costas.

Os Jogos Olímpicos de inverno 2026 têm numa francesa de 29 anos um dos seus destaques. Natural de Albertville, a sede de 1992, Simon juntou o êxito nos 15 quilómetros ao ouro que ajudou a estafeta mista gaulesa a arrebatar. Adiciona os dois bocados de glória à prata que ganhou na estafeta mista de Pequim 2022.

A mais de oito minutos de distância de Simon chegou Justine Braisaz-Bouchet, também de França. Se o ritmo a esquiar e a precisão no tiro distanciam Julia de Justine, há algo que as juntará para sempre: partilharam um caso judicial. Mas em lado opostos do tribunal.

Simon e Justine Braisaz-Bouchet durante uma prova da Taça do Mundo em janeiro
picture alliance

Em 2022, Justine Braisaz-Bouchet apresentou uma queixa junto das autoridades. A atleta acusava Julia Simon, companheira de seleção, de lhe usurpar o cartão de crédito, usando-o para fazer compras online.

Os factos da queixa iniciaram-se em 2021 e iriam até 2023, já depois da situação ter passado para as mãos competentes. Também lesada foi uma fisioterapeuta da equipa de França, com Simon a gastar mais de dois mil euros do dinheiro alheio.

Até ao final de outubro de 2025, a recém-sagrada bicampeã olímpica negou todas as acusações. Alegava estar a ser vítima de roubo de identidade, mas terem sido encontradas fotografias dos tais cartões de crédito no seu telefone deitou por terra parte da defesa.

Julia Simon viria a admitir tudo. Foi considerada culpada por roubo e fraude com cartão de crédito, tendo sido condenada a três meses de prisão, com pena suspensa. Foi ainda multada em €15 mil e, no âmbito desportivo, a federação internacional de esqui afastou-a da competição durante um mês, com outros cinco de pena suspensa.

Porquê?

Com 13 medalhas em Mundiais, incluindo 10 de ouro, e 26 triunfos na Taça do Mundo, as conquistas de Milão-Cortina cimentam o estatuto da primeira francesa a ganhar nos 15 quilómetros do biatlo. O que só adensa as questões quanto ao que motivou o delito.

Simon com o segundo dos ouros que ganhou em Milão-Cortina
Alexander Hassenstein

Julia Simon também se parece questionar. Aparantemente honesta, comentou com estupefacção o episódio durante o julgamento.

"Não consigo explicar. Não me recordo de fazer isto. Não faz sentido. Não tenho motivos económicos para o fazer. Foi ridículo e estúpido, porque não tinha necessidade. Confesso as acusações, mas não me lembro de cometer estes crimes, é como um apagão, incompreensível", disse perante o tribunal.

Nos últimos meses, Simon recorreu a apoio psicológico para "perceber" o tal "apagão", com o objetivo de "crescer e evoluir".

Justine Braisaz-Bouchet não foi só vítima de roubo por parte de uma colega biatleta. Perante o brilho que a compatriota ia tendo, a também triunfadora gaulesa — um ouro nos Jogos de 2022, uma prata nos de 2018, 12 medalhas em Mundiais — partilhou que a denúncia que fez deixou "muita gente enfurecida", o que a levou a receber "muitos comentários" de quem dizia que somente buscava "atenção".

O incidente, que abalou o biatlo francês nos meses prévios a Milão-Cortina 2026, não parece estar a ter repercussões nas prestações com os esquis e a arma. Nos mesmos 15 quilómetros em que Simon levou o ouro, a prata foi para Lou Jeanmonnot, outra francesa, que fez melhor que a búlgara Lora Hristova. A estafeta mista de 4X6km, com Jeanmonnot, Simon, Eric Perrot e Quentin Filon Maillet foi ouro, com Perrot, a solo nos 20 quilómetros masculinos, a festejar uma prata.

Ao cruzar a chegada, apadrinhada pelas montanhas que dançam entre Itália e Áustria, Julia Simon levou o indicador à boca, no clássico gesto de mandar alguém calar. No entanto, a biatleta recusou-se a especificar o destinatário do recado. "A pessoa sabe quem é, porque falámos previamente. Mas não direi quem é, está acabado", contou, enigmática, a francesa.

A bicampeã olímpica assumiu que se trataram de "meses duros", mas que "teve o foco sempre nítido" na mente: "Centro-me no biatlo, que é a coisa que mais amo. Depositei toda a minha energia neste objetivo e tive a prova perfeita."

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