Jogos Olímpicos de Inverno 2026

A noite em que a filha derrotou a mãe: ou como a adolescente Choi Gaon bateu a lendária Chloe Kim e virou o halfpipe do avesso

Choi Gaon, à direita, na cerimónia de entrega de medalhas com a bem-disposta Chloe Kim, que ficou com a prata
Choi Gaon, à direita, na cerimónia de entrega de medalhas com a bem-disposta Chloe Kim, que ficou com a prata
Cameron Spencer

Vem do snowboard uma das grandes surpresas de Milão-Cortina: a norte-americana que tentava um terceiro ouro seguido foi derrotada por uma sul-coreana de 17 anos. Numa competição cheia de teenagers, a nova campeã superou a sua mentora

A noite em que a filha derrotou a mãe: ou como a adolescente Choi Gaon bateu a lendária Chloe Kim e virou o halfpipe do avesso

Pedro Barata

Jornalista

Nevava muito em Livigno, na Itália que beija a Suíça. O céu estava escuro, registavam-se 5°C negativos, o ambiente era gélido, apropriado para a primeira cena de uma série escandinava sobre um assassínio em série que se escondia entre os pinheiros.

As condições adversas impactaram no desempenho de quem tinha de fazer manobras entre duas paredes com 7,5 metros de altura. Sete das nove primeiras participantes na final do halfpipe, no snowboard, caíram na primeira tentativa.

Uma delas foi Choi Gaon. De 17 anos, estatelou-se com violência na neve. Os médicos da competição foram rápidos a chegar perto da sul-coreana, que efetuava a estreia olímpica. Temia-se o abandono quando ainda faltavam mais duas tentativas.

Entre a dor, uma voz familiar aproximou-se de Gaon. Tu consegues. És uma snowboarder rija. As palavras foram proferidas por Chloe Kim, a lenda do halfpipe, fenómeno de precocidade, campeã olímpica em 2018 e 2022, favorita para 2026.

Kim estava correta. Choi reergeu-se e foi competir. Mas talvez a norte-americana não soubesse o quão rija era a sul-coreana.

O pódio com Choi Gaon, Chloe Kim e Mitsuki Ono
David Davies - PA Images

Na última das runs, Choi levitou. Saíram todos os movimentos, todas as ligações, todos os voos aterraram com segurança. Cada atleta tem três rondas para ser avaliada, só contando a melhor das três, avaliando os juízes a dificuldades dos truques, a execução suave e a altura dos saltos.

Mal a sul-coreana completou o exercício sentiu-se um bafo de calor entre a neve. A cara da adolescente ia entre o delírio e a surpresa. A equipa vinda lá de longe, da Ásia, fundiu-se em abraços, consciente que fora colocada a fasquia num nível que poderia dar medalha.

A incontestada líder da final era Chloe Kim, não parecendo ressentir-se de ter deslocado um ombro na sequência de um acidente na Suíça há meros 35 dias. A bicampeã somava uma pontuação de 88.00, os juízes deram 90.25 a Choi Gaon.

A californiana tentou responder. Jamais um snowboarder, homem ou mulher, lograra três títulos olímpicos seguidos no halfpipe. Chloe fez-se à neve, mas o risco que teve de tomar fê-la cair. O ouro ia mesmo para quem, pouco antes, esteve à beira da desistência.

Choi Gaon depois da sua queda
Patrick Smith

Escreveu-se um dos maiores choques destes Jogos Olímpicos de Inverno. Jamais a Coreia do Sul vencera uma medalha em desportos de neve. Gaon consagrou-se numa noite de juventude, em que os 25 anos de Kim a fazem parecer uma veterana: o bronze foi para Mitsuki Ono, do Japão, de 21 anos. A quarta, Sara Shimizu, e a quinta, Rise Kudo, ambas japonesas, têm 16.

Entre a eufórica celebração de Gaon, destacou-se um abraço. Era Chloe Kim, que passou de lhe dar palavras de conforto perante uma presumível derrota para a felicitar na glória suprema. Soube a passagem de testemunho, mas não foi a primeira vez que a mais velha congratulou a mais nova.

As lágrimas e o exemplo

Quem disse que uma birra não poderia ser produtiva?

Há 10 anos, Choi Gaon tinha sete. Foi nesse período que o seu pai apareceu, orgulhoso, com um presente para cada uma das filhas. A irmã mais velha recebeu uma prancha de snowboard enquanto Choi ganhou um par de skis, considerados mais apropriado para uma menina aprender a andar na neve.

A reação da filha pequena foi contundente. Desatei a chorar, inconsolada, porque também queria fazer snowboard, revelou a nova campeão olímpica à Associated Press.

No dia seguinte, o pai ofereceu-lhe uma prancha de snowboard. A primeira vez no halfpipe foi amor à primeira vista, recorda Gaon.

Quando a sul-coreana começou a destacar-se no snowboard, as comparações com a figura mais dominante dos saltos e acrobacias em cima de uma tábua não tardaram: Kim é filha de pais sul-coreanos; ambas têm um pai como figura tutelar, sendo que no caso de Kim isso até teve implicações nos problemas de saúde mental que sofreu — a ideia nunca foi: vamos fazer isto porque é fixe. Desde criança que era: vamos ganhar os Jogos Olímpicos, chegou a confessar Kim. As duas fartaram-se de ganhar competições internacionais desde a pré-adolescência.

Chloe e Choi encontraram-se várias vezes em treinos na Suíça ou na Nova Zelândia, com a lenda a dar conselhos e instruções à aspirante. Em 2024, a sul-coreana venceu um ouro nos X Games, série de competições de modalidades radicais. Tornava-se, aos 14 anos, a mais nova a fazê-lo, roubando esse estatuto a Chloe. Após esse triunfo, a norte-americana recorreu ao Instagram como uma progenitora orgulhosa.

Ela já não é pequenina. Conheço-o há imenso tempo e, agora, ela está a fazer grandes coisas. Sinto-me uma mãe orgulhosa. O futuro do snowboard está em boas mãos, lia-se.

O futuro foi a 12 de fevereiro de 2026. No dia seguinte à birra, quando Choi recebeu a prancha, desatou a ir ao Youtube ver manobras de Chloe Kim. O círculo de aprendizagem cerrou-se numa noite gelada em Itália.

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