Jogos Olímpicos de Inverno 2026

Johannes Høsflot Klæbo, o admirável homem das neves

Os quatro ouros de Klæbo em Milão-Cortina permitiram-lhe chegar aos nove títulos olímpicos, um recorde
Os quatro ouros de Klæbo em Milão-Cortina permitiram-lhe chegar aos nove títulos olímpicos, um recorde
Alex Pantling

O norueguês, que já conquistou quatro ouros em Milão-Cortina 2026, chegou aos nove títulos olímpicos, um recorde em Jogos de inverno. Até final da presente edição, o versátil esquiador de fundo ainda ambiciona subir mais duas vezes ao lugar mais alto do pódio

Johannes Høsflot Klæbo, o admirável homem das neves

Pedro Barata

Jornalista

Frilufsliv é o termo que os noruegueses utilizam para descrever o amor pela vida ao ar livre, em comunhão com a natureza, aproveitando o meio ambiente e não o destruindo. A expressão, que tanto se aplica a ir passear o cão para um parque natural como a ir praticar desporto na neve, foi popularizada na década de 1850 pelo dramaturgo e poeta Henrik Ibsen.

Johannes Høsflot Klæbo é um praticante de frilufsliv. Desde sempre gostou de ir pescar, fazer montanhismo ou caçar com a família. E é em contacto com a natureza que entrou para a história do desporto mundial.

Como cereja do topo do bolo que era a seleção norueguesa, Klæbo, juntamente com Emil Iversen, Martin Løwstrøm Nyenget e Einar Hedegart, venceu a estafeta de 4x7,5 km do esqui de fundo. Ao subir ao pódio em Tesero, onde o céu limpo conferia uma luz clara à celebração, Johannes escrevia o inédito: tornava-se o primeiro atleta a conquistar nove ouros em Jogos Olímpicos de inverno.

Em Milão-Cortina 2026, Klæbo tem sido como um furacão a arrasar as competições do cross-country. Já vai em quatro ouros pendurados ao pesço, triunfando nos 20 km de esquiatlo, no sprint clássico, nos 10 km em estilo livre e nos 4x7,5 km.

O quarteto do metal mais desejado em Itália junta-se aos dois ouros de Pequim 2022 e aos três de PyeongChang 2018. Contando Jogos de verão e inverno, os nove títulos levam-no a igualar Caeleb Dressel, Carl Lewis, Mark Spitz, Paavo Nurmi, Katie Ledecky e Larisa Latynina. Coisa pouca. Michael Phelps lidera a lista, com umas estratosféricas 23 medalhas de ouro.

Klæbo mostra uma das medalhas de ouro de Milão-Cortina
Anadolu

No horizonte de Johannes, de 29 anos, está cimentar esta história de neve, esquis e um bastão em cada membro superior. Quarta-feira é o sprint por equipas, sábado são os 50 km estilo clássico. Klæbo é favorito para ambas as provas, podendo repetir o sêxtuplo êxito logrado nos Mundiais do ano passado, em casa, em Trondheim.

O polivalente da terra dos esquiadores

A imagem tornou-se rainha da internet durante umas horas, virando pano de fundo para todo o tipo de piadas. Klæbo a subir uma empinada rampa nevada como um rapaz de mochila às costas a tentar não perder o autocarro foi a marca registada do início de Milão-Cortina.

Na verdade, aquela infernal aceleração tem um nome. Klæbo-kliv. Quando o norueguês sobe a cadência do seu ritmo, ascendendo com potência inalcançável para os adversários, parece que entrou num videojogo em que alguém carregou um botão para que Johannes se transformasse num qualquer ser vindo de uma realidade paralela, detentor de um propulsor que o leva montanha acima.

O momento que viralizou veio da prova de sprint. Uma das muitas proezas do dono de 29 medalhas entre Mundiais e Jogos está na polivalência, destacando-se em corridas de velocidade, que não chegam aos quatro minutos, em competições de mais de 45 minutos, como o esquiatlo, ou nas quase duas horas que tardou nos 50 quilómetros estilo livre nos passados Mundiais.

Quando Johannes Høsflot Klæbo acelera, desbravando caminho entre a neve, há algo de mítico e místico que sai das entranhas das montanhas, tipo de monstro da mitologia nórdica que devora os indefesos nas florestas geladas. Mas a besta também se cansa: ao acabar os 10 km em estilo livre, o norueguês caiu para o lado, tal como todos os outros participantes naquele esforço colossal.

Johannes Høsflot Klæbo durante os Jogos olímpicos
Davide Barbieri/NordicFocus

As proezas de Klæbo, o homem do Frilufsliv, consolidam o êxito noruguês no cross-country, onde o país é a potência histórica. Em Milão-Cortina, além do açambarcador de ouros, Einar Hedegart foi bronze nos 10 km em estilo livre, Martin Løwstrøm Nyenget bronze no esquiatlo, Oskar Opstad Vike bronze no sprint clássico. A equipa feminina de 4x7,5 km foi campeã, com Heidi Weng bronze no esquiatlo.

Na Noruega há cerca de um clube de esqui por cada 5 mil habitantes. As 129 medalhas obtidas na modalidade não são fruto do acaso.

Como ponta da lança do país que aponta o caminho do Norte está “o maior esquiador da história”, concordam Elia Barp e Remi Drolet, dois adversários de Johannes, o primeiro italiano, o segundo canadiano. O recorde de mais ouros somados numa edição de Jogos de inverno, na posse do patinador de velocidade Eric Heiden, dos EUA, com cinco, pode cair dentro de dias. Mas ser o olímpico do frio com mais medalhas permanacerá um recorde de Marit Bjørgen, esquaidora de fundo também norueguesa, com 15.

Quando era pequeno, Johannes Høsflot Klæbo idolatrava Petter Northug, bicampeão olímpico em Vancouver 2010 e 13 vezes ouro em Mundiais. Certo dia, Johannes fingiu uma dor de estômago na escola para poder ir para casa ver Northug competir. Não é de estranhar que na Noruega de 2026 haja quem repita a estratégia com Klæbo como motivo.

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