À derradeira oportunidade, Mikaela Shiffrin afastou os fantasmas olímpicos e reconciliou-se com o ouro
Shiffrin e o ouro que há tanto procurava
Julian Finney
Na terceira e última vez que entrou em prova nos Jogos, a norte-americana subiu, finalmente, ao pódio, e logo como campeã. Passados oito anos e muitas desilusões, Shiffrin chega ao terceiro ouro olímpico. Vanina Guerillot foi 45ª e fechou a participação portuguesa em Milão-Cortina
Se os medos e ansiedades estariam sempre presentes antes de Mikaela Shiffrin concluir a participação no slalom, os instantes prévios à descida da norte-americana foram como um dançar dos fantasmas diante do seu nariz. Queres chegar ao ouro? Então lida lá com os lugares sombrios da mente.
Ornelia Oehlund, sueca, foi a antepenúltima a partir. Um deslize, uma queda, fora de competição. Alerta para Mikaela.
Lena Duerr fez-se à descida mesmo antes de Shiffrin. A prova da alemã durou uns dois segundos, já que a segunda mais rápida na manga inaugural foi, de forma algo bizarra, contra o primeiro pórtico, parecendo possuída por um feitiço que a petrificou. Alerta para Mikaela.
Aqueles síntomas eram-lhe familiares. O bloqueio, as quedas, as hesitações, sentir-se“uma piada“, não conseguir fazer o que em circunstâncias semelhantes parecia rotineiro.
E chegou a vez da mulher do Colorado. O ouro estava lá em baixo, no fundo da rampa. Depois de uma muito sólida primeira run, onde deixou toda a concorrência a mais de 0,8 segundos, havia até margem para gerir, para não forçar.
Shiffrin fez-se à descida com segurança, naquele estilo de slalom suave, carregando pouco nos esquis, fazendo pouca força na neve, quase para não aborrecer a montanha nos Dolomitas. Os fantasma haviam desfilado, segundos antes, na cara da norte-americana. Ela sorriu, afastou-os, ganhou.
Na última tentativa, o desejado ouro. Mikaela Shiffrin, a golden girl, sagrou-se campeã olímpica no slalom do esqui alpini em Milão-Cortina 2026. Depois de não conseguir uma medalha no combinado alpino nem no slalom gigante, a sua conflituosa relação olímpica voltou a ser motivo de sorrisos.
O pódio, com Shiffrin ao meio, ladeada por Rast (à esquerda) e Larsonn (à direita)
Ezra Shaw
A manhã em Olympia delle Tofane apresentou-se clara, claríssima, com a neve parecendo feita por inteligência artificial, tal a perfeição do manto branco. Neste quadro limpo, Shiffrin competiu tendo a última oportunidade em Milão-Cortina 2026.
Seria a derradeira chance olímpica? Shiffrin tem 30 anos, já mencionou querer criar uma família e dedicar-se a ela. Está há década e meia na elite do esqui alpino. Haveria outra oportunidade nos Jogos depois desta?
A esquiadora dos Estados Unidos era amplamenta favorita à vitória. Vinha de uma grande época no slalom, a sua especialidade, com sete triunfos em oito competições, adensando o domínio que exerceu sobre a disciplina ao longo dos últimos anos.
Das 108 vezes que ganhou provas na Taça do Mundo, 71 foram no slalom. Em 126 ocasiões que competiu nesta arte de ziguezaguear na neve, terminou no pódio em 97.
Vonn a descer a montanha do Centro de Esqui Alpino de Tofane, em Cortina, nos treinos que antecederam a prova onde sofreria uma gravíssima queda, que marcou o arranque dos Jogos Olímpicos de inverno
Mas os precedentes davam contornos de tensão ao que, em locais diferentes, seria rotina. Desde 2018 que as medalhas olímpicas escapavam à mais laureada das esquiadoras alpinas.
Em Pequim houve três quedas em seis corridas, uma desilusão absoluta para quem, basicamente, não sabia o que era perder. Em Milão-Cortina a tortura foi mais fina, mais requintada, não se estatelando na neve, mas com um certo bloqueio que a levava a não encontrar a sua velocidade.
Agora não houve fantasmas que a atormentassem. Venceu com autoridade, 1,5 segundos mais rápida do que a prata, a suíça Camille Rast, com o bronze a ser da sueca Anna Swenn Larsonn.
Mais atrás, Vanina Guerillot foi 45.ª, depois do 41.º do slalom gigante. Está terminada a presença portuguesa nestes Jogos.
Para Shiffrin, a despedida faz-se com a reconciliação do ouro, um metal que não conhecia desde o título no slalom gigante de PyeongChang, em 2018. No slalom, o seu elemento, repete o êxito de Sochi, em 2014. Então era uma adolescente de 18 anos. Agora é uma mulher de 30, uma lenda de pazes feitas com os cinco anéis entrelaçados mais famosos do desporto.