Liga dos Campeões

A caótica última jornada da Champions: 18 jogos em simultâneo, o Sporting entre os tubarões, o domínio inglês e a magia de Trubin

O épico festejo do 4-2 marcado por Trubin
O épico festejo do 4-2 marcado por Trubin
MIGUEL A. LOPES

O último dos 61 golos da noite foi histórico para o Benfica e para a competição, fechando a fase de liga com emoção poucas vezes vivida. A outra equipa da Segunda Circular foi a exceção num top 15 só com representantes das big 5, sobretudo ingleses, dando o Qarabag e o Bodø/Glimt o toque exótico ao play-off

A caótica última jornada da Champions: 18 jogos em simultâneo, o Sporting entre os tubarões, o domínio inglês e a magia de Trubin

Pedro Barata

Jornalista

É bem possível que o cabeceamento de Trubin tenha sido efusivamente festejado em Nyon. Não porque a UEFA, sediada na cidade suíça, tivesse especial interesse na ida do Benfica ao play-off da Liga dos Campeões, mas porque aquele golo era o melhor carimbo de êxito que o novo formato da principal competição europeia de clubes poderia obter.

A fase de liga, a viver o segundo ano de vida, deposita grandes esperanças na derradeira jornada. Dezoito encontros em simultâneo, os resultados de uns a influenciarem os outros, um serão de futebol europeu com o telefone na mão e scroll constante à tabela que vai sempre variando. Para que isto resulte, para que esta roupagem dada ao torneio seja, de facto, vibrante e não apenas meia temporada de encontros para eliminar meras 12 equipas de 36, é preciso um momento que dê correspondência prática à ideia de magia que se pretende vender.

O momento surgiu às 22h02 de quarta-feira. Foi o 61.º e derradeiro golo da ronda, tornando Trubin no quinto guardião a marcar na Liga dos Campeões. Sucede a Hans-Jörg Butt, que teve uma passagem discreta pelo Benfica mas obteve a proeza de marcar três golos na prova por três equipas diferentes (Hamburgo, Leverkusen, Bayern); Sinan Bolat, ex-FC Porto que festejou pelo Standard Liège; Vincent Enyeama, pelo Hapoel Tel Aviv, e Ivan Provedel, ao serviço da Lazio.

Todas as restantes partidas já haviam terminado quando Trubin marcou ao oitavo minuto de compensação na Luz. A BBC destacou, em direto, um momento “fenomenal”; em Itália, a Gazzetta dello Sport destacou o “delírio” em Lisboa; em Espanha, a Marca centrou-se no “fiasco” do Real Madrid, que levou “uma aula de Mourinho”.

Nas carambolas que a noite teve, um dos beneficiados da vitória do Benfica foi o Manchester City. Os ingleses, que entraram entre os oito primeiros pela derrota blanca na Luz, agradeceram, pela voz de Pep Guardiola, o auxílio que chegou de Portugal.

Os momentos finais do Benfica-Real Madrid concentraram a energia que a UEFA quer que esta noite de futebol, envolvendo 36 equipas, possua. Nos minutos anteriores à subida de Trubin, o Copenhaga viu confirmada a derrota perante o Barcelona, o Nápoles tombou contra o Chelsea, o Marselha não conseguiu marcar ao Brugge - que chegou a parabenizar os franceses, nos ecrãs gigantes do próprio estádio, pela passagem ao play-off. Ainda não terminara o Benfica-Real, estava por chegar o golo de Trubin que faria os encarnados ultrapassarem os marselheses.

Um dos últimos empurrões veio do País Basco. O Sporting derrotou o Athletic, confirmando que a equipa de José Mourinho só dependia de si. Mas faltava um golo.

A informação tardou a chegar ao relvado, tanto que Mourinho, enganado por alguém que ter-se-á atrasado a fazer os cálculos, fez uma dupla substituição assumidamente defensiva. O 3-2 não chegava, faltava mais um, tal como as bancadas cantavam.

No último esforço, o desejado golo chegou. Um golo de um guarda-redes a fechar a noite, com toda a Europa a olhar, permitindo que um histórico chegasse ao play-off e logo contra o rei da competição: a UEFA teve em Trubin o melhor amigo para a popularidade deste formato.

O Sporting entre a Premier League

Rui Borges sabe que estes são os contextos que mais beneficiam Alisson Santos. “Nestes jogos”, em que há espaço para correr, o brasileiro é “extraordinário”, disse o técnico depois da vitória contra o Athletic.

Com 2-2 no marcador, os bascos precisavam de marcar para não serem eliminados, o Sporting necessitava de um golo para atingir diretamente os oitavos de final, isto porque as notícias vindas de outros pontos do continente eram positivas. O caos deu o espaço que Alisson aproveitou para ser o herói. O ex-União de Leiria até tem sentido dificuldades em partidas do contexto nacional, sofrendo com a falta de espaços, mas brilhou na Europa diante de Marselha, PSG e Athletic.

Alisson foi o herói do Sporting no San Mamés
Soccrates Images

O Sporting concluiu a fase de liga em sétimo. É a única equipa não inglesa, alemã ou espanhola a estar já assegurada nos oitavos de final, sendo acompanhada por Arsenal, Bayern, Liverpool, Tottenham, Barcelona, Chelsea e Manchester City.

Ampliando a análise aos 15 primeiros, os leões são a única formação de fora das big 5 (Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e Itália) a constar da dezena e meia de melhores participantes da fase de liga.

Os bicampeões são uma das poucas equipas a contrariar a hegemonia inglesa neste momento da regularidade da Liga dos Campeões. A Premier League, que já é o único campeonato com seis representantes na competição, conseguiu a proeza de levar cinco clubes diretamente para os oitavos de final.

O Newcastle foi o único a ter de ir para o play-off. Este poderio traduz o domínio financeiro existente: na recente edição do Football Money League, da Deloitte, havia 15 equipas inglesas entre as 30 mais ricas do mundo. As segundas ligas mais representadas foram a Serie A e a Bundesliga, cada uma com com quatro entre os 30 mais endinheirados.

Para o Sporting, a Liga dos Campeões 2025/26 iguala, já, a melhor prestação de sempre do clube desde que a Taça dos Clubes Campeões Europeus deu lugar à nomenclatura atual. O desafio é fazer melhor do que em 2008/09 e 2021/21, as duas vezes em que os verde e brancos chegaram aos oitavos de final, saindo sempre goleados. No primeiro caso o Bayern arrasou por um acumulado de 12-1, no segundo o Manchester City triunfou por um total de 5-0.

Festa no Ártico e no Azerbaijão

O Sporting é a única equipa dos oito primeiros da tabela que não está nos 10 primeiros do ranking anual dos clubes mais ricos publicado pela Deloitte. Alargando a análise ao top 24, a grande maioria de quem segue para o play-off provém, igualmente, dos campeonatos financeiramente mais poderosos.

Entre quem não foi já eliminado, as notas de surpresa ficam para o Bodø/Glimt e o Qarabag. O clube do Círculo Polar Ártico, em estreia, galgou até à 23.ª posição graças a ter batido, nas duas últimas jornadas, o Manchester City e o Atlético de Madrid. Já os representantes do Azerbaijão, após começarem a fase de liga superando o Benfica, carimbaram o play-off com antecedência, quando derrotaram o Eintracht Frankfurt na penúltima ronda.

Nas desilusões, o Nápoles, campeão italiano, foi somente 30.º, agravando o péssimo registo de Antonio Conte na Europa. O Marselha, 25.º, também desiludiu, tal como o Eintracht, o único dos clubes que figura na lista da Deloitte a ser já eliminado. Os alemães, 22.º emblema que mais dinheiro gerou em 2024/25, ficaram apenas em 33.º.

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