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Filipa Pipiras, a primeira portuguesa Grande Mestre feminina de xadrez

Filipa Pipiras já era, desde 2023, a primeira mulher a entrar no top 10 nacional absoluto. Agora tornou-se a primeira a ser Grande Mestre de xadrez
Filipa Pipiras já era, desde 2023, a primeira mulher a entrar no top 10 nacional absoluto. Agora tornou-se a primeira a ser Grande Mestre de xadrez
D.R.

Gosta de correr, toca violoncelo, estuda medicina e admira Judit Polgár, a fenomenal húngara que foi a única mulher a entrar no top 10 mundial do xadrez. Filipa Pipiras tem 20 anos e conseguiu mais um feito: depois de ser a primeira jogadora a estar entre os 10 melhores praticantes nacionais, é a primeira portuguesa a alcançar o título vitalício de Grande Mestre feminina

Há dois anos pouco lhe importava olhar para as classificações entre xadrezistas. “Não me tenho preocupado muito com os rankings”, dizia Filipa Pipiras, adolescente na candura, aluna de Ciências no último ano de escolaridade obrigatória, “Não presto muita atenção se estou no top-15, top-10…”, reforçava, alheia à relevância do feito de então: era a primeira mulher a estar entre a dezena de melhores praticantes nacionais. “Eu quero é atingir o meu máximo potencial.”

É jovem, muito lhe resta viver, o seu teto no xadrez terá vagar para ainda ser bastante empurrado lá para as alturas, mas já lhe tocou viver outro pedaço de inédito. Filipa Pipiras tornou-se a primeira mulher portuguesa a ser Grande Mestre feminina (WGM), o segundo maior título na modalidade do tabuleiro com 64 casas - pode ainda ser Grande Mestre absoluta (GM). Conseguiu-o em Karlsruhe, na Alemanha, onde decorre o Grenke Open, torneio no qual a nascida em Durham, no estado norte-americano da Carolina do Norte, mas residente no Porto, alcançou a terceira e última norma para receber a distinção vitalícia.

Fã de atar as sapatilhas e dar às pernas em corridas diárias, também do violoncelo, Filipa Pipiras precisava, em resumo, de ter um rating superior a 2380 numa prova oficial da Federação Internacional de Xadrez (FIDE) com pelo menos nove jornadas e que acolhesse vários adversários de países distintos ao seu. Em Karlsruhe, na prova onde competiram, por exemplo, Magnus Carlsen, Ian Nepomniachtchi ou Hans Niemann, a portuguesa acabou com uma pontuação de 2510 pontos segundo o Elo, algoritmo usado para aferir a prestação dos jogadores.

Mesmo não ligando muito a essas coisas, entre os 998 inscritos no torneio, Filipa foi a 42ª classificada, sendo a melhor mulher da competição. No artigo em que explicou as contas da sua prestação, a Federação Portuguesa de Xadrez engrandeceu o feito: “A número 1 nacional atingiu o maior feito de sempre de uma xadrezista portuguesa.” Atualmente, existem 169 mestres nacionais, com o primeiro título atribuído em 1880 e o mais recente já este ano.

Quando falou com a Tribuna Expresso, em 2023, Filipa Pipiras desabafou como havia “muitos comentários sexistas, até pelas pessoas que estão no poder nesta modalidade”, lamentando a “diferença brutal” entre o número de jogadores masculinos e femininos. A portuguesa é admiradora confessa de Judit Polgár, prodígio húngaro que desafiou, durante os anos 80 e 90, a hegemonia de Garry Kasparov, pondo o crânio russo sem vergonhas a falar publicamente sobre o suposto predomínio intelectual dos homens sobre as mulheres no que toca ao xadrez. Polgár bateu, em 1991, o recorde de precocidade de Bobby Fischer (15 anos e quatro meses) quando ganhou o título de Grande Mestre, sendo a única mulher até hoje a figurar no top 10 do ranking mundial.

Agora a percursora, aos 20 anos, na distinção de Grande Mestre do xadrez entre portuguesas, Filipa relatava: “Há essa atitude, nos mais pequenos e também nos mais crescidos: perder com uma rapariga? Não pode ser, como é que se perde com uma rapariga? Não são todos, mas há demasiados. Sentem-se pior por perderem com uma rapariga, mesmo estando no mesmo nível.” Pelo vistos, muitos têm perdido com a estudante de medicina do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto.

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