A leoa de Friburgo: Audrey Werro cada vez mais perto de bater o recorde mais antigo do atletismo
Audrey Werro venceu os 800m, em Zurique, e aproximou-se mais uma vez do recorde mundial
Sona Maleterova
A atleta suíça está a reescrever a história dos 800 metros e, aos 22 anos, bateu a terceira melhor marca de sempre (que já lhe pertencia) no meeting de Zurique da Liga Diamante, ficando a 42 centésimos do recorde mundial mais antigo do atletismo. Entre outras, a principal rival, Femke Bol, promete dar-lhe luta pelo menos até Los Angeles 2028
Audrey Werro voltou a casa e voltou a fazer história. No estádio Letzigrund, em Zurique - onde em 2025 venceu a sua primeira prova da Diamond League -, a suíça de 22 anos venceu esta quinta-feira os 800 metros com um novo recorde pessoal de 1:53.70, a terceira melhor marca de sempre na distância e a segunda vez esta temporada que desce dos 1:54. Werro fica agora a apenas 42 centésimos do recorde do mundo que Jarmila Kratochvílová estabeleceu em 1983, e a 27 centésimos da segunda melhor marca histórica, os 1:53.43 da soviética Nadezhda Olizarenko. “Estou muito orgulhosa da minha prestação”, disse a suíça à “SRF“ depois da corrida.
Atrás dela ficou, mais uma vez, a neerlandesa Femke Broeders-Bol, antiga bicampeã mundial dos 400 metros barreiras que trocou de disciplina há menos de um ano, liderou a corrida até à segunda metade, acabou a cerca de um segundo de Werro e bateu, mais uma vez, o recorde nacional do seu país. “Esperava esta tática da parte dela, e até foi bom correr assim, em vez de ser sempre eu a liderar desde o início”, comentou Werro. Duas ausências pesaram no cartaz: Keely Hodgkinson e Lilian Odira, campeãs olímpica e mundial em título, tinham-se retirado do encontro nos dias anteriores, alegando falta de recuperação após os Europeus.
De Friburgo para o topo do mundo
Audrey Werro nasceu a 27 de março de 2004, na região de Friburgo, na Suíça francófona, filha de pai suíço, Claude, e de mãe marfinense, Philomène. Cresceu com uma irmã e dois irmãos, começou a correr aos 9 anos e nunca mais saiu do clube CA Belfaux, onde é treinada desde a adolescência por Christiane Berset Nuoffer. Uma relação de continuidade rara no atletismo de elite, que atravessou os títulos europeus de sub-20, o vice-campeonato mundial de juniores em 2022 e a explosão dos últimos dois anos.
Mas não foi um percurso linear. Em fevereiro de 2025, nos Europeus de pista coberta em Apeldoorn, Werro entrou na final como uma das favoritas e caiu a meio da corrida, terminando a 25 segundos da vencedora. Chorou na meta. Tinha 20 anos e o sonho de subir ao pódio tinha ficado desfeito em segundos. Ironicamente, é essa queda que a própria atleta aponta como ponto de viragem: garante que aprendeu a partir daí a ser mentalmente mais forte. Teve, porém, uma outra ajuda pelo facto de ter terminado a universidadepouco depois, o que lhe permitiu dedicar-se por completo ao treino, à recuperação e à competição. O resultado está à vista.
Em março deste ano, Werro conquistou a prata nos Mundiais indoor de Torun, na Polónia, atrás de Hodgkinson. Em junho, bateu o recorde da Liga Diamante em Estocolmo, com 1:53.98, tornando-se já na altura a terceira mulher mais rápida de sempre. Três semanas depois, em Paris, baixou essa marca para 1:53.80.
A 13 de agosto, nos Europeus de Birmingham, sobreviveu a uma queda dramática na meia-final - um contacto involuntário com a francesa Anaïs Bourgoin atirou-a ao chão a 120 metros da meta -, mas foi readmitida à final por decisão do júri e, dois dias depois, venceu o ouro com recorde da prova (1:54.81), batendo Hodgkinson na reta final. Uma semana depois, em Lausanne, voltou a vencer por apenas oito centésimos à frente de Broeders-Bol.
Esta quinta-feira, em Zurique, Werro fechou a temporada regular da Liga Diamante com o já referido novo recorde pessoal de 1:53.70. Foi a sua terceira corrida da carreira abaixo dos 1:54 e a prova mais consistente, até agora, de que o recorde do mundo já não é uma miragem, mas uma questão de tempo.
O rugido que veio do pai e da infância
Há um gesto que se tornou a assinatura de Werro: depois de cada vitória importante, levanta os braços com as mãos em forma de garra e solta um “rugido” para as bancadas. A origem vem de casa e da infância. Segundo a própria contou este verão, foi o pai, Claude, quem lhe disse, quando ela tinha por volta de 12 anos e era uma criança tímida, que antes de correr tinha de “ser uma leoa” e deixar de ter vergonha. O gesto ficou.
Audrey Werro sagrou-se campeã da Europa dos 800m em Birmingham, em 2026
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Toda esta ascensão trouxe consigo uma pergunta inevitável: será Werro capaz de destronar o recorde do mundo mais antigo do atletismo? Jarmila Kratochvílová, da então Checoslováquia, correu 1:53.28 em Munique, em 1983, no mesmo ano em que também conquistou o duplo título mundial dos 400 e 800 metros. A marca resiste há 43 anos e continua a ser a mais duradoura entre todos os recordes do mundo em pista e campo.
É também uma marca envolta em controvérsia. O físico extremamente musculado de Kratochvílová, associado a resultados tardios e excecionais numa carreira que atingiu o auge aos 32 anos, alimentou décadas de suspeitas de doping sistemático, prática que se sabe hoje ter sido comum entre atletas do bloco de leste durante a Guerra Fria.
Kratochvílová nunca foi apanhada num controlo antidoping e sempre defendeu a sua inocência, atribuindo o rendimento a um treino intenso e, segundo referiu em entrevistas ao longo dos anos, à toma de vitamina B12. A verdade sobre o que realmente sustentou aquele registo é algo que, como resumiu recentemente Keely Hodgkinson quando questionada sobre o tema, “nunca se vai saber ao certo”, até porque, sublinhou a britânica, muito poucas atletas alguma vez se aproximaram sequer da marca.
A checoslovaca Jarmila Kratochvílová, detentora do recorde mundial dos 800m
Don Morley - EMPICS
Em segundo lugar na lista histórica está a soviética Nadezhda Olizarenko, com 1:53.43, tempo com que venceu o ouro olímpico de Moscovo em 1980 - outro produto da mesma era e do mesmo sistema desportivo. Werro, por seu lado, tem preferido gerir a expetativa com os pés assentes na terra. Questionada várias vezes ao longo do verão sobre se vai atacar o recorde, respondeu sempre que o objetivo da temporada era o título europeu e que tudo o resto viria a seu tempo, sem pressa e sem prometer o que ainda não sabe se pode cumprir.
Mas ela vai ficando cada vez mais perto.
Se há uma rival que tem obrigado Werro a olhar constantemente por cima do ombro é Femke Broeders-Bol. A neerlandesa, de 26 anos e bicampeã mundial dos 400 metros barreiras - título revalidado em Tóquio no outono passado -, anunciou em outubro de 2025 a decisão de mudar de disciplina, com a mira posta no ouro olímpico dos 800 metros, em Los Angeles 2028.
A estreia, em fevereiro deste ano em Metz, já valeu recorde nacional (1:59.05), batendo uma marca holandesa que resistia desde 2001. Desde então, a progressão tem sido meteórica. Broeders-Bol igualou, nos Europeus de Birmingham, o recorde histórico da holandesa Ellen van Langen - 1:55.54, tempo com que a antiga atleta venceu o ouro olímpico de Barcelona 1992 e que resistia havia 34 anos - e conquistou o bronze na sua primeira grande medalha internacional nos 800 metros. Uma semana depois, em Lausanne, voltou a bater a própria marca nacional, desta vez com 1:55.41, atrás apenas de Werro. A própria Van Langen reagiu com satisfação ao ver a sua marca cair, dizendo estar feliz por ter uma “sucessora” à altura.
Femke Bol e Keely Hodgkinson a liderarem a sua meia-final dos 800 metros nos Europeus de atletismo
Nos quatro confrontos diretos que tiveram esta temporada - em Ostrava, Paris, Birmingham e Lausanne -, Werro venceu sempre, mas a margem tem vindo a encurtar-se de corrida para corrida. Em Zurique, juntou-se ao duelo Georgia Hunter Bell, medalha de prata mundial em Tóquio com 1:54.90 e uma das atletas em melhor forma esta temporada, depois de títulos nos Jogos da Commonwealth e nos Europeus de 1500 metros. Entre as três, o historial é apertado: Hunter Bell lidera o confronto direto com Werro por 4-2, mas nunca correu frente a Broeders-Bol nesta distância.
Com 1:53.70, Werro não chegou ao tempo de Kratochvílová, mas deixou claro que a distância a esse número mítico está a tornar-se, corrida a corrida, cada vez mais pequena. Seja qual for o desfecho final desta perseguição, o duelo entre a leoa de Friburgo e a ex-barreirista de Utrecht promete continuar a ser, pelo menos até Los Angeles 2028, um dos fios condutores mais interessantes do meio-fundo mundial. Depois de Zurique, resta uma última paragem: a final da Liga Diamante, em Bruxelas, a 4 e 5 de setembro.