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Não fez o bigode, e ainda bem: Vasco Vilaça é campeão mundial de triatlo

Vasco Vilaça, nascido na Amadora, é o primeiro homem português a ser campeão mundial de triatlo
Vasco Vilaça, nascido na Amadora, é o primeiro homem português a ser campeão mundial de triatlo
Hugo Silva

Aos 26 anos, Vasco Vilaça tornou-se o primeiro homem português a ser o melhor do mundo no triatlo: já tinha sido, ainda muito jovem, vice-campeão do mundo em 2020. Ficou em 2º lugar na finalíssima da época em Pontevedra, Espanha, resultado que lhe bastou para suceder a Vanessa Fernandes, que há quase 20 anos foi campeã. Ricardo Batista ficou com a medalha de bronze

Não fez o bigode, e ainda bem: Vasco Vilaça é campeão mundial de triatlo

Diogo Pombo

Editor de Desporto

“Bigode? Ou sem bigode?”

Era a questão de Vasco Vilaça. Com a pala do boné para trás, despido no tronco e a pilosidade entre o nariz e o lábio ainda com muito de buço, perguntou nas redes sociais, e na véspera de Pontevedra, se devia dar uso à gilete. Em contramão com as semanas anteriores em que partilhara vídeos do mais profissional que há, colados com filmagens dele a correr, nadar e pedalar nos Pirinéus franceses, legendados por frases motivacionais, o português deixou-se de tanta seriedade no dia anterior à final do mundial.

Fez bem em manter a sua amostra de bigode — e também fez bem em descontrair.

Das braçadas na água aos pedais da bicicleta às sapatilhas de corrida, Vasco Vilaça sagrou-se este domingo campeão mundial de triatlo. É o primeiro homem português a alcançar a distinção, imitando Vanessa Fernandes, a primeira a consegui-lo, em 2007, e de quem é um confesso admirador desde a sua prata olímpica em Pequim. Após dois primeiros lugares e três segundos, chegou na liderança do ranking à finalíssima do mundial, este domingo em Espanha, com o vento das aritméticas a soprar na sua direção mas com ele a querer afastar as matemáticas.

Bastar-lhe-ia um 5º lugar caso Matthew Hauser, teimoso australiano que o bateu uma e outra vez na época passada, vencesse a derradeira etapa. Vasco Vilaça não quis saber da margem que os 354 pontos a mais na classificação lhe davam: foi o mais rápido a nadar 1500 metros, a pedalar 40 quilómetros e a correr os últimos 10. Nascido na Amadora, há 26 anos, tornou-se o melhor do mundo em Pontevedra, Galiza, no lado oposto de Espanha ao do seu local de treino, em Girona, na Catalunha.

Desde 2020, quando não foi de modas a irromper no circuito ao ser vice-campeão, que perseguia este objetivo. Não era um sonho, “porque os sonhos ficam na cama”, como escreveu no Instagram. Das águas galegas saiu no 19º lugar, ainda não propriamente no ritmo ideal, mas ao terminar o segmento de natação, despir o fato isotérmico e montar a sua bicicleta, foi atrás de Ricardo Batista e Miguel Tiago Silva. Seguiu o exemplo dos outros dois portugueses, meteu-se no pequeno pelotão da frente, composto por 13 triatletas, durante as nove voltas a pedalar ao circuito no centro da cidade espanhola; no fim da última já era líder.

Ao dar muita corda dada às sapatilhas cedo Vasco se colou a quem tinha de ver bem de perto, ele e Ricardo Batista. Os dois portugueses não largaram a esteira de Matthew Hauser, o único que não podia fugir, e durante os 10 quilómetros uma imagem preveleceu: o australiano foi correndo, de passada constante, sempre com o bigode do líder do ranking a fazer-lhe sombra. Menos nos derradeiros 200 metros, quando Vilaça cerrou os dentes, abriu a boca a mostrá-los, sprintou como nunca na reta da meta e entre ombradas, cotoveladas e braços a roçarem com os do australiano acabou no 2º lugar.

O esforço imenso deu-lhe um resultado que bastou, Vasco é campeão do mundo. Há um ano, na ressaca da anterior finalíssima do triatlo, Vasco Vilaça regressara da Austrália com uma medalha de bronze e estafado de levar pancada dele próprio.

Controlar a obsessão

Vasco tentara demasiado ser o melhor, esmifrara a cabeça a tentar controlar tudo ao milímetro, a que horas comer, o que comer, onde ir comer, se irá chover ou fazer calor no dia de prova, enfim, uma fome de controlo.

Essa ânsia já o adoentara de tanto stress nos Jogos Olímpicos (onde ficou em 5º lugar, na estreia) à qual se juntou a sede por trabalhar mais, e mais, e mais após cada um dos três segundos lugares da época passada. “Quero demasiado e esgoto-me muito facilmente“, disse à Tribuna Expresso, franco a contar como essa pancada o fazia treinar além do que o treinador queria que ele treinasse. Da pressão auto-imposta ao esgotamento foi um ápice.

O português atinou a fazer mais fazendo menos. Esta temporada mostrou-se parcimonioso a não competir em tantas provas da World Triathlon Championship Series como de costume, foram apenas cinco em oito possíveis. Terá domesticado a sua obsessão. Apesar de raramente se ter sentido a 100% esta temporada conseguiu em Samarcanda, no Usbequistão, a primeira vitória da carreira em etapas do circuito mundial e à “Renascença” revelara que na finalíssima queria, pelo menos, acabar no pódio.

Dedicou as sete semanas anteriores à decisão de Pontevedra a aprontar-se em altitude, um retiro de canseiro onde treinou que se fartou. Vasco Vilaça sente-se mais livre a correr, aprecia mais a natureza que o rodeia quando pedala e a parte que tende a aborrecê-lo é nadar. Isto em treino — em competição está dentro da sua bolha, “sem achar piada a alguma coisa“ que aconteça pois aí é sofrer e pronto.

Agora saiu da bolha em Pontevedra como campeão do mundo, feliz da vida, de certeza liberto de pensar em treino ou em controlar tudo, pensando mais no abraço que deu a Ricardo Batista, em lágrimas no final pelo 4º lugar que lhe dá o bronze de ser o terceiro melhor triatleta do planeta, tal e qual Vasco fora há um ano. “Estou muito feliz por o ter tido comigo a prova toda, crescemos juntos não podia estar mais feliz“, disse Vasco no final, porque o desporto também pode ser amizade. No caso do triatlo, tem muito de Portugal, e de família: João Nuno Batista, irmão de Ricardo, acabou a finalíssima na 11ª posição e Miguel Tiago Silva na 19ª; na véspera, Dinis Ferreira foi campeão mundial júnior.

Nadar, pedalar e correr respira saúde. Vasco Vilaça fez-se igual a Vanessa Fernandes, até hoje única campeã mundial de Portugal no triatlo desde a sua vitória em Hamburgo, de 2007. Riscou assim um objetivo da lista onde um dos próximos é ser campeão olímpico.

Talvez em Los Angeles, daqui por dois anos, o tipo que não se importava de ser nadador-salvador possa voltar a deixar o bigode crescer.

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