Mundial 2026

A FIFA e a federação dos EUA querem o Irão no Mundial, mas Trump pensa de outra forma: “Realmente, não me importa“

Donald Trump, presidente dos EUA, com o troféu do Mundial em dezembro, durante a cerimónia de sorteio da fase de grupos do torneio, que aconteceu em Washington
Donald Trump, presidente dos EUA, com o troféu do Mundial em dezembro, durante a cerimónia de sorteio da fase de grupos do torneio, que aconteceu em Washington
Patrick Smith

Apesar de dirigentes da FIFA, incluindo Gianni Infantino, amigo de Donald Trump, e da própria Federação de Futebol dos EUA, revelarem publicamente que apoiam a presença da seleção do Irão no Campeonato do Mundo, o presidente norte-americano fez questão de passar uma mensagem contrária, ao dizer que se trata “de um país duramente derrotado“ e que “não se importa“ se jogará, ou não, o torneio

A toada da postura da FIFA surgiu no próprio dia em que os EUA, em conjunto com Israel, atacaram o Irão. “O nosso foco é que todas as seleções participem no Mundial”, garantiu Mattias Grafström, secretário-geral da entidade, ainda a quente, notando que acabara de saber das notícias pelo telemóvel. O seu presidente, Gianni Infantino, desejou à “Sky Sports” que o torneio “seja um momento de paz”. E a Federação Norte-Americana de Futebol, através do seu diretor-geral, JT Batson, mostrou-se “totalmente apoiante” da presença de “todos” os países.

Depois, surgiu a vez de Donald Trump falar.

O jornal “Politico” entrevistou o presidente dos EUA e uma das perguntas sondou-o acerca da presença do Irão, o primeiro entre 48 países a qualificar-se, no Campeonato do Mundo. A sua resposta foi: “Realmente, não me importa [I really don’t care].” Assim ficámos a saber como o líder de uma das três nações anfitriãs do torneio, a par do Canadá e do México, além de supervisor do grupo de trabalho norte-americano que coordena a organização da prova, destoa da mensagem geral que tem sido passada pelas instituições do futebol.

Galardoado, em dezembro, com a distinção de paz criada pela FIFA e o seu amigo, Gianni Infantino, aquando do sorteio da fase de grupos do torneio, Trump ainda acrescentou: “Penso que o Irão é um país duramente derrotado. Estão a funcionar nas reservas.”

As declarações do presidente norte-americano, que decidiu atacar cinco territórios desde que tomou posse do seu segundo mandato, em janeiro de 2025, reforçam a improbabilidade de a seleção iraniana estar na prova. “Depois destes ataques é difícil olhar com esperança para o Mundial”, lamentou, no domingo, Mehdi Taj, líder da federação de futebol do país, ao “Varzesh3”, um site do país.

Unir um pouco o mundo

Os dirigentes iranianos foram os únicos ausentes do encontro de três dias realizado, esta semana, em Atlanta, EUA, promovido pela FIFA com delegações de todas as seleções já qualificadas. Desde o ano passado, aliás, a administração norte-americana lista o Irão como um de 39 países a cujos cidadãos não atribui vistos de entrada no país, apesar de prever exceções para atletas e elementos de staffs técnicos de seleções nacionais.

O Irão tem dois jogos marcados para Los Angeles e um em Seattle, estando no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. “Espero que consigamos contribuir para unir um pouco o mundo. Acho que precisa, mesmo”, defendeu Gianni Infantino, também à “Sky Sports”.

O Irão pode abdicar de participar no Mundial ou boicotar a prova. Nesse caso, seria punido pela FIFA com uma multa. As regras definidas para esta edição do torneio, embora vagas, reservam à entidade o poder de “decidir em exclusivo” e tomar “qualquer ação necessária” caso um país desista de jogar na competição. E mais: pode decidir “unilateralmente substituir” qualquer seleção.

Na eventualidade de a equipa iraniana se retirar, os Emirados Árabes Unidos, país atualmente com melhor ranking da Confederação Asiática de Futebol, poderia ser o escolhido; ou o Iraque, vencedor do play-off de apuramento continental que irá disputar com o Suriname ou a Bolívia o acesso ao torneio na derradeira eliminatória de acesso. Predomina a incerteza em relação à presença do Irão.

Nunca a FIFA teve de lidar, com tão pouco tempo para o início da maior prova de futebol do planeta - restam 100 dias para o jogo inaugural, a 11 de junho, na Cidade do México -, com o facto de um país participante estar em guerra com outro. Ainda menos sendo esse país um anfitrião do torneio. O conflito iniciado pelos EUA (e por Israel) provocou atos de retalação do Irão contra várias nações do Médio Oriente, incluindo o Catar, igualmente apurado para o Campeonato do Mundo.

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