Jogadores a conta-gotas, 880 quilómetros de autocarro, viagens em separado: depois do pesadelo logístico, o Iraque acredita no Mundial
SOPA Images
O conflito no Médio Oriente deixou em dúvida a participação da equipa asiática no play-off de apuramento para o torneio, levando os iraquianos a pedir o adiamento do jogo. A FIFA não acedeu e, tomando caminhos diferentes, os vários elementos da seleção lá conseguiram chegar ao México, onde discutirão com a Bolívia um sonhado bilhete para o próximo verão
Seguir os últimos dias da seleção do Iraque foi, mais do que ver uma equipa de futebol, como acompanhar uma série sobre viagens, quase um desafio sobre as mil e uma maneiras de ir da Europa ou do Médio Oriente até ao México. E, no fim das peripécias, ver os protagonistas reunidos em Guadalupe, prontos para o jogo das suas vidas.
Vamos por partes. O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e subsequente retaliação, levou a que as autoridades do Iraque decretassem, a 28 de fevereiro, o fecho do espaço aéreo do país. Ora, isto gerou um problema para a seleção de futebol, que tinha de viajar para o México, onde disputaria o acesso ao primeiro Mundial da história iraquiana desde 1986.
As dificuldades logísticas foram-se ampliando. Sem vistos para entrar nos EUA, a equipa teve de cancelar um período de treinos prévio ao play-off em Houston. Sem embaixada mexicana em Bagdade, as autorizações administrativas também se apresentavam como um desafio.
A FIFA, segundo o “Guardian”, propôs que o Iraque, cuja maioria dos jogadores milita na liga do país, realizasse uma viagem de autocarro de 25 horas, até Istambul, para da Turquia voar para o México. O conjunto asiático rejeitou.
Graham Arnold, selecionador do Iraque
Anadolu
Para cúmulo, o selecionador também foi apanhado nos congestionamentos de trânsito. Graham Arnold, técnico que levou a Austrália aos oitavos de final do Catar 2022, ficou preso no Dubai, onde fora ver Mohanad Ali, estrela da equipa — e ex-Portimonense — que atua no Dibba, nos Emirados.
Perante este cenário, Arnold apelou a que o play-off fosse adiado. Na opinião do australiano, Bolívia e o Suriname deveriam disputar a partida que daria acesso ao embate contra os iraquianos, que ficaria em suspenso até haver mais certezas quanto ao futuro — e, eventualmente, haver uma saída do Irão do Mundial que poderia dar acesso direto ao Iraque. A FIFA rejeitou.
Da Jordânia, da Croácia, de Madrid, de Lisboa
Com vista ao embate no belo estádio do Monterrey, onde do outro lado estará a Bolívia, que eliminou o Suriname, foi, então, necessário seguir diferentes rotas, caminhos diversos, na tal odisseia rumo ao sonho do Mundial.
O grosso da comitiva conseguiu uma deslocação terrestre menos distante do que a proposta de Istambul. Quando os bombardeamentos já chegavam a território iraquiano, um autocarro saiu de Bagdade rumo a Amã, a capital da Jordânia, cruzando cerca de 880 quilómetros. De lá voaram, via Lisboa, até ao México, numa viagem de três dias.
A diplomacia também entrou em campo, com as autoridades iraquianas a conseguirem obter vistos nas embaixadas do México em Doha, no Catar, e Riade, na Arábia Saudita.
A Bolívia não vai a um Mundial desde 1994
Hector Vivas - FIFA
Não obstante, faltavam ainda elementos em Guadalupe. Assim, os caminhos alternativos foram sendo seguidos através das contas nas redes sociais da Federação do Iraque, empenhadas em mostrar as dificuldades acrescidas da jornada.
O selecionador teve de esperar vários dias no Dubai até obter um voo para Zagreb, na Croácia. Zidane Iqbal, do Utrecht e uma das figuras da equipa, viajou por Madrid para se juntar aos colegas. E assim, a pouco e pouco, o plantel foi-se completando.
O Iraque não vai a um Mundial há 40 anos, quando, no México 1986, somaram derrotas diante Paraguai, Bélgica e os anfitriões. Quando for madrugada de quarta-feira em Lisboa (4h00), o sonho estará à distância de um desafio diante da Bolívia, ausente do grande palco desde 1994. Poucas vezes a exigência da viagem foi tão proporcional à importância do destino a que se pretende chegar.