E eis que, no momento ideal, os Estados Unidos foram o que os Estados Unidos querem ser
Os EUA entraram da melhor forma no Mundial
Sebastian Frej
O último dos co-anfitriões a estrear-se arrancou em grande estilo, arrasando (4-1) o Paraguai na primeira parte em Los Angeles, com três golos antes do descanso. Balogun bisou e a equipa da casa mostrou-se agressiva, veloz e cheia de recursos coletivos, entusiasmando contra um adversário que realizou uma exibição para esquecer
Mauricio Pochettino, do alto dos seis milhões de dólares anuais que recebe, não tem andado com meias palavras. Os Estados Unidos da América são candidatos a vencer o Mundial? "Why not?", pergunta o argentino, que tem apontado o título como meta a atingir.
No primeiro dos 78 jogos do torneio no país co-anfitrião que mais encontros acolherá, os EUA debutaram com estrondo. Há muito que, do lado de lá do Atlântico, se lê que esta é uma geração de ouro, que estamos perante um grupo de jogadores que atua nas grandes ligas europeias, que há motivos para ter ambição, que existe qualidade para ser agressivo, para jogar com energia, vertigem, mas com critério, juntando velocidade e pensamento, talento individual e sentido coletivo, chispa e clarividência, intimidar os adversários apoiando-se em qualidades claras.
A antecâmara do Mundial foi confusa para os EUA, mais centrada em Trump e questões afins do que na equipa nacional. Ora, na ocasião perfeita, quando era preciso arrancar com o pé direito, a seleção deu a melhor resposta possível e foi o que se vem pedindo que seja.
Desde o início do desafio em Los Angeles se viram uns Estados Unidos de alta qualidade. As combinações foram-se sucedendo, com desmarcações com sentido, com mecanismos bem trabalhados, criando oportunidades umas atrás das outras. O Paraguai perdeu por 4-1, com Gio Reyna, no derradeiro lance, a dar uma diferença de golos muito negativa para o que resta da fase de grupos para os sul-americanos.
O colossal recinto de LA
Richard Heathcote
O estádio em Los Angeles é uma colossal arena, um circo que custou cinco mil milhões de dólares, o estádio mais caro do mundo. Viste de fora parece uma nave pronta para arrasar um qualquer planeta no Star Wars, rodeado pelo gigantesco parque de estacionamento tão do agrado americano. As bancadas, cheias de celebridades — Tom Cruise, David Beckham, Sofia Vergara, Owen Wilson, Paris Hilton, Brad Pitt, Katy Perry, Anya Taylor-Joy... —, eram uma expressão do fervor americano, um ruído que se manteve durante a contenda, uma expressão do orgulho pátrio.
O Paraguai, após três fases finais de ausência, está de volta. Gustavo Alfaro, argentino como Pochettino, pegou num conjunto em crise e fez questão de lhe devolver a identidade dos melhores tempos, assente na consistência defensiva e solidez coletiva. Bateu a Argentina e o Brasil... e colapsou na Califórnia.
Os visitantes não conseguiram igualar a energia e movimentações coletivas dos co-anfitriões. Mauricio apontou o 3-1 aos 73', marcando no único remate enquadrado com a baliza adversária feito pelos paraguaios. Até houve uma boa notícia no lançamento do jogo, com o craque Enciso apto para jogar, mas depressa o sonho do regresso ao Mundial virou pesadelo.
Pulisic e McKennie, dois dos principais homens dos Estados Unidos, conhecem-se desde os 13 anos. Ainda crianças, ficaram amigos num campo de treinos promovido pela federação e, desde então, fizeram caminhos paralelos. Foram eles que combinaram, logo aos 7', num lance que acabaria com Bobadilla a marcar na própria baliza.
Andrew Giuliani, o CEO da task force do Mundial, já avisara que Donald Trump não estaria presente. Na tribuna presidencial estava Marco Rubio, ao lado de Gianni Infantino, que se esforça sempre por sorrir muito quando é filmado, e de Santiago Peña, o presidente do Paraguai que decretou feriado nacional quando a seleção se apurou para a competição.
Houve, como sempre haverá, uma pausa de hidratação em cada parte. Com o recinto coberto e uns amenos 23 graus, é evidente que a interrupção, tornando o futebol num jogo de quatro quartos, apresenta objetivos puramente comerciais. Também houve um amarelo dado a Tim Ream que acabou revertido pelo VAR, acabando por ser Almirón a ver cartão por simulação. Decisão factualmente correta, é certo, mas a luta por ter a bola a rolar e por mais tempo útil de jogo perde-se nesta micro-gestão do VAR, cada vez mais presente em mais momentos. Mínima intervenção para máximo benefício, lembram-se? Era o lema da ferramenta há uns 10 anos. RIP.
Santiago Peña, presidente do Paraguai, Infantino e Marco Rubio sorrindo nas bancadas
Dean Mouhtaropoulos
O Paraguai foi perseguindo sombras, para delírio do ruidoso público neste gigante de betão. Folarin Balogun foi o grande protagonista, com dois golos, um aos 31' e outro aos 45'+5', e ainda um anulado. Gustavo Gómez, o experiente central do Palmeiras de Abel Ferreira, chegou a parecer um avô cansado a correr contra um neto irrequieto, incapaz de o travar.
A segunda parte trouxe um suavizar do ritmo norte-americano. O Paraguai aproveitou e reduziu, golo que poderia maquilhar um pouco a muito importante diferença de golos. Só que, no derradeiro lance da partida, Gio Reyna homenageou as suas raízes portuguesas e, de trivela, à Quaresma, fez o 4-1 final.