No dérbi da bola oval, os EUA reforçaram que não estão no Mundial somente para sorrir e acenar
Após revisão do VAR, Freeman festeja o 2-0 dos EUA
MB Media
Os co-anfitriões derrotaram (2-0) a Austrália, voltando a deixar uma excelente imagem. A equipa de Pochettino, que já garantiu presença na fase a eliminar, evidenciou o seu dinamismo e agressividade, fazendo o resultado final ainda antes do intervalo
Aquando da segunda pausa de hidratação, após o terceiro dos quatro quartos que agora compõem um jogo de futebol, as bancadas de Seattle, cidade sinónimo de Nirvana, vibravam com Bon Jovi. Entre a festa do público, uma mulher erguia um cartaz: "Why not us?", "porque não nós?". Ao seu lado, um homem empunhava uma imitação do troféu do Mundial. E se...?
Foram instantes-resumo do local emocional em que habita a seleção do soccer. Entusiasmo, sonho, as palavras de Pochettino pré-competição, apontando à final, não representando um peso, mas sim um estimulante horizonte a perseguir. Para já, a fase de grupos já foi superada.
Estes EUA são combativos, vigorosos, sabem o que fazem. A cada movimentação individual corresponde uma resposta coletiva, como uma orquestra bem conduzida pelo treinador.
Numa exibição que principiou forte, chegou a ter um aroma arrassador e acabou mais encolhida, mas sabendo resistir à nova atitude dos adversários, os co-anfitriões vestiram o seu fato de complicadores da vida de quem os visita. Não há simpatias e cerimónias destes visitados, há vontade, muita vontade, empurrados pelo fervor patriota proveniente da parte de fora do relvado. EUA 2-0 Austrália, seis pontos para os States em seis disputados, o resultado fechado até aos 43'.
O embate deu-se debaixo do sol de Seattle, a terra do Grunge. O Lumen Field, o estádio que aparece na série “Last of Us”, apresentou-se como um gigantesco produtor de ruído, sobretudo pintado em tons de vermelho e branco, mas com respeitáveis manchas amarelas. O pontapé de saída deu-se ao meio-dia local, mas com uns moderados 23 graus, chegando o calor mais intenso das bancadas, particularmente barulhentas, conferindo um ambiente de ocasião importante.
Sarah Stier - FIFA
Sarah Stier - FIFA
15
Os dois países são simultaneamente semelhantes e antagónicos na sua cultura desportiva. Aqui estão duas nações influenciadas pela colonização britânica, mas que não têm nesta bola a modalidade mais popular, preferindo jogos com uma oval — que nós chamamos, justamente, futebol americano e futebol australiano — ou em que se golpeia com um bastão um objeto mais pequeno, seja no críquete ou no basebol.
Ainda assim, são diferentes na abordagem às competições: os EUA sempre com uma ideia de superioridade, um complexo quase imperial, de ganhar sempre porque os EUA são os EUA e essa é a lei da vida, a Austrália gostando de vestir a pele de underdog, de apostar na resiliência e na solidez, colocando-se voluntariamente em papéis de inferioridade para dar tons épicos a êxitos no râguebi ou no críquete.
Com um coro de “USA! USA! USA!” a empurrar a equipa, os homens de Pochettino, novamente vestido como um empreendedor que procura financiamento para a sua startup em Los Angeles, arrancaram plenos de energia e agressividade, confirmando um estado mental coletivo de euforia e exaltação, sem sentir a baixa de Pulisic, substituído por Pepi. Havia pressão coordenada, movimentos sincronizados, buscando ataques velozes e explosivos, tudo sustentado por um início de circulação pausado.
O 1-0, logo aos 11', resultou desta fuga. Balogun fugiu da marcação de Circati como uma criança que já sabe andar foge de um um bebé que somente gatinha. O cruzamento do atacante encontrou uma má abordagem de Burgess, que marcou na própria baliza.
Os australianos apresentaram-se sem Irankunda e Metcalfe, os autores dos dois golos no triunfo perante a Turquia. Tony Popovic, o técnico dos soccerroos, vestiu-se todo de negro, parecendo pronto para o funeral da sua própria equipa. Com exceção da parte final do desafio, os de amarelo foram engolidos pelos EUA.
A bola a entrar para o 1-0
Doug Zimmerman/ISI Photos
A bola a entrar para o 1-0
Doug Zimmerman/ISI Photos
14
Esta é uma antiga rivalidade desportiva. Nas mais diversas modalidades, os norte-americanos frequentemente acusam os homens da Oceânia de uso de violência excessiva e a falta de jogo limpo. No futebol, um recente amigável, particularmente rasgadinho, aqueceu os ânimos. Ainda houve uma confusão já em cima do apito final, mas, durante a maior parte da partida, a fraca resposta visitante nem deu para que a coisa ficar mais dura.
O lado direito dos EUA não quis ficar atrás do esquerdo em quanto a produção ofensiva. Dest ameaçou o 2-0, que chegaria por quem parte atrás de si no flanco, com Freeman a cabecear após remate bloqueado. A jogada começou por ser anulado por fora de jogo, mas seria validada pelo VAR. O festejo do golo, com Freeman correndo e os colegas seguindo-o, foi outra manifestação de alegria, da felicidade carregada por este coletivo.
Logo depois do intervalo, Balogun correu uns 50 metros isolado. Com o Lumen Field a berrar na expetativa do 3-0, Circati redimiu-se da imagem do 1-0 e cortou. A partir daquele momento, e beneficiando das entradas de Irankunda e Volpato, a Austrália melhorou. O gigante Souttar, que dá a ideia de querer provar ser possível estar num Mundial de futebol enquanto se joga râguebi ao mesmo tempo, teve nos pés o 2-1, mas, em vez de rematar, falhou na bola e atropelou um adversário. Sintomático.
O 2-0 virou um resultado final anunciado desde bem antes da conclusão. Havia dúvidas e ceticismo quanto ao trabalho de Pochettino, mas agora tudo é sonho. "Why not us?"