“Deus é cabo-verdiano”: depois da sensação da estreia, mãe de Vozinha já está nos Estados Unidos para ver o filho jogar
Oyarzabal desperdiçou a última grande oportunidade do encontro entre Cabo Verde e Espanha
Patrick Smith - FIFA
Em Cabo Verde, há orgulho e esperança para o que resta do Mundial, mas também realismo. O empate frente à seleção espanhola foi histórico e agora segue-se o Uruguai, jogo que já terá Ana Cândida Évora, mãe do guarda-redes Vozinha, nas bancadas. Adeptos pedem ousadia aos seus jogadores
Ruth Maclean, Andre Amaral e Saikou Jammeh/The New York Times
Não foi uma vitória. Mas para Cabo Verde, o terceiro país mais pequeno de África, ter conseguido um empate sem golos contra a Espanha, uma potência do futebol, na sua estreia no Mundial esta semana, foi um feito histórico.
Agora, enquanto se prepara para o jogo de domingo contra o Uruguai, vai crescendo uma mistura de confiança e ansiedade em todo o arquipélago situado ao largo da costa atlântica da África Ocidental. Os cabo-verdianos esperam que a sua seleção repita a exibição, especialmente o seu veterano guarda-redes, Josimar José Évora Dias, que se tornou uma estrela inesperada da noite para o dia depois de ter feito sete defesas.
A seleção de Cabo Verde, os Tubarões Azuis, não conta com grandes estrelas nem é particularmente glamorosa. Dias, de 40 anos, um dos jogadores mais velhos do torneio, é conhecido como Vozinha. Mesmo no panorama do futebol africano, Cabo Verde só começou a ser levado a sério em 2023, quando chegou aos quartos de final da Taça das Nações Africanas pela primeira vez desde 2013.
Mas, neste Mundial, enfrenta um desafio considerável: passar uma fase de grupos composta pela Espanha, campeã da Europa; pelo Uruguai, bicampeão do Mundial; e pela Arábia Saudita, cuja ascensão tem vindo a marcar os últimos anos.
Os jogadores de Cabo Verde tornaram-se heróis precisamente por não terem feito nada de extraordinário. Uma abordagem pragmática levou-os, no jogo de segunda-feira, a concentrarem-se totalmente em defender a sua baliza, em vez de fazerem incursões arriscadas no meio-campo espanhol.
Resultou.
“Fomos gigantes”, afirma Nuno Martins, de 51 anos, residente no Mindelo, na ilha de São Vicente, que tem duas explicações para o sucesso da equipa. Primeiro, executaram o seu plano tático na perfeição. O outro: a graça divina. “Deus é cabo-verdiano”, diz, “apesar de viver noutras terras.”
África é um dos maiores beneficiários da decisão da FIFA de alargar o Mundial de 32 para 48 equipas, duplicando o número de vagas do continente de cinco para dez, uma decisão que, segundo alguns críticos, iria reduzir a qualidade da competição. No entanto, após o jogo de estreia de cada equipa, seis das dez conseguiram vitórias ou empates, muitas delas contra algumas das melhores equipas do mundo.
O Campeonato do Mundo tem um novo herói e esse herói chama-se Vozinha
Desta vez, muitos cabo-verdianos esperam que os Tubarões Azuis consigam mesmo marcar golos — mantendo, ao mesmo tempo, uma defesa sólida. “É preciso um pouco de ousadia”, afirmou Carlos Brazão Monteiro, advogado na Praia.
Dias, o guarda-redes, vem de uma família de gente trabalhadora. Ganhou essa alcunha porque a sua mãe, que trabalha como cuidadora num lar de idosos, trabalhava tanto enquanto ele crescia que foi principalmente a sua falecida avó quem cuidou dele.
“Foi criado com muito amor pela avó”, disse a mãe, Ana Cândida Évora, de 60 anos. “Eu também estava lá, mas ele tinha uma ligação muito forte com a avó. Ele amava-a muito.”
Após o jogo contra a Espanha, Dias falou da sua desilusão por a mãe não ter podido estar em Atlanta para o ver jogar. Ele disse que a família tinha tido dificuldades com o pedido de visto para os EUA, nomeadamente com a caução de até 15 mil dólares que a maioria dos viajantes é obrigada a pagar.
O caso de Évora suscitou novas críticas às restrições de vistos dos EUA, que têm impedido familiares de assistirem aos jogos dos seus entes queridos. Os africanos, que têm vindo a ser cada vez mais visados pelas políticas de vistos da administração Trump, ficaram particularmente frustrados.
Mas na quinta-feira, Évora partiu finalmente para os Estados Unidos, após a intervenção do Departamento de Estado dos EUA. Numa entrevista ao “The New York Times”, ela culpou-se por não ter apresentado o pedido de visto a tempo.
Ela abraçou os seus familiares no aeroporto de Cabo Verde antes de partir para Miami. “Podemos ser pequenos, mas os nossos corações são grandes”, disse ela.
Alguns cabo-verdianos pareciam surpreendidos com o sucesso e duvidavam que este fosse durar. “Nunca acreditei num resultado positivo contra a Espanha”, afirmou José Eduardo Cardoso, um taxista de 65 anos que ouviu ansiosamente a primeira parte do jogo no rádio do carro enquanto transportava passageiros pela Praia, a capital.
Conseguiu chegar a casa a tempo da segunda parte, onde tenciona ver o próximo jogo na íntegra — embora não tenha grandes esperanças em relação.
“Não estou muito confiante de que Cabo Verde passe à segunda fase”, afirmou ele.
Outros mostraram-se mais otimistas, desde que a equipa não se deixe levar pelo momento.
“Vamos ser a surpresa do torneio”, afirmou Martins. Aconteça o que acontecer, atira Erika Soares, de 32 anos, economista na ilha de Santiago, já se sentem “vencedores”.