Vinícius foi o grande destaque da vitória do Brasil contra a Escócia
Craig Williamson - SNS Group
Contra uma frágil Escócia, a equipa de Ancelotti ganhou (3-0) e venceu o grupo à frente de Marrocos, que bateu (4-2) o Haiti. Vini destacou-se, com dois golos, na partida em que, 980 dias depois, Neymar voltou a jogar pela seleção
A gigantesca dimensão do Brasil, somada ao colossal tamanho da sua seleção de futebol, não impede que, algo paradoxalmente, este seja um território de pequenas fronteiras. Neste espaço emocional e emotivo, euforia e pessimismo, otimismo e confiança, entusiasmo e derrotismo, tudo é vizinho, partilha prédio, estão ali, porta com porta, ouvindo-se quando alguém ouve música mais alta.
É assim que, subitamente, o escrete, tão criticado na sequência da estreia com Marrocos, sai mais leve desta fase de grupos. Não só por acabar no primeiro lugar do grupo C, não apenas por este duplo 3-0, primeiro ao Haiti e agora à Escócia, mas porque, quando mais importa, algumas coisas deste coletivo começam a fazer clique, a encaixar.
Como grande beneficiário de tudo, como consequência de algo que vai ganhando sentido, o voraz competidor. O craque que, quando joga, entra disposto a lutar. Foi Vinícius Júnior a estrela em Miami, bis, mais um anulado, foco no golo mesmo até aos 90+7', quando ainda sprintava, ameaçando o hat-trick e o 4-0.
Sem a tempestade que chegou a ameaçar Miami, o entusiasmo teve outro nome próprio. Há 980 dias que Neymar não jogava pelo Brasil e aqui está ele, o milagre de estar neste Mundial cumprido, Ney de número 10 nas costas, postas vestidas, saindo do banco aos 76'. Tocou umas vezes na bola, ajudou à euforia. Que papel, em concreto, terá neste Mundial é ainda uma incógnita. Para já, o Brasil vai para os 16 avos de final de sorriso estampado.
Os escoceses saíram de Boston, cidade que já quase chamavam casa, terra que lamentou a partida dos seus amavelmente ruidosos visitantes, com direito a despedida num jornal local. Em Miami o cenário era diferente, bem mais pintado a amarelo, cores vivas que desafiavam o cinzento do céu, ameaçando fazer cair sobre os humanos as violências da natureza.
Carlo Ancelotti, que nas conferências de imprensa faz uma maravilhosa mistura verbal entre espanhol, italiano e português, como que um mediterrânes, apresentou-se elegante, fato, camisa, colete, gravata negra. Como símbolo da longevidade da carreira de Carletto, enquanto no relvado estavam os seus atuais jogadores, as bancadas estavam repletas de ex-futebolistas que também foram orientados por si: Kaká, Pepe, Ronaldo Nazário, Cafú, David Beckham, este último bebendo um copo de vinho tinto com um ar de quem tanto podia estar num estádio de futebol como numa galeria de arte moderna.
Vinícius no 1-0
Andrew Milligan - PA Images
Vinícius no 1-0
Andrew Milligan - PA Images
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Talvez a equipa de Steve Clarke tenha ficado nostálgica das maravilhas de Boston, possivelmente mostrou-se incomodada com a humidade da Flórida, com o ar tropical, denso, quente. Isso poderia ajudar a explicar como, nos 22' iniciais, os escoceses esforçaram-se para abrir a porta a dois golos de Vinícius Junior.
No primeiro foi Scott McKenna quem se demorou com a bola, olhou para o horizonte, contou quantas filas tinha a bancada, filosofou acerca dos mistérios da existência e, a meio de tudo isto, decidiu chutar a bola. Entretanto Rayan, no onze pela lesão de Raphinha e cheio de energia e agressividade, pressionou o central e do corte surgiu a oportunidade para Vinícius, que driblou Gunn e inaugurou o marcador.
O jogo era o que sucedia entre oferta europeia e oferta europeia. Primeiro um central, de seguida outro. Hendry sentiu o bafo de Vini, que cheirava o sangue como um tubarão de águas quentes. Desarme, número 7 isolado, golo. A Escócia seria salva pela micro-gestão do VAR, pelo microscópio que descobriu uma falta na origem do roubo de bola.
Ao contrário do que se poderia prever, a menos cotada das seleções dividiu a bola e a iniciativa. Faltou, no entanto, arte para criar perigo efetivo. Este Mundial serviu, também, para recordar que Scott McTominay é excelente a chegar à área, finaliza muito bem, mas não é propriamente Zidane em termos técnicos e de imaginativos. O homem do Nápoles teve três chances para marcar, mas Alisson disse presente, quem sabe negando algo que poderia ser preciso para a Escócia.
Perto do descanso, enquanto em Atlanta o Haiti surpreendia Marrocos e, por duas vezes, era capaz de chegar à vantagem, o Brasil voltou a forçar. Os de Ancelotti mantiveram-se na expetativa durante boa parte da metade inicial, mas contam com um predador no ataque, extremamente hábil a detetar os defeitos alheios e disposto a não ficar para trás neste Mundial de grandes figuras. Ao terceiro minuto de compensação, após grande cruzamento de Bruno Guimarães, Vinícius, novamente com autorização involuntária da defesa adversária, cabeceou para o 2-0, o seu quarto nesta Copa do Mundo.
Steve Clarke, de camisa branca, mas sem fato, como quem já viu o suficiente desta boda e somente tem uma parte da indumentária, gritava efusivamente com os seus homens. Ficar com três pontos e uma diferença de dois golos negativos era um mau balanço para quem buscava o inédito. No outro duelo do grupo, Marrocos e Haiti, inesperadamente, empatavam a dois.
Neymar estreou-se neste Mundial
Hannah Peters - FIFA
Neymar estreou-se neste Mundial
Hannah Peters - FIFA
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Para o recomeço, o dilema que se apresentava para os escoceses era: atacar ou não atacar? Tentar um golo, e assim minimizar a diferença nas contas dos terceiros lugares com outros grupos, ou aceitar o 2-0 e ficar à espera, fazendo figas que haja quatro terceiros classificados com menos pontos ou pior diferença de golos?
A questão parece ter bloqueado a equipa, sem atacar nem defender. Vinícius iam explorando as indecisões e, servido na velocidade por Lucas Paquetá, falhou na cara de Gunn. Seria, aos 60', outro dos protagonistas da noite a ter papel fundamental. Bruno Guimarães beneficiou de uma troca de bola com fluidez, apareceu na área e assistiu Matheus Cunha, que elevou para 3-0.
Ancelotti foi mexendo o banco. Entraram Fabinho, Martinelli, Alex Sandro, o pouco utilizado Endrick e, claro, Neymar. Vinícius ia insistindo, mas sem chegar ao terceiro na conta pessoal e ao 4-0.
A Escócia jamais superou a fase de grupos de uma fase final de um grande torneio. Ficará à espera para saber se os seus três pontos, um golo marcado e quatro sofridos dão para ser um dos melhores terceiros, algo improvável. A conexão com os adeptos, que usufruem destes momentos muito para lá do resultado, ninguém lhes tira.
Marrocos evitou a surpresa e ganhou ao Haiti por 4-2, passando em segundo. Para o Brasil, que atuará em Houston na segunda-feira, o pessimismo já abriu portas ao entusiasmo. O grande culpado chama-se Vinícius.