Apertem os cintos, prestem atenção, preparem as pipocas: está aí a França dos artistas. Os outros que se cuidem
Mbappé festeja o 3-0
Al Bello
Foi mais uma exibição de gala gaulesa, com um 3-0 contra a Suécia que evidenciou a overdose de talento de que Deschamps dispõe. Mbappé bisou nos golos, Olise bisou nas assistências e os escandinavos até se podem dar por satisfeitos por não terem perdido por mais
Dá vontade de fazer como no recreio da escola. Vocês são demasiado bons, jogam com dois ou três a menos, para nivelar. Vocês são demasiado bons, começam a perder por três, para isto ter emoção.
Não se metem os melhores da escola todos na mesma equipa, eis uma regra básica. A França não quer saber. Neste Mundial, chegaram com um camião de talento assustador. Sim, isso já sabíamos.
A novidade não está só na junção de vários dos melhores atacantes do planeta. Já vimos semelhante em versões passadas dos azuis. O destaque é uma certa predisposição para o espetáculo, para um drible a mais, um golo a mais, um desequilíbrio a mais. Será uma injeção de pré-nostalgia de Deschamps, na despedida do selecionador? Será meramente a inevitabilidade de juntar grandes craques que se complementam, Kylian a marcar, Michael a assistir, Ousmane na maturidade plena a ler os movimentos alheios e próprios?
Há sorrisos, há alegria, há voracidade. Há vontade de show. Quem os trava? Tendo em conta este nível de qualidade, quase dá vontade de escrever que, para França, o Mundial ainda não começou. Isto é como um prólogo, o momento da festa, da arte. Serve para instalar o medo em toda a concorrência.
França 3-0 Suécia. Dois de Mbappé, duas assistências de Olise, um golo de Barcola. Poderiam ter sido mais. Os oitavos de final serão perante o Paraguai, em Filadélfia, a 4 de julho, uma data e um local que fazem match histórico.
À entrada para o derradeiro quarto, soava o clássico “Heyyy Babyyy” nas bancadas, com o público vibrando com o "I wanna know if you would be my girl". Estava 2-0, o terceiro francês bem mais próximo do que o 2-1, mas um grupo de suecas apareceu na transmissão televisiva, copos de vinho na mão, de pé, cantando e dançando, sorridentes. A partir de certa altura, foi um pouco esse o papel da Suécia nesta eliminatória de pouca incerteza: aproveitar a festa, beber um copito, divertir-se enquanto podia, desfrutar do brilho alheio. E dizer adeus às Américas.
Mbappé remata para o 1-0
Howard Smith/ISI Photos
No calor de Nova Jérsia, acima dos 30 graus, França visitou o estádio onde quer estar a 19 de julho. A colossal cratera deste recinto parece ter levado com um meteorito no espaço onde ficou o relvado, ladeado pelas gigantescas bancadas nuas, não propriamente protegidas da força dos elementos da natureza.
A Suécia aterrou no Mundial através do menos pujante dos caminhos, como quem chega ao fim de uma corrida de obstáculos após tropeçar sucessivamente, aos solavancos, beneficiando de múltiplos pára-quedas que lhe foram sendo dados. Os escandinavosnão ganharam qualquer jogo de um apuramento com Eslovénia, Kosovo e Suíça, acedendo aos play-offs pela proeza de terem vencido um grupo da Liga das Nações C com Azerbaijão, Estónia e Eslováquia.
Graham Potter, o inglês que em 2011 assumiu o Östersund, então na quarta divisão sueca, e fê-lo subir três divisões e chegar à Liga Europa, devolveu alguma ordem e competitividade aos nórdicos. Na tarde nova-iorquina, os de amarelo lograram atrasar a avalanche gaulesa, com um primeiro quarto — é incrível como, menos de três semanas após arrancar o Mundial, já não tenhamos de explicar esta terminologia, é brutal como certas aberrações, perdão, inovação, entram no nosso quotidiano — de sossego sueco. Duraria pouco.
Haaland depois do 2-1 que deu à Noruega a passagem aos oitavos de final do Mundial
Feita a primeira pausa comercial, que aqui serviu de facto para hidratar, vieram as sucessivas ofensivas de França. Juntar tanto talento leva a momentos de uma fluidez mágica, como se não houvesse impossíveis, sem limites físicos ou técnicos. O melhor? Eles estão a saber jogar juntos. O mais assustador? Estão unidos, com vontade, com química.
Entre os 30' e os 45', os franceses poderiam ter chegado à goleada. Só nesses 15', Zetterström fez três boas defesas, houve duas finalizações nos postes, mais duas que saíram perto do alvo e um remate que, efetivamente, fez o 1-0.
Michael Olise, que fala pouco ou nada, prefere gritar com os pés. É um feiticeiro com a canhota, um encantador da bola, sussurrando-lhe ao ouvido, contando-lhe segredos. Acrescentou um grande momento à lista de quase-golos dos Mundiais, com um pontapé acrobático ao poste esquerdo.
O 1-0 surgiria em cima do descanso. Dembélé, Olise e Mbappé uniram-se para deixar Kylian em um contra um. Foi aí que o tempo entrou em velocidade Mbappesca, ele dominando os ponteiros do relógio. Primeiro parado, depois pum, bicicleta, Gyökeres fintando como um gigante incapaz de contrariar o sprint de uma gazela. Quinto festejo do capitão na edição de 2026 da prova que, em 2018, o consagrou ainda adolescente.
O remate acrobático de Olise ao poste
picture alliance
O remate acrobático de Olise ao poste
picture alliance
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O “One More Time”, dos Daft Punk, canção associada a campanhas eleitorais de Emmanuel Macron, ouve-se nos estádios das Américas quando França marca. Voltou a escutar-se aos 53'.
Olise, de chuteiras brancas, impecáveis, de futebol de seda, suave ao toque, confortável a vestir, acrescenta criatividade ao costumeiro retranquismo de Deschamps. Contribui para uma energia vital distinta. Recebe, vira-se, assiste. Como no 2-0. Barcola, um ator secundário neste concerto de estrelas, mas não por isso não um craque, dobrou a vantagem.
A Suécia, derrotada, resistiu enquanto o talento adversário não assumiu contornos de gravidade, inevitável. Só teria uma verdadeira oportunidade de golo, já perto do fim, com Maignan a evitar o 3-1 de Gyökeres. Antes disso, o 3-0 resultaria de nova combinação entre Olise e Mbappé, dois homens de personalidade diferente, um calado, outro falador, um introvertido, outro cheio de gestos de líder, um relativamente recente na elite da bola, outro atirado para o protagonismo máximo há já quase uma década.
3-1, 3-0, 4-1, 3-0. Nada mau para um campeonato do mundo.
Quando Mbappé foi substituído, Deschamps fez-lhe uma vénia, alegre, perdendo aquela face cerrada de general. Eis o comandante, aberto às emoções. França diverte e diverte-se. Para eles, isto só começa mesmo a ser uma competição em que se pode ganhar ou perder lá mais para a frente.