• Suécia
    18:0020 JUN
    5
    1
    Grupo F
  • Mundial 2026

    Apertem os cintos, prestem atenção, preparem as pipocas: está aí a França dos artistas. Os outros que se cuidem

    Mbappé festeja o 3-0
    Mbappé festeja o 3-0
    Al Bello

    Foi mais uma exibição de gala gaulesa, com um 3-0 contra a Suécia que evidenciou a overdose de talento de que Deschamps dispõe. Mbappé bisou nos golos, Olise bisou nas assistências e os escandinavos até se podem dar por satisfeitos por não terem perdido por mais

    Apertem os cintos, prestem atenção, preparem as pipocas: está aí a França dos artistas. Os outros que se cuidem

    Pedro Barata

    Jornalista

    Dá vontade de fazer como no recreio da escola. Vocês são demasiado bons, jogam com dois ou três a menos, para nivelar. Vocês são demasiado bons, começam a perder por três, para isto ter emoção.

    Não se metem os melhores da escola todos na mesma equipa, eis uma regra básica. A França não quer saber. Neste Mundial, chegaram com um camião de talento assustador. Sim, isso já sabíamos.

    A novidade não está só na junção de vários dos melhores atacantes do planeta. Já vimos semelhante em versões passadas dos azuis. O destaque é uma certa predisposição para o espetáculo, para um drible a mais, um golo a mais, um desequilíbrio a mais. Será uma injeção de pré-nostalgia de Deschamps, na despedida do selecionador? Será meramente a inevitabilidade de juntar grandes craques que se complementam, Kylian a marcar, Michael a assistir, Ousmane na maturidade plena a ler os movimentos alheios e próprios?

    Há sorrisos, há alegria, há voracidade. Há vontade de show. Quem os trava? Tendo em conta este nível de qualidade, quase dá vontade de escrever que, para França, o Mundial ainda não começou. Isto é como um prólogo, o momento da festa, da arte. Serve para instalar o medo em toda a concorrência.

    França 3-0 Suécia. Dois de Mbappé, duas assistências de Olise, um golo de Barcola. Poderiam ter sido mais. Os oitavos de final serão perante o Paraguai, em Filadélfia, a 4 de julho, uma data e um local que fazem match histórico.

    À entrada para o derradeiro quarto, soava o clássico “Heyyy Babyyy” nas bancadas, com o público vibrando com o "I wanna know if you would be my girl". Estava 2-0, o terceiro francês bem mais próximo do que o 2-1, mas um grupo de suecas apareceu na transmissão televisiva, copos de vinho na mão, de pé, cantando e dançando, sorridentes. A partir de certa altura, foi um pouco esse o papel da Suécia nesta eliminatória de pouca incerteza: aproveitar a festa, beber um copito, divertir-se enquanto podia, desfrutar do brilho alheio. E dizer adeus às Américas.

    Mbappé remata para o 1-0
    Howard Smith/ISI Photos

    No calor de Nova Jérsia, acima dos 30 graus, França visitou o estádio onde quer estar a 19 de julho. A colossal cratera deste recinto parece ter levado com um meteorito no espaço onde ficou o relvado, ladeado pelas gigantescas bancadas nuas, não propriamente protegidas da força dos elementos da natureza.

    A Suécia aterrou no Mundial através do menos pujante dos caminhos, como quem chega ao fim de uma corrida de obstáculos após tropeçar sucessivamente, aos solavancos, beneficiando de múltiplos pára-quedas que lhe foram sendo dados. Os escandinavos não ganharam qualquer jogo de um apuramento com Eslovénia, Kosovo e Suíça, acedendo aos play-offs pela proeza de terem vencido um grupo da Liga das Nações C com Azerbaijão, Estónia e Eslováquia.

    Graham Potter, o inglês que em 2011 assumiu o Östersund, então na quarta divisão sueca, e fê-lo subir três divisões e chegar à Liga Europa, devolveu alguma ordem e competitividade aos nórdicos. Na tarde nova-iorquina, os de amarelo lograram atrasar a avalanche gaulesa, com um primeiro quarto — é incrível como, menos de três semanas após arrancar o Mundial, já não tenhamos de explicar esta terminologia, é brutal como certas aberrações, perdão, inovação, entram no nosso quotidiano — de sossego sueco. Duraria pouco.

    Feita a primeira pausa comercial, que aqui serviu de facto para hidratar, vieram as sucessivas ofensivas de França. Juntar tanto talento leva a momentos de uma fluidez mágica, como se não houvesse impossíveis, sem limites físicos ou técnicos. O melhor? Eles estão a saber jogar juntos. O mais assustador? Estão unidos, com vontade, com química.

    Entre os 30' e os 45', os franceses poderiam ter chegado à goleada. Só nesses 15', Zetterström fez três boas defesas, houve duas finalizações nos postes, mais duas que saíram perto do alvo e um remate que, efetivamente, fez o 1-0.

    Michael Olise, que fala pouco ou nada, prefere gritar com os pés. É um feiticeiro com a canhota, um encantador da bola, sussurrando-lhe ao ouvido, contando-lhe segredos. Acrescentou um grande momento à lista de quase-golos dos Mundiais, com um pontapé acrobático ao poste esquerdo.

    O 1-0 surgiria em cima do descanso. Dembélé, Olise e Mbappé uniram-se para deixar Kylian em um contra um. Foi aí que o tempo entrou em velocidade Mbappesca, ele dominando os ponteiros do relógio. Primeiro parado, depois pum, bicicleta, Gyökeres fintando como um gigante incapaz de contrariar o sprint de uma gazela. Quinto festejo do capitão na edição de 2026 da prova que, em 2018, o consagrou ainda adolescente.

    O “One More Time”, dos Daft Punk, canção associada a campanhas eleitorais de Emmanuel Macron, ouve-se nos estádios das Américas quando França marca. Voltou a escutar-se aos 53'.

    Olise, de chuteiras brancas, impecáveis, de futebol de seda, suave ao toque, confortável a vestir, acrescenta criatividade ao costumeiro retranquismo de Deschamps. Contribui para uma energia vital distinta. Recebe, vira-se, assiste. Como no 2-0. Barcola, um ator secundário neste concerto de estrelas, mas não por isso não um craque, dobrou a vantagem.

    A Suécia, derrotada, resistiu enquanto o talento adversário não assumiu contornos de gravidade, inevitável. Só teria uma verdadeira oportunidade de golo, já perto do fim, com Maignan a evitar o 3-1 de Gyökeres. Antes disso, o 3-0 resultaria de nova combinação entre Olise e Mbappé, dois homens de personalidade diferente, um calado, outro falador, um introvertido, outro cheio de gestos de líder, um relativamente recente na elite da bola, outro atirado para o protagonismo máximo há já quase uma década.

    3-1, 3-0, 4-1, 3-0. Nada mau para um campeonato do mundo.

    Quando Mbappé foi substituído, Deschamps fez-lhe uma vénia, alegre, perdendo aquela face cerrada de general. Eis o comandante, aberto às emoções. França diverte e diverte-se. Para eles, isto só começa mesmo a ser uma competição em que se pode ganhar ou perder lá mais para a frente.

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