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  • Mundial 2026

    Os EUA queriam Pochettino, Pochettino queria os EUA, mas não havia dinheiro. Até que apareceram dois multimilionários

    Mauricio Pochettino devolveu o otimismo à seleção dos EUA
    Mauricio Pochettino devolveu o otimismo à seleção dos EUA
    Al Sermeno/ISI Photos

    Scott Goodwin e Ken Griffin não jogam pela USMNT, mas sem eles o selecionador de um dos co-anfitriões do Mundial 2026 seria outro. Perante uma crise de resultados na equipa dos Estados Unidos, os dois investidores chegaram-se à frente e ajudaram a fazer de Pochettino, figura cada vez mais popular nos states, um dos técnicos mais bem pagos do futebol internacional. Na próxima madrugada (01h00, Sport TV5), o argentino tentará superar a Bósnia e chegar aos oitavos de final

    Os EUA queriam Pochettino, Pochettino queria os EUA, mas não havia dinheiro. Até que apareceram dois multimilionários

    Pedro Barata

    Jornalista

    O ano de 2026 estava, há muito, inscrito como meta para a seleção de futebol dos Estados Unidos, objetivo ao qual era preciso chegar nas melhores condições possíveis. O problema é que, à medida que o tempo passava, o otimismo esfumava-se, o pessimismo instalava-se.

    Copa América 2024: a USMNT, United States Men's National Team, saiu, cabisbaixa, na fase de grupos, na sequência de derrotas contra o Uruguai e Panamá. O estado de crise era oficial.

    Os resultados pós-Mundial do Catar eram penosos. Já nem a nível regional os EUA impunham respeito, sendo eliminados na Gold Cup 2023 pelo Panamá e terminando essa volta ao sol com um embaraçoso desaire face a Trinidad e Tobago, apenas o quarto em 34 duelos diretos. Mirando para a outra margem do Atlântico, não se obtiveram melhores proveitos. Amigáveis contra Sérvia, Alemanha e Eslovénia saldaram-se em três derrotas.

    Sem surpresa, Gregg Berhalter foi despedido. O ano-objetivo estava a menos de 24 meses de distância. Começou a criar-se, entre a opinião publicada e os adeptos, a ideia de que era preciso trazer um treinador de topo. Jürgen Klopp, acabado de sair do Liverpool, foi o sonho inicial. Emma Hayes, octocampeã inglesa, acabara de aterrar na seleção feminina com impacto imediato, conquistando o ouro olímpico em Paris. Pretendia-se alguém assim, cheio de prestígio, como a inglesa.

    Pochettino é o trabalhador mais bem pago da história da federação dos EUA
    Soobum Im

    Havia um grande problema: a federação dos Estados Unidos não tinha dinheiro para pagar o tipo de salários a que os grandes treinadores do futebol masculino europeu estão habituados. Mas, na terra das oportunidades e dos sonhos e do dinheiro, há sempre um par de ouvidos com bolsos fundos na escuta.

    Jürgen, Pep, Mauricio

    Scott Goodwin é fã de soccer. Sabe como seria importante aproveitar o boost do Mundial em casa.

    Scott Goodwin é, também, um patriota. Não queria que os Estados Unidos fizessem má figura na sua competição. Foi por isso que, de acordo com o The Athletic, contactou a federação do futebol durante aquele período de vazio no banco, informando que estaria a disposto a pagar por um de três treinadores: Klopp, Pep Guardiola ou Mauricio Pochettino.

    Klopp, a começar a viver o seu período sabático — que talvez esteja para terminar como consequência do que se viveu em Boston —, não era uma opção. Guardiola, que gosta de passar temporadas em Nova Iorque, mas ainda estava no City, também não era realista.

    Era Mauricio Pochettino, saído de fresco do Chelsea, o homem a convencer. Também de acordo com o The Athletic, a primeira abordagem interessou ao argentino, agradado com a ideia de não ter de esperar muito para conduzir a equipa no maior dos torneios, ele que esteve como jogador em três jogos no Mundial 2002, de má memória para a Argentina de Bielsa.

    Só que regressava-se ao ponto de partida. Havia “grandes diferenças de valores” entre o que os EUA podiam pagar e a expectativa salarial do técnico, escreveu a ESPN. Goodwin não conseguia cobrir essa brecha na totalidade, alguns patrocinadores da federação também não eram suficientes. Era preciso procurar outro homem de bolsos fundos e interesse pelo soccer.

    O inimigo de Mamdani

    Ken Griffin é, tal como Goodwin, multimionário, investidor, homem dos hedge funds. O seu Citadel bate, constantemente, recordes de faturação.

    Com um passado de filantropia, tendo doado mais de €2,5 mil milhões para a investigação médica ou contribuído para financiar Harvard, onde estudou, Griffin procura, também, auxiliar a desenvolver uma modalidade que praticou na juventude e que o apaixona. Já financiara, com cerca de €8 milhões, a construção de 100 pequenos campos de futebol em Chicago e Miami, em parceria com a federação.

    Kenneth C. Griffin, financiador da contratação de Pochettino
    Craig Barritt

    Curiosamente, Griffin tem sido, recentemente, notícia pelo confronto com outro adepto de futebol. O multimilionário discorda das ideias de Zohran Mamdani, mayor de Nova Iorque, argumentando que os empresários da metrópole devem “encontrar uma voz e lutar pela sua cidade”, opondo-se a medidas como as políticas fiscais e de habitação de Mamdani. O autarca chegou a filmar um vídeo, na parte de fora da penthouse nova-iorquina de Griffin — considerado o apartamento mais caro dos EUA —, para promover um novo imposto dirigido a propriedades de luxo, o que levou o empresário a dizer que “Nova Iorque vai deixar de dar as boas-vindas ao sucesso”.

    De volta ao soccer. Scott Goodwin contactou, então, Ken Griffin. Falaram sobre o Mundial 2026, sobre a ideia de “legado”, sobre a importância de uma USMNT forte. O dinheiro foi desbloqueado.

    A 10 de setembro de 2024, foi anunciado que Mauricio Pochettino seria o sucessor de Berhalter. Transparente, a federação agradeceu, no comunicado a dar as boas-vindas ao novo selecionador, aos financiadores: A contratação foi financiada em grande parte por uma doação filantrópica de Kenneth C. Griffin, fundador e CEO da Citadel e fundador da Griffin Catalyst. Apoio adicional foi dado por Scott Goodwin, co-fundador e managing partner da Diameter, e vários parceiros comerciais“, isto é, patrocinadores. Sem Goodwin e Griffin, ”teria sido impossível" assegurar os serviços do argentino, comentou Cindy Parlow Cone, líder federativa.

    Rumo a Nova Jérsia?

    De acordo com informação fiscal já tornada pública, nos sete primeiros meses em que trabalhou com a seleção dos Estados Unidos, Poche encaixou cerca €4,4 milhões. Não obstante, os primeiros resultados estiveram longe de convencer.

    Em 2025, a primeira volta ao sol completa como selecionador, Mauricio viu a sua equipa somar quatro derrotas seguidas, frente a Panamá, Canadá, Turquia e Suíça. Em 2026, na antecâmara do Mundial, com o tal objetivo acercando-se, a desconfiança virou pessimismo, perdendo em particulares perante Portugal, Bélgica e Alemanha.

    Nos primeiros tempos no cargo, o homem vindo ao mundo há 54 anos em Murphy — contratado, adolescente, por Marcelo Bielsa, que chegou a casa dos pais de Mauricio às duas da manhã, pediu autorização para ver as pernas do rapaz que estava a dormir e, feito o exame, disse aos progenitores que “isto são pernas de futebolista”, levando-o para o Newell's Old Boys — teve um discurso cauteloso. Era “preciso construir o edifício começando pelas fundações”, garantia.

    Pochettino durante o Mundial 2026
    MediaNews Group/Pasadena Star-Ne

    Para Pochettino, os meses prévios ao Mundial foram de testes. Encontrar o seu grupo, a sua voz, o seu método. Chegado o torneio, algo mudou. O discurso tornou-se mais ambicioso. Passou a vestir-se com um certo arrojo americano, talvez até como um investidor ao estilo dos que o fizeram estar ali. Falou abertamente de sonhos aparentemente impossíveis, como ser campeão do mundo.

    O arranque da prova completou a viragem emocional. Vitórias e exibições convincentes, dinâmicas, com agressividade, pressão, padrões coordenados, domínio claro frente ao Paraguai, primeiro, e face à Austrália, depois. Desde os dias 13 e 17 de julho de 1930, há quase um século, que os EUA não conseguiam duas vitórias seguidas em Mundiais de futebol masculino.

    A fechar o compromisso perante os socceroos, Seattle cantou, em uníssono, o nome de Pochettino, que caminhava com a aura de um general vitorioso. Perder contra a Turquia, a fechar a fase de grupos, não comprometeu o primeiro lugar do Grupo D, mas veremos se afetou o momentum.

    O próximo teste, nos 16 avos de final, é a Bósnia (01h00 da madrugada de quinta-feira, Sport TV5), em São Francisco. A final, em Nova Jérsia, está a quatro longas eliminatórias de distância. Seguindo uma sugestão de Goodwin, informa o The Athletic, Pochettino viu o filme “Miracle”, de 2004, sobre a épica vitória da equipa olímpica de hóquei no gelo dos EUA contra a URSS, em 1980. Mauricio começou a citar o treinador daquela equipa, Herb Brooks, deixando uma frase que se tem visto nos cartazes dos estádios deste Mundial de soccer: "Why not us?". Porque não eles? Se forem eles, parte do mérito está nos multimionários, omnipresentes na história do país.

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