Portugal aceita as críticas “de braços abertos“, não quer “palmadinhas nas costas“. Mas há quem esteja “acima da opinião pública“
Roberto Martínez, selecionador nacional, a falar na primeira conferência de imprensa em Toronto, no Canadá, onde Portugal defronta a Croácia no Mundial
Anadolu
Roberto Martínez repetiu, mais uma vez, que frente à Croácia começa o “segundo Mundial” de Portugal e que os primeiros três jogos (dois empates e uma vitória) foram “a preparação perfeita”. Na véspera de disputar os dezasseis avos de final do torneio, o selecionador disse que Ronaldo, como Modrić, está acima do que se possa dizer sobre ele, mas Vitinha disse “compreender perfeitamente as dúvidas“ em torno da seleção nacional
Na véspera Bernardo Silva, hoje Vitinha. Não terá sido inocente a sucessão feita a um jogador bem-falante, sacudido de frases feitas e discursos redondos, por outro que se abstém de se limitar a dizer o óbvio. “Compreendo perfeitamente as dúvidas, as críticas, recebêmo-las de abraços abertos, não queremos só palmadinhas nas costas”, prestou-se a explicar o médio do Paris Saint-Germain, sem lhe perguntarem bem por isso. “Ninguém quer mais ganhar do que nós, estamos lá dentro por nós, pelo nosso país, pelas nossas famílias, é isso que vamos tentar demonstrar.”
Sem querer saber, nem falar, do calor ou da humidade de Miami, onde a Colômbia fez a seleção sofrer, ou no clima que Toronto possa congeminar na quinta-feira, Vitinha consentiu: “Realmente foi um jogo menos conseguido, principalmente quem está dentro do campo sentiu a falta de controlo.” O titular nos três encontros feitos no “primeiro Mundial”, como Roberto Martínez se fartou de repetir pouco depois, garantiu haver “uma vontade muito grande de melhorar” agora que “a margem de erro é quase nenhuma”.
Colecionador de passes acertados frente aos colombianos, mas inconsequentes, engolidos pela quase nula ameaça de Portugal, repleto Vitinha se apresentou na conferência de imprensa como cheio costuma estar da bola. É quem mais nela toca no jogo português, então foi nevrálgico a sentir as coisas que não bateram certo. “Eu, nós, somos os primeiros interessados em jogar bem, a que as coisas corram bem. Espero, e vou fazer por isso, que o meu nível e o da equipa possam subir”, garantiu, falando bem porque bem-pensante: “Estão sempre interligados, é impossível de indissociar.”
O médio espera que “o coletivo esteja bem” para ser o amparo a que a qualidade dos jogadores possa “ressaltar à vista de todos”. Com discurso algo apressado pelo atraso de uns 25 minutos com que a comitiva chegou ao estádio de Toronto, abeirado do Lago Ontario, Vitinha imitou a vénia de Bernardo, na véspera, ao jogador admirado por ambos. “É uma grande referência para todos os futebolistas, para mim ainda mais por ser médio, pareceu-me um grande tipo do que pudémos falar. É um prazer jogar contra ele”, revelou, no elogio tecido a Luka Modrić, de 40 anos.
Cristiano “acima da opinião pública”
Vitinha tem uma camisola do craque croata lá em casa, igual a Bernardo Silva. Os dois quiseram um pedaço da lenda do médio que está a um par de meses de ver o mesmo número de velas acesas no bolo que Ronaldo já soprou. Sem faltar, claro, uma questão ou outra sobre o capitão de Portugal cada vez que surge nestas lides, Roberto Martínez também falou dos antigos companheiros que se conhecem dos tempos do Real Madrid.
Vitinha durante a conferência de imprensa antes de Portugal defrontar a Croácia em Toronto, no Canadá
Mark Blinch
A primeira que recebeu visou logo o homem com mais golos (145) e internacionalizações (231) pela seleção, tocando igualmente em Gonçalo Ramos, avançado-sombra de Cristiano, acabado de ser transferido do PSG para o AC Milan e um dos “21 jogadores que já estiveram em campo” no torneio, número dito assim, sozinho, mais uma vez gabado pelo selecionador. A questão era sobre se, após merecer apenas sete minutos de jogo na prova - o outro lado do tal número -, Ramos irá ser titular contra a Croácia. O treinador respondeu não respondendo, preferindo carregar numa repetida ideia sua: “Amanhã começamos o Mundial, o segundo Mundial, foi muito importante uma boa preparação nos três jogos na fase de grupos, fizemos coisas bem e outras mais difíceis.“
Alvo de críticas na ressaca dos empates com a República Democrática do Congo e a Colômbia, tão pouco quis endereçar-se à pergunta sobre como tem lidado com esse ambiente: “A importância do jogo é tão grande que como se sente o selecionador não é importante“. A Martínez também foi pedido que destapasse o seu pensamento acerca de Luka Modrić e, aí sim, aproveitou para falar de Cristiano, colocando-os no mesmo saco lendário: “Jogadores que estão acima da opinião pública porque a longevidade no jogo faz com que sejam especiais.“
Vitinha dissera que todos na seleção aceitam as críticas que surgem e o selecionador, falando do capitão croata e do português, relevou que“importa o que eles fazem, o que praticam no balneário“.
Dentro desse espaço onde os jogadores convivem, equipam-se e aprontam-se para o jogo, Martínez garante estar uma seleção “preparada para tudo o que sejam condições climáticas, tempestades, fusos horários, viagens“. Em Toronto estará calor (19 horas locais), não tanto quanto Miami, nem comparável em humidade. O espanhol elogiou a “força do grupo“ e centrou-a na “atitude dos jogadores“, que “não procuram desculpas”. Sobre um deles, Bernardo Silva, não utilizado frente à Colômbia, explicou que não podiam “arriscar” porque “um cartão amarelo“ podia condicionar o médio do Manchester City para o encontro da fase a eliminar. Será uma pista?
A Nathan Phillips Square, no centro de Toronto, cheia de adeptos em dia de jogo da seleção do Canadá no Mundial
Desgostoso quando foi controntado com o suposto desgosto dos adeptos portugueses com a forma como a seleção tem jogado - “falou com os quase 20 milhões de adeptos que temos?“ -, devolveu-se às frases, aos raciocínios e às evocações em que tem baseado todas as conferências de imprensa, tornando esta uma quase repetição das anteriores. Foi uma colagem de “posso dizer que o nosso balneário tem muito profissionalismo para tentar ajuda a equipa“ com “precisamos de estar estar focados e trabalhar muito” e “o primeiro Mundial foi para criar um ambiente competitivo no grupo, de auto-crítica e de força, para tentar qualificar para o segundo”.
Diferente só quando citou um excerto da obra de Antonio Machado, poeta espanhol, para realçar que “o caminho se faz caminhando”. Sobre a Croácia e o jogo, elogiou os balcânicos por saberem bem o seu, terem “muito claro o que são e o que praticam“ e serem “muito bons nisso”. Finalista do Mundial em 2018 e uma das melhores quatro seleções no Catar, há três anos e meio, os croatas “têm um estilo semelhante” ao de Portugal, “gostam e precisam da bola para chegar à área, criar oportunidades e defender também“.
Mais incisivo, e realmente auto-crítico, tinha sido Vitinha: “Os nossos últimos jogos não foram ideias, sabemo-lo e dissemo-lo, mas sabemos no que temos de melhorar e vamos fazê-lo.Temos de mostrar que queremos passar à fase seguinte. Estaremos mais perto de o fazer se jogarmos bem.“