• Suécia
    18:0020 JUN
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    Grupo F
  • Mundial 2026

    Quando já nem eles acreditavam, a Bélgica ressuscitou para eliminar o Senegal

    Após o 3-2 de Tielemans, os belgas festejam
    Após o 3-2 de Tielemans, os belgas festejam
    Alex Grimm

    A perder por 2-0 aos 85' e a realizar uma péssima exibição, os belgas até já discutiam entre si, mas marcaram duas vezes em três minutos e forçaram o prolongamento. Quando já se esperavam os penáltis, Tielemans, aos 120+5', fez o definitivo 3-2 num castigo máximo

    Quando já nem eles acreditavam, a Bélgica ressuscitou para eliminar o Senegal

    Pedro Barata

    Jornalista

    É pensar nisto como um homem condenado à morte, que tem o destino escrito, transitado em julgado, decidido, adeus. Já viu o filme da vida a passar à sua frente, rezou se foi caso disso, o desfecho é inevitável.

    Subitamente, em vez de ir para a forca, dizem-lhe que tem uma nova oportunidade para viver. E ele agarra-se a ela, renascido.

    Foi o que sucedeu à seleção belga. Passados 85 minutos em que a equipa de Rudi Garcia se esforçou para dar a pior imagem possível, os seus futebolistas constituíam 11 seres humanos num terreno apto para a prática de futebol, não uma equipa. Tielemans, capitão, e Trossard, uma das referências, discutiram durante a última pausa de hidratação, trocando argumento, levando o treinador a separá-los. Nem eles próprio julgavam que a condenação não existisse.

    Eis que entrou o salva-vidas. Lukaku, aos 86', reduziu de 2-0 para 2-1 e, depois, o caos ilógico da bola dominou. Cruzamento, 2-2. Assistente? Trossard. Goleador? Tielemans. O futebol ri-se de nós e connosco, às vezes.

    O Senegal, que não foi a melhor equipa durante 85 minutos porque só houve uma equipa e portanto nem existiu disputa, teve os oitavos de final na mão. Eles desapareceram em duas sucessões rápidas de factos: os dois golos em três minutos, que forçaram o prolongamento, o decisivo penálti, marcados aos 120+5', para evitar o desempate por penáltis propriamente dito.

    A Bélgica fez tudo para não estar nos oitavos de final, mas lá estará. Defrontará o vencedor do EUA-Bósnia.

    A desilusão do Senegal
    Alex Grimm

    O Senegal ganhou a final da CAN, o que não faz da equipa a vencedora da competição. Os tribunais ainda estão por decidir definitivamente quem é o campeão africano, se os senegaleses, se os marroquinos, mas a jurisprudência não diverge em determinar que, aqui, mora uma excelente equipa de futebol, com queda para os finais dramáticos e os penáltis em tempos de descontos.

    Durante largos períodos, a Bélgica esteve no jogo como quem lê, ou tenta ler, um livro escrito num idioma que não domina, procurando tirar umas pelas outras, descortinar o significado de algumas palavras pela parecença com outras, mas sem compreender a mensagem, sem notar as figuras de estilo. Aos 14', na sequência de um cruzamento de Jakbos, Courtois mostrou essa tendência para a falha de interpretação, respondendo mal ao centro. Sarr fez um favor ao guardião e, ao não acertar na baliza, evitou o 1-0.

    Os africanos trocavam bem a bola, com serenidade. Mané estava como um sábio no relvado, partindo da esquerda para ter influência em todo o campo. A vantagem da melhor equipa surgiu aos 25', quando Mané cruzou da esquerda, Sarr, desfrutando da passividade belga, cabeceou ao poste e, na recarga, Habib Diarra atirou para a baliza deserta.

    Na pausa de hidratação, com os europeus parecendo perdidos, Rudi Garcia chamou Vanaken e De Bruyne para lhes dar indicações. Enquanto o técnico falava, o sistema de rega molhou-o. Era, de facto, um banho que os belgas estavam a levar. Logo a seguir, Mané tabelou com Pape Gueye e atirou para defesa de Courtois, um duelo que voltaria a suceder, sempre com vantagem do gigante guarda-redes. O ex-Liverpool ficará a lamentar esse desperdício, porque o 2-0 com que chegámos aos 85' poderia ser mais volumoso.

    Só em cima do descanso esteve o 1-1 próximo. De Cuyper, de fora da área, disparou para excelente defesa de Diaw.

    Nos contrastes de um Mundial cheio de climas diferentes, passa-se da canícula de Nova Jérsia para a amena Seattle em 24 horas. O pontapé de saída foi à uma da tarde, mas uns suaves 16 graus são mesmo o nível de calor em que se pensa quando se dá autorização para beber no meio de pausas publicitárias.

    Seattle, terra da revolução grunge, é uma das cidades com cultura futebolística mais vibrante dos Estados Unidos. Kurt Cobain era demasiado cool para o soccer, na verdade pertencia àquela coolness demasiado fixe para o desporto, para andar suado, para não pousar depressivamente a olhar para o infinito.

    Cobain, que não queria muito saber deste futebol de bola redonda, morreu dois meses antes do começo do Mundial 1994. Mas, no regresso da competição aos EUA passados 32 anos, um jogador traz Nirvana para Seattle. Ou traria, numa outra vida desportiva.

    “Jogar futebol simples é a coisa mais difícil no mundo. Mas quando a coisa flui? É a maior alegria que posso ter na vida. (…) Quando jogamos ao nosso melhor nível no City, quando está fluido, é como… qual a palavra? Sabes, quando meditas? Nirvana. É como nirvana para mim.”

    As palavras são de Kevin de Bruyne, no “The Players Tribune”, em 2019. Já há pouco desse De Bruyne nirvana em De Bruyne, até os gestos parecem entorpecidos, o cérebro mais lento. Aos 18', à entrada da área, teve tempo e espaço para finalizar. A bola parou na bancada. Seria substituído aos 56', saindo como uma figura sem brilho, juntamente com Doku, uma estrela bem mais nova, mas não mais luminosa nesta partida. De Bruyne passaria o resto da partida numa segunda fila do banco, pensativo, escondido, como quem pretende desaparecer.

    O recomeço, na sequência do único intervalo que o futebol deveria ter, trouxe o Senegal cheio de pujança. A Bélgica assumiu-se como aquelas pessoas que gostam de ver o trânsito a passar, mãos atrás da costas, paradas, apáticas. Mané, leve e jovem, cruzou para Pape Gueye atirar ao lado, antes do fantástico 2-0.

    Niakhaté fez um passe longo digno de Ronald Koeman, preciso, voador, teleguiado. Sarr, o ponta-de-lança mais móvel escolhido por Pape Thiaw, matou no peito com classe e disparou uma bomba para bater Courtois. Estávamos nos 51', mas havia uma colossal montanha para os belgas escalarem.

    Rudi Garcia foi escrevendo num bloco de notas ao longo da partida, como quem rabisca uma lista de compras. O treinador ia olhando para os seus lembretes e mexendo a partir do banco. O benfiquista Lukebakio criou um bom lance para reduzir a desvantagem, numa iniciativa individual ao seu estilo, da direita para o centro e rematando em arco. Saiu perto. Diego Moreira, internacional jovem português, debutou no Mundial e veio com energia e agressividade.

    Outro suplente seria decisivo. Romelu Lukaku tem 33 anos mas parece mais velho. Carrega as marcas das batalhas, o peso do tempo para quem se estreou profissionalmente aos 16. Mas big Rom é insistente, persistente, é o quinto melhor marcador da história das seleções, só atrás de Cristiano Ronaldo, Lionel Messi, Ali Daei e Sunil Chhetri. Partiria do poliglota atacante a reação da Bélgica, uma daquelas respostas que alimentam clichês com sentido, que dão asas ao “tudo pode acontecer” e “só está decidido quando o árbitro apita”.

    Aos 86', Meunier cruzou da direita e Lukaku antecipou-se para chegar ao 407.º golo da carreira, o 92.º pela seleção. 2-1 e o renascimento belga feito.

    O símbolo de uma equipa que, de um momento para o outro, transformou o seu estado emocional foram os colegas desavindos que combinaram para o 2-2, acabando a saudar-se. Tielemans e Trossard, pegados na última pausa de hidratação, combinaram para levar a eliminatória para prolongamento. Trossard cruzou, Diaw saiu pessimamente, Tielemans marcou, as pazes foram feitas.

    O prolongamento chegou como uma segunda vida para os belgas. Durante alguns minutos, os 30' suplementares pareceram o comum prólogo antes dos penáltis, mas houve verdadeiras oportunidades de golo. Mbaye, de pé esquerdo dentro da área, atirou a roçar o poste direito. Lukebakio, na ressaca de um cruzamento da esquerda, acertou na barra.

    A bola colocada na área que levou ao tiro do benfiquista saiu do pé esquerdo de Diego Moreira. Num primeiro momento, Lamine Camara, na interpretação do árbitro após consulta das imagens, derrubou Tielemans. O próprio médio do Aston Villa executou, sem tremer, o penálti. O condenado escapou-se da forca e poderá viver mais uns dias. O Senegal faz as malas com a sensação de que poderia ter ido muito mais longe.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt