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    Eles nasceram em campos de refugiados em África, jogam pela Austrália e, enquanto estão no Mundial, lutam contra a retórica anti-imigração

    Nestory Irankunda, refugiado do Burundi, e Mo Touré, refugiado da Libéria, são destaques da Austrália
    Nestory Irankunda, refugiado do Burundi, e Mo Touré, refugiado da Libéria, são destaques da Austrália
    Soccrates Images

    Nestory Irankunda, Mohamed Touré e Awer Mabil são filhos de famílias que fugiram, respetivamente, do Burundi, da Libéria e do Sudão. Chegaram com vistos humanitários a Adelaide e, 20 anos depois, defendem a nação que os acolheu no Mundial, pregando a diversidade enquanto, na Austrália, responsáveis políticos que lideram sondagens alegam que o país deve ser “uma sociedade monocultural”. Os socceroos tentarão superar o Egito (19h, Sport TV5) e chegar aos oitavos de final

    Eles nasceram em campos de refugiados em África, jogam pela Austrália e, enquanto estão no Mundial, lutam contra a retórica anti-imigração

    Pedro Barata

    Jornalista

    Kigoma, Tanzânia. Conacri, Guiné. Kakuma, Quénia. E Adelaide, Austrália.

    O que une estes territórios a Dallas, Estados Unidos da América?

    Nestory Irankunda veio ao mundo em Kigoma, Mohamed Touré em Conacri, Awer Mabil em Kakuma. Os três foram viver para Adelaide. O trio joga pela Austrália e disputará, no Texas, os 16 avos de final do Mundial 2026 contra o Egito, esta sexta-feira (19h, Sport TV5).

    Os três são filhos da guerra, a qual leva à necessidade de procurar proteção. Viveram em campos de refugiados, cruzaram o planeta rumo à Oceânia, em busca de uma vida melhor, e voltaram a cruzá-lo em direção às Américas, para representar a Austrália, da qual são cidadãos de pleno direito.

    “A Austrália foi a terra que nos deu uma oportunidade, então queremos ajudá-la”, resume Mo Touré, 22 anos.

    De África para Adelaide

    Os pais de Awer Mabil fugiram da guerra civil no Sudão, chegando ao Quénia, onde o futuro jogador nasceria no campo de refugiados de Kakuma. A família de Touré é da Libéria, tendo estado 14 anos num campo de refugiados em Conacri, onde Mo abriu os olhos pela primeira vez. Nestory Irankunda é o terceiro de oito irmãos, filhos de um casal de refugiados do Burundi que vivia num campo de abrigo na Tanzânia.

    Nestory Irankunda marca à Turquia
    Stu Forster

    Os três aterraram com vistos humanitários, entre 2004 e 2006, na Austrália. Touré e Irankunda foram com escassos meses de existência, Mabil só com 10 anos. Todos acabariam por assentar em Adelaide, de onde é Tete Yengi, outro colega da seleção da Austrália presente no Mundial 2026, filho de um ativista pelos direitos dos refugiados vindo do Sudão do Sul.

    A marca do futebol com influências africanas é tão grande em Adelaide que lá se disputa a Taça das Nações Africanas da Austrália do Sul (AFCON SA), espécie de CAN para descendentes dos diversos países do continente. Tete Yengi, Mo Touré e Nestory Irankunda conhecem-se desde crianças.

    O precoce e a referência

    O grande momento da Austrália no Mundial 2026 deu-se em Vancouver. Aos 27' do desafio contra a Turquia, Irankunda fugiu da defesa adversária e atirou para abrir caminho rumo à quinta vitória da história dos socceroos na competição, fazendo do jovem do Watford, de 20 anos, o mais jovem de sempre a marcar pelo país no grande palco planetário.

    Ao festejar o golo, o avançado deu socos na bandeirola de canto, emulando a mítica celebração de Tim Cahill, lenda do futebol da Austrália e, para Irankunda, um exemplo de representatividade: “Sei que ele não era negro, mas, sendo de origem de Samoa, sempre o tive como referência”.

    Nestory debutou pelo Adelaide United com 15 anos, saindo para o Bayern Munique por €4 milhões, uma transferência recorde para a A-League. Não chegaria a vestir a camisola da equipa principal bávara, desenvolvendo-se no Championship, onde também está o amigo Mo Touré, com 10 golos em 12 jogos na segunda metade da época pelo Norwich.

    Awer Mabil, ex-Paços de Ferreira, nasceu num campo de refugiados no Quénia
    Gualter Fatia

    Os dois parceiros olham para o outro filho de refugiados que chama casa a Adelaide como “um ídolo”, comenta Irankunda. Trata-se de Mabil, 30 anos, atualmente no Castellón, da segunda liga espanhola, em 2017/18 com passagem pelo Paços de Ferreira.

    Awer é, há muito, um caso de desportista com compromisso social. Criou um programa para recolher botas de futebol de jogadores que já não as usem e levá-las para o campo de refugiados onde viveu 10 anos, procurando que as crianças não tenham de, como ele, jogar descalças, entre diversas outras campanhas viradas para a melhoria das condições de vida de quem tenta construir restos de esperança. Em 2023 recebeu o prémio de jovem australiano do ano, justamente por causa do seu ativismo e compromisso com a comunidade.

    A retórica anti-imigração

    Os protagonistas da equipa de Tony Popović chocam com o que se vê na política aussie. O discurso contra os imigrantes tem subido de tom recentemente, com o One Nation, um partido da direita populista, a registar valores históricos nas últimas sondagens, ocupando a primeira posição.

    Recentemente, Pauline Hanson, líder do One Nation, alegou que a Austrália deveria ser uma “sociedade monocultural”. “Não podemos ser uma sociedade multicultural. Somos uma sociedade multicultural, mas temos de ser monocultural. Os australianos têm de viver debaixo do mesmo chapéu de chuva cultural”, opinou.

    No país, a seleção de futebol é vista como um caso oposto a estas ideias. Há 15 backgrounds culturais diferentes no balneário. Além dos casos de Irankunda, Mabil e Touré, há outros com raízes em África: Jason Geria no Uganda, Keanu Baccus na África do Sul, Lucas Herrington no Zimbabué. Também se regista influência europeia, com Alessandro Circati a ter origens italianas, Paul Okon-Engstler belgas, Milos Degenek croatas e Harry Souttar escocesas.

    Awer Mabil, ainda antes do Mundial começar, deu o mote para participação com ramificações além do meramente desportivo: É o momento para descrever o que a Austrália é. Um país multicultural, o melhor país do mundo justamente por ser multicultural. Os socceroos representam isso: muitas origens diferentes unidas na mesma camisola.

    Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: tribuna@expresso.impresa.pt