Hakimi, nascido em Espanha, e Bouaddi, natural de França, representam Marrocos
Hannah Peters - FIFA
Com as migrações no centro do debate político em vários países, as seleções competem por atrair os muitos jogadores elegíveis para representar diversas nações. A Europa consolida-se como grande centro formador de talento, mas há cada vez mais futebolistas que optam por representar a terra dos pais ou dos avós
Suíça-Bósnia. Protagonista do encontro? Johan Manzambi, natural de Genebra, pais de Angola e da República Democrática do Congo. Canadá-Suíça. Autor de um hat-trick? Jonathan David, nascido em Nova Iorque, filho de haitianos, foi para Port-au-Prince aos três meses, imigrou para o Canadá aos seis anos.
Inglaterra-Croácia. Último golo ingês? De Marcus Rashford, jamaicano do lado do pai, São Cristóvão e Neves da parte da mãe. Portugal-RD Congo. Herói dos africanos? Yoane Wissa, vindo ao mundo em Épinay-sous-Sénart, um subúrbio parisiense.
Áustria-Jordânia. Quem selou o triunfo europeu? Marko Arnautovic, cidadão de Viena, com pai sérvio e mãe austríaca. França-Senegal. Quatro golos? Bem, os autores dos remates certeiros poderiam, todos, representar outras cores: Mbappé os Camarões ou a Argélia, Barcola o Togo, Ibrahim Mbaye a própria França ou Marrocos.
Estes encontros realizaram-se todos ao longo dos últimos dias, mas mais exemplos haveria, casos vindos de todos os continentes e confederações. Talvez o expoente máximo se tenha visto em Monterrey, quando Yasin Ayari abriu o marcador no Suécia-Tunísia e não festejou, pedindo desculpas, como quem marca à ex-equipa. Razão? O médio é de Solna, mas o pai é tunisino e a mãe marroquina. Já agora, ao apontar o definitivo 5-1, Ayari decidiu que, bom, não é todos os dias que se bisa num Mundial, então o melhor é mesmo festejar.
Todos os jogadores franceses nesta fotografia poderiam representar outra (ou outras) seleção
Shaun Botterill - FIFA
Olhe-se para onde se olhar, é inegável: este é o Mundial da diáspora. O Mundial em que boa parte dos jogadores poderia vestir outra camisola, a competição em que muitos não representam o país de nascimento e outros, representando-o, poderiam optar pelas terras de onde saíram os seus ascendentes. É o Mundial onde seduzir os filhos da diáspora se torna uma tarefa tão importante para as federações como desenhar programas de formação ou escolher os selecionadores.
É, também, o Mundial da diáspora porque as migrações, algo tão humano como ir em busca de um sítio com melhores recursos naturais ou mais paz ou melhor emprego, estão no centro do debate político global. Donald Trump, cujas políticas de entrada e permanência nos Estados Unidos marcam a competição — é o torneio em que o melhor árbitro africano foi barrado —, apontou, há dias, o risco de, “importando pessoas de países do terceiro mundo”, os EUA se transformarem “num país do terceiro mundo”.
França, o berço do Mundial
Uma das maravilhas da modalidade mais popular da história da humanidade é a capacidade de gerar craques nos locais mais improváveis. Há qualidade a brotar de Barrancas, na Colômbia caribenha, como Luís Diaz, ou em Bushehr, no Irão que mira ao golfo pérsico, como Mehdi Taremi. Ter como ponto de partida Taskhent, na Ásia central, não impediu Abdukodir Khusanov de chegar ao Manchester City.
Não obstante, este Mundial consolida uma tendência: é na Europa, nos grandes centros de formação do continente, nas máquinas de produção quase industrial de jogadores, que se forja a maioria dos profissionais das botas calçadas. França, Países Baixos, Inglaterra e Alemanha, particularmente estes quatro países, pegam nos seus jovens — parte deles filhos da imigração — e levam-nos para o topo.
12 dos 26 convocados do Haiti nasceram em França
Justin Setterfield
Esta mistura entre capacidade de formação e ser um país recetor de vagas de migração leva a França a destacar-se como grande berço do torneio. Há 98 futebolistas presentes nos EUA, Canadá e México a terem o hexágono como maternidade, o suficiente para formar quase quatro seleções e cerca de 7,9% da totalidade de participantes. Em segundo lugar surgem os Países Baixos, com 67, cifra muito auxiliada pelos 25 homens de Curaçau com nascimento neerlandês. Segue-se a Alemanha, com 48, com o quarto posto partilhado entre Espanha e Bélgica, com 36.
Buenos Aires, São Paulo, Londres ou Lisboa, e respetivas áreas metropolitanas, são grandes urbes de onde vêm destacadas figuras. Ainda assim, Paris e os seus gigantescos subúrbios afirmam-se como o local mais provável para ser a casa de quem pisa o relvado. Há 53 futebolistas do Mundial 2026 naturais da capital francesa e das suas áreas circundantes.
Colonialismo... e não só
Estes dados contam-nos uma história das relações de poder dos últimos séculos. O colonialismo é, obviamente, um fator decisivo neste Mundial da diáspora. Dos 76 naturais de França que representam outras seleções, a maioria (43) tem raízes em cinco Estados que deixaram de ser colónias francesas entre 1956 e 1962: Marrocos, Tunísia, Argélia, Costa do Marfim e Senegal.
O "The Guardian" notava, já durante a competição, que o Reino Unido invadiu, ocupou ou tomou ações militares contra 44 dos países em ação no campeonato.
Em Curaçau, apenas um dos 26 chamados nasceu no território. Marrocos, a certa altura do confronto diante do Brasil, tinha 11 jogadores em campo nascidos fora do país africano, três em Espanha, dois na Bélgica, quatro em França, um no Canadá, outro nos Países Baixos.
A República Democrática do Congo tem 11 naturais de França e cinco da Bélgica. A Argélia tem 13 vindos de França, o Haiti tem 12, o Senegal apresenta 10, a Costa do Marfim conta com oito, a Tunísia leva sete. Cabo Verde, por sinal, não conta com um domínio do antigo colonizador, mas sim dos Países Baixos, com seis. Há três nascidos em França no conjunto de Bubista, três em Portugal, um nos EUA e outro na República da Irlanda.
Mas não é só o colonialismo o único fator a considerar. Os iraquianos são a segunda maior comunidade na Suécia, algo que muito se deve aos refugiados que foram para o país escandinavo na sequência da invasão norte-americana no arranque do século XXI. Consequentemente, há quatro futebolistas do Iraque com naturalidade sueca.
Apenas um dos convocados de Curaçau nasceu no território do Caribe
Molly Darlington
As deslocações forçadas com motivos bélicos também influenciaram nações europeias, nomeadamente nos Balcãs. Há 17 membros da Bósnia que abriram os olhos pela primeira vez num outro local, com histórias como a do jovem talentoso Esmir Bajraktarević, de 21 anos, cujos pais sobreviveram ao genocídio de Srebrenica, em 1995, o qual vitimou o avó e quatro tios. A família descolou-se enquanto refugiada para a Suíça, primeiro, e depois para os EUA, onde Esmirnasceu.
A Alemanha destaca-se especialmente enquanto ponto de acolhimento da imigração europeia. De lá são quatro futebolistas que representam a Bósnia, cinco da Turquia e três da Croácia.
As diferentes políticas de acolhimento de refugiados são, portanto, outra causa da proveniência de talento. O primeiro golo da Austrália no Mundial 2026 foi de Nestory Irankunda, nascido num campo de refugiados na Tanzânia, em fuga da guerra do Burundi. Também nos socceroos milita Awer Mabil, ex-Paços de Ferreira, que viveu até aos 10 anos num campo de refugiados no Quénia, filho de escapados do Sudão do Sul. Outra jovem esperança da equipa é Mo Touré, original de um campo de refugiados na Guiné, com pais à procura de proteção da guerra civil da Libéria. As famílias Irankunda, Mabil e Touré beneficiaram das portas abertas australianas.
O poder de atração
A multiplicidade de origens atesta-se por haver três pares de irmãos que defendem conjuntos diferentes. Os Souttar são de Aberdeen, produto da relação entre um escocês e uma australiana. Harry defende a Austrália, John a Escócia. Os Williams assentaram no País Basco, na sequência de uma história de superação, com ascendência ganesa. Nico representa Espanha, Iñaki o Gana. Os Doué têm mãe francesa e pai costa-marfinense. Désiré é atacante pela França, Guéla é lateral-direito na Costa do Marfim.
Yasin Ayari marcou o primeiro golo dos suecos no Mundial 2026, mas não festejou
Se França ou Inglaterra são centros de formação, os seus jogadores não deixam de contar estas narrativas de deslocação de seres humanos. Com efeito, 20 dos eleitos por Tuchel poderiam atuar por outra seleção que não a inglesa, enquanto 21 dos homens de Deschamps tinham a opção de defender outro país.
Os gauleses, epicentro deste Mundial da diáspora, estão recheados de gente que tem múltiplas raízes: Saliba tem pai libanês e mãe camaronesa, Cherki poderia ter representado Itália ou a Argélia, Dembélé tem mãe da Mauritânia e pai do Mali, nas veias de Mbappé corre sangue camaronês, do lado paterno, e argelino, da parte materna. Todos são cidadãos franceses, nascidos em França.
Perante este paradigma, as federações protagonizam uma verdadeira corrida para convencer os jogadores. É uma disputa de sedução, de convencimento, com os mais variados argumentos, desde o apelo que pode ser feito ao coração — há histórias de dirigentes que foram falar primeiro com os pais, com maiores ligações às terras de origem , para estes depois incentivarem os filhos — até razões mais desportivas. Veja-se como, em março, Portugal tentou convencer Eli Juniour Kroupi, mas sem êxito. Luís Freire já falou sobre a atenção que a FPF dedica a este trabalho, começando nas seleções jovens.
Um dos principais destaques da ronda inaugural do Mundial, Ayyoub Bouaddi, jogou, em março passado, pelos sub-21 de França. Marrocos, capaz de convencer craques que caberiam em grandes seleções europeias, acenou com uma titularidade no maior dos palcos e obteve um reforço de luxo.
Responsáveis de Cabo Verde têm mencionado que um dos principais fatores de crescimento desta histórica participação é o acréscimo de atratividade para a causa cabo-verdiana. Com hipóteses reais de pisar grandes palcos, é mais fácil convencer quem seja internacional jovem neerlandês ou português. Para Haiti ou Curaçau, estas funções — facilitadas pelo alargamento — são vitais para a competitivade nacional.
Um dos maiores artistas presentes no Mundial é Michael Olise, o fantasista do Bayern Munique. Conhecido pelas escassas palavras, o canhoto nasceu em Inglaterra, filho de um britânico-nigeriano e de uma franco-argelina. Olise fala pouco, mas, sobre este assunto, foi contundente: “De onde sou? Sou de quatro países: França, Argélia, Nigéria e Inglaterra. Sinto-me sortudo por ter essas quatro partes, todas me enriqueceram.”