O instinto letal de Mikel Merino volta a dar uma vitória tardia à Espanha
Mikel Merino festeja o 2-1
David Ramos
Tal como frente a Portugal, os campeões da Europa decidiram o jogo à beira do fim, outra vez com o médio com instinto de atacante a brilhar. O 2-1 contra a Bélgica, com golo decisivo aos 88', leva la roja para uma brutal meia-final contra a França
Onde os outros são toque, ele é ataque à área. Outro os outros são controlo, ele é movimentação agressiva. Onde os outros são linguagem recorrente, ele é palavra incomum.
Onde Rodri, Fabián, Pedri, Olmo são discurso, Merino é recurso. O médio que vale, muito, pela essência de avançado. O centrocampista cujo último golo pelo Arsenal é mais recente do que a derradeira titularidade pelo Arsenal. O homem de meio-campo com mais golos marcados no Mundial 2026 do que desafios de início no torneio.
Entrou aos 85' contra Portugal, marcou aos 90+1'. Entrou aos 86' contra a Bélgica, marcou aos 88'. Se nos oitavos de final leu a jogada desenhada pelos colegas, interpretou-a, decifrou-a, aqui cheirou o sangue: Courtois saíra lesionado, Lammens não é Courtois, o guardião não agarrou o remate de Cubarsí. Recarga, golo.
Se Espanha quer imitar 2010, vai no bom caminho. Não venceu o primeiro jogo da fase de grupos, fechando-a contra uma seleção de Bielsa. Ganhou nos oitavos de final por 1-0 diante Portugal. Passou os quartos de final com sofrimento, também pela margem mínima. Vai-se encontrar nas meias-finais com um gigante europeu que derrotou no passado torneio continental.
França-Espanha, terça-feira, em Dallas. Não é preciso dizer mais.
Mikel Merino atira para o golo decisivo
Robbie Jay Barratt - AMA
O meio-dia californiano acolheu mais um embate totalmente Europeu desta antepenúltima fase do Mundial 2026. O sol exterior ficava assim mesmo, lá fora, coberto pelo teto desta gigantesca arena, deste estádio que parece uma colossal nave especial do Star Wars, um planeta andante com um relvado lá em baixo e as estrelas nos camarotes: Brad Pitt, Javier Bardem, Penélope Cruz, Noel Gallagher. This is Hollywood, baby.
A Bélgica instalou-se nos quartos de final depois de, na ronda anterior, ter sido a equipa mais apoiada da história da humanidade, legião de adeptos convocada por Trump, Infantino e o caso Balogun, uma mancha para este torneio. Em Los Angeles, a equipa de Rudi Garcia foi forçada a fazer marcha-atrás nas recentes decisões arrojadas do técnico, que substituíra precocemente Doku e De Bruyne perante o Senegal e deixado ambas as figuras no banco contra os Estados Unidos. Com Onana e Tielemans lesionados, regressou-se a uma fórmula mais parecida à anterior, com Lukebakio no banco. As baixas notaram-se, particularmente quando foi necessário recorrer ao banco na parte final.
Apesar de ter falhado uma grande penalidade, Mbappé desbloqueou o jogo
Até à primeira pausa de hidratação, pouco aconteceu. Lamine Yamal, nas suas fintas e dribles, mudanças de direção e artimanhas, ia tentando animar a partida, mas sem grandes efeitos práticos.
Na sequência do primeiro quarto, a chispa chegou. Lamine encontrou a desmarcação de Pedro Porro, que cruzou atrasado para Dani Olmo. Courtois, o mais espanhol dos belgas, cheio de ligações pessoais e profissionais ao paíos, ainda parou o primeiro remate, mas a recarga chegou a Fabián Ruiz. O andaluz, titular surpreendente com Pedri no banco, apontou o 1-0.
Embalado pelo golo, Yamal começou a causar cada vez mais problemas à defesa belga. Muitas vezes em duelo particular com Doku, tão apto a defender Lamine como um garfo para comer uma sopa, o canhoto gerou bastante perigo. Já agora, pensemos, num instante, no absurdo que é que Lamine Yamal — tricampeão espanhol, campeão da Europa... — apenas cumpra 19 anos na próxima segunda-feira.
A Bélgica parecia distante de Unai Simón, mas apenas precisou chegar uma vez perto do guarda-redes para o bater pela primeira vez neste torneio. Um lance de insistência levou ao cruzamento em boa posição de Castagne, com Charles De Ketelaere, agressivo e inteligente, a antecipar-se a Cubarsí, dono de muitas virtudes, mas não o mais agressivo ou contundente dos centrais. 1-1 ao descanso.
O 1-0, de Fabián RUiz
Alex Grimm
O 1-0, de Fabián RUiz
Alex Grimm
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O recomeço trouxe perigo para ambos os lados, com Lamine, sempre Lamine, a ser um gerador de perigo, servindo Oyarzabal para Courtis defender. De Cuyper, pelos belgas, acertou nas malhas laterais em boa posição.
Esta la roja tenta fugir aos vícios de outros Mundiais, ser menos previsível, não andar eternamente a trocar a bola sem profundidade. A fórmula do passado Europeu, portanto. A questão é que, sem Williams, à procura da melhor forma e suplente utilizado, o avião fica só com uma asa, por muito talentoso que Yamal seja. É uma Espanha a tentar lidar com essa circunstância debilitante ao longo de toda a competição.
Com o decorrer da etapa complementar, a Bélgica foi-se encolhendo. Aos 60', Rudi Garcia lançou Witsel e Lukaku, que somam 70 anos e 272 internacionalizações entre os dois, membros da geração de ouro ainda por aqui. Com a equipa a sofrer, Courtois lançou-se ao chão, para o que todos pensávamos ser o clássico ritual do guarda-redes que é assistido e, simultaneamente, os colegas vão ouvir indicações do treinador. Aqui, Michael Oliver, árbitro do jogo, decidiu que era o momento para pausa de hidratação, que assim foi desconto de tempo, pausa de assistência médica, momento para beber água, minutos de discoteca dentro do estádio, tudo em conjunto.
E eis que todos os que duvidámos da veracidade das queixas de Thibaut ficámos surpreendidos. O gigante guardião do Real Madrid teve mesmo de sair, em lágrimas, substituído por Senne Lammens, cuja experiência anterior em desafios oficiais pela seleção era de uma internacionalização contra o Liechtenstein.
Os minutos iam passando, o prolongamento parecia uma inevitabilidade, surgindo, expectante, enquanto Lukaku ia lutando contra toda a defesa espanhola. Mas, tal como contra Portugal, o médio llegador, chegador, que se acerca da baliza, teve instinto e qualidade para ser herói.
Lammens fica como o vilão. Já muitas certidões de óbito foram passadas à geração de ouro belga, que já não é propriamente a protagonista absoluta desta equipa, ainda que vários dos seus membros ainda por aqui andem. Mas, na impotência do lesionado Courtois, no apagão de De Bruyne e no esforço inglório de Lukaku, parece que, desta vez sim, é momento de virar a página para quem conseguiu a proeza de chegar aos quartos de final três vezes nos últimos quatro Mundiais.