Tribuna 12:45

O algoritmo de Bernardo Silva

Ao fim de nove épocas, Bernardo Silva anunciou que vai sair do Manchester City, clube onde é capitão de equipa e pelo qual tem 452 jogos feitos
Jack Thomas - UEFA

Deixem-me contar-vos sobre como acho que o dominó atual da vida funciona, ou pelo menos operou comigo desde há uma semana. Então, estivera há dias entre um falatório que dedicou o seu final a Bernardo Silva, dentro desse estúdio de rádio havia microfones incluindo os do telemóvel esperto que tinha em cima da mesa mas excluindo o das antenas telepáticas do jogador em causa, dias volvidos ei-lo a despedir-se do Manchester City esparramando o coração em palavras e confirmando o que já se sabia. O cicerone da tal tertúlia não era eu, nem eu sabia que haveria vénia ao jogador, nem o Bernardo poderia saber.

Mas soube de imediato o malandro algoritmo. Connosco carregamos uma tecnologia bisbilhoteira a quem rendemos a nossa vida, logo nesse dia as redes sociais julgadoras do que me poderia interessar julgaram ser interessante pôr no scroll infinito um médico tornado analista de futebol da BBC nas horas vagas a quem Bernardo Silva uma vez escreveu a agradecer por um texto, depois vídeos vários de compilações das melhores jogadas de Bernardo Silva no Manchester City, também dos melhores golos de Bernardo Silva no Manchester City, citações dos elogios feitos a Bernardo Silva enquanto no Manchester City e digamos que foi uma semana de exposição a muito Bernardo Silva que abarcou um vídeo dele, o franzino, a dizer a Rúben Dias “eu não faço ginásio, isso é para os tipos que não sabem jogar com os pés”

As artes não tão ocultas do algoritmo pareciam saber que tudo desaguaria no Manchester City-Arsenal de domingo, onde o português repetiu um jogo que há que tempos joga no miolo do relvado, a reinterpretar mais uma vez outro tempo do futebol quando não importavam estatísticas como os passes progressivos feitos dentro do meio-campo adversário ou os toques na bola dados na área dos outros, modernices numéricas para mensurar a qualidade quando tantas vezes se pode aplicar uma variação do que Bernardo Silva disse ao seu amigo musculado do City: basear em estatísticas o que um jogador é será para quem não sabe ver o que ele vale.

Já de adeus confirmado a Inglaterra mas ainda com futebol de sobra, Bernardo Silva jogou cada minuto da vitória do City contra o Arsenal que ressuscitou a possibilidade de ser campeã à equipa de Pep Guardiola, o treinador calvo por tanto neurónio queimar sobre futebol, cauto nos seus pensamentos que não o deixam abdicar do português que chegou a Manchester pela direita, um extremo para atacar, encarar o adversário, fintar, cruzar, rematar, e irá embora como um médio de super-cola no pé esquerdo, a demorar nos toques na bola, estimando o tempo com ela enquanto afere o momento certo de a passar, sabendo ele bem quando é por ser isso que ele faz melhor, pensar.

Vimo-lo no seu esplendor de médio-pensador, a mandar no início das jogadas do City, a pedir a bola entre linhas, rodopiando e correndo com ela, ou a esfolar-se na perseguição de um adversário lançado contra a sua baliza, cortando a bola em carrinho num gesto esforçado, sem caxemira, quando já só o guarda-redes restava caso o falhasse. Bernardo Silva dá para tudo, um metrómano futebolístico sempre de cabeça levantada, sonar humano do que o rodeia, capaz de pôr em verso o que é prosa e ser o português, excluindo Cristiano Ronaldo, que mais tempo jogou no cume de uma das grandes ligas europeias.

Bernie, como lhe chama Haaland, foi considerado o melhor em campo no Manchester City-Arsenal
Catherine Ivill - AMA

Para isso o algoritmo está-se nas tintas, ou quiçá não, afinal é-nos possível se não evita-lo, pelo menos ludibriá-lo um nico, um ou outro like nas coisas certas e no final do jogo lá apareceu esparrapachado no meu ecrã a eulogia monumental de Guardiola na flash interview depois de no campo ter pedido aos adeptos que aplaudissem Bernardo Silva. Disse o treinador, apontando para a cabeça, que o português prova “como o futebol começa aqui, não nos pés”, admirando-o por “não ser o mais rápido, nem o mais veloz” mas “saber exatamente, em cada momento, qual a melhor ação”.

Porque lhes perguntei, também me chegou a vénia de Fernando Santos ao jogador “tecnica e taticamente perfeito” que fez estrear na seleção nacional, em 2015, “um dos melhores da última década” e “muito inteligente” ao ponto de lhe “permitir no jogo antecipar as decisões a tomar em cada momento”. E a de Blessing Lumueno, infeliz por nunca o ter treinado mas admirador de quem “pensa tudo o que faz, e pensa bem”, elevando-o ao jogador português que “melhor pensou o jogo” e “mais fez dos seus colegas melhores”.

Bendito algoritmo por depois lhes secundar a opinião ao apresentar o vídeo de Gary Neville, o mais badalado dos pundits ingleses, a render-se ao facto de “simplesmente ele estar sempre onde tu achas que um jogador deve estar”, pintando de “incrível o que vimos hoje”. Ou o de Erling Haaland a chamar-lhe “fucking Cannavaro” pelo tal corte à defesa central, desculpando-se o norueguês pelo vernáculo em direto na televisão - “já todos dissemos palavrões na vida” - a bem do elogio “ao Bernie”, que há dias elevara a “jogador mais inteligente” com quem já jogou.

Pensando melhor, qual algoritmo, qual quê, a binária coleção de zeros e uns que perfaz aquilo que os ecrãs nos presenteiam nada tem a ver com o futebol simples, sem truques nem artifícios, logo de tão difícil execução, de Bernardo Silva, considerado o melhor em campo no Manchester City-Arsenal, jogo-cimeira da Premier League laureada pela intensidade do seu jogo, pelo atleticismo a que obriga quem lá joga, mas dominado pelo tipo franzino, despido de músculos inchados, cuja “qualidade e paixão superaram sempre o facto de ser mais pequeno que os outros”, palavra de Pedro Correia que com ele jogou em gaiato na formação do Benfica e confidenciou outra prova inatacável no capitão do clube inglês com mais sucesso na última década: “Quem jogava com ele sabia que era diferente e a relação que tinha com a bola fazia qualquer um roer-se de inveja.”

Por isto Bernardo Silva supera o relambório das redes sociais, aliás as páginas ativas que lá tem são um mural de colagens simples acerca dos acontecimentos da sua carreira na quantidade precisa e adequada, nunca de mais nem de menos. Uma mímica do que ele é no campo, sem dependência nas instruções programadas de algoritmos que adoram a muleta das estatísticas. O jogo que joga fala bem alto por ele, esse é o seu algoritmo e, aos 31 anos, irá ao Mundial como um dos capitães de uma seleção abundante em talento e ávida em boas dores de pensamento para Roberto Martínez quanto à forma como haverá de o potenciar.

Que mantenha Bernardo como o sol da equipa, no centro de tudo enquanto lhe admiramos a simplicidade das ações e a elegância no trato da bola agora puxados para o centro do campo - não por estar velho, lento ou cansado, mas por ser quem pensa melhor. Como diz Fernando Santos, “é um prazer falar do Bernardo”. Quando não o estiver a ver, eu, pelo menos, vou continuar a pôr likes para o algoritmo não se esquecer dele.

O que se passou

Zona mista

Há pessoas mais básicas na compreensão das coisas.

A frase é de Natalia Arroyo, uma de várias com pés e muita cabeça dita pela treinadora de futebol espanhola, hoje no Aston Villa, quanto à decisão do Union Berlin em escolher Marie-Louise Eta para orientar a equipa principal masculina. Arroyo, como Mariana Cabral, falou com o Pedro Barata sobre a decisão do clube alemão, inédita nos campeonatos do big 5, de escolher uma mulher para o cargo. As suas respostas são um compêndio de sensatez, diagnóstico acertado e lógica, qualidades que muitos homens não tiveram ao comentarem a notícia. Se quiserem entender até que ponto, espreitem as contas do Union Berlin no X, a rede social desgovernada, antes de a equipa perder na estreia de treinadora para verem o quão básicas conseguem ser algumas pessoas.

O que vem aí

Segunda-feira, 20

🎱 Decorre o Mundial de snooker no mítico Cruciable Theather, em Sheffield (todos os dias a partir das 10h, nos canais Eurosport, até 4 de maio).
⚽ A 30ª jornada da I Liga encerra com o Moreirense-Estoril Praia (20h15, Sport TV1). Na Premier League, o West Ham de Nuno Espírito Santo e Matheus Fernandes visita os vizinhos londrinos do Crystal Palace (20h, DAZN) na sua luta pela manutenção.
🌊 Continua o Margaret River Pro, segunda etapa do circuito mundial de surf. Tanto Yolanda Hopkins como Francisca Veselko já foram eliminadas no quadro feminino (Sport TV ou site da World Surf League).

Terça-feira, 21

⚽ O Brighton recebe o Chelsea de Pedro Neto (20h, DAZN) e, na La Liga, o Real Madrid acolhe o Alavés (20h30, DAZN) para não perder mais terreno face ao Barça.

Quarta-feira, 22

🏀 Os San Antonio Spurs e os Portland Trailblazers disputam o segundo jogo dos play-offs da NBA (1h, Sport TV1).
🎾 Começa o torneio Masters 1000 de Madrid, um dos mais importantes da época de terra batida do ténis (o quadro masculina passa na Sport TV, o feminino na DAZN). Vai até 3 de maio.
⚽ O Manchester City de Bernardo Silva, Rúben Dias e Matheus Nunes visita o Burnley na Premier League (20h, DAZN) e, em Espanha, o Barcelona de João Cancelo abre Camp Nou para receber o Celta de Vigo (20h30).
⚽🏆 O FC Porto é anfitrião do Sporting na 2ª mão das meias-finais da Taça de Portugal (20h45, RTP1).

Quinta-feira, 23

🏀 NBA: os Oklahoma City Thunder defrontam os Phoenix Suns no play-off (2h30, Sport TV1).
🎾 Masters de Madrid (a partir das 10h, Sport TV e DAZN).
⚽ O Casa Pia e o SC Braga jogam a partida em atraso da 26ª jornada do campeonato (20h15, Sport TV1).
⚽🏆É a vez do Torreense, da II Liga, jogar em sua casa com o Fafe, da Liga 3, para decidirem quem segue para a final da Taça de Portugal (20h45, Sport TV2).

Sexta-feira, 24

🎾 Masters de Madrid (a partir das 10h, Sport TV e DAZN).
⚽ O Nottingham Forest de Vítor Pereira desloca-se ao nordeste inglês para defrontar o Sunderland na Premier League (20h, DAZN).
⚽ Arranca a 31ª jornada da I Liga com o Alverca-Arouca (20h15, Sport TV).

Sábado, 25

🎾 Masters de Madrid (a partir das 10h, Sport TV e DAZN).
🤾 Benfica e Sporting defrontam-se no Pavilhão da Luz (17h, BTV) para um dérbi da fase final do campeonato nacional de andebol.
⚽ Continua a I Liga: Tondela-Nacional (15h30, Sport TV), Benfica-Moreirense (18h, BTV) e Vitória-Rio Ave (20h30, Sport TV).

Domingo, 26

🎾 Masters de Madrid (a partir das 10h, Sport TV e DAZN).
⚽ Mais I Liga: Estoril Praia-Famalicão (15h30, Sport TV), Santa Clara-SC Braga (18h, Sport TV), Estrela da Amadora-FC Porto (18h, Sport TV) e AFS-Sporting (20h30, Sport TV).

Hoje deu-nos para isto

Rafa sentado na relva após marcar o golo que deu a vitória ao Benfica no dérbi em casa do Sporting
Pedro Nunes

Perder faz parte do futebol e ouvir Rui Borges dizê-lo findaa derrota contra o Benfica, em Alvalade, soa a facto mas também a pouco, as derrotas claro que são fatia da tarte do desporto só que o treinador do Sporting já se munira da frase contra o Arsenal e o dérbi, acabando como acabou, consumou um facto desta época: para o campeonato, os leões não venceram qualquer partida contra os quatro primeiros classificados.

Resumindo, esta derrota frente os encarnados sucedeu a um empate na Luz, contra o FC Porto perdeu em casa e empatou no Dragão e ambos os jogos com o SC Braga culminaram em igualdades. O magro pecúlio atesta a incapacidade de o Sporting se superiorizar aos ditos grandes no campeonato apesar de possuir, de longe, o melhor ataque (74) da prova, o jogador que mais golos marca (24) e o consenso de ter o futebol ofensivo mais dinâmico.

Ganhar aos principais rivais devia fazer parte dos leões enquanto equipa montada para ser campeã, não é obrigação para se chegar ao título embora muito complicado fique esse objetivo se uma equipa não o lograr, assim como não perder perante qualquer um destes adversários suponha que a autora da façanha seja a equipa mais próxima de acabar na liderança.

O Benfica orientado pelo homem que encostou um dedo nas suas siglas bordadas na camisola que trazia vestida e depois tocou com o mesmo na cabeça empatou duas vezes com o FC Porto, venceu agora o Sporting após uma igualdade e falta-lhe receber os bracarenses após dois golos para cada lado em Braga. Com José Mourinho os encarnados ainda não perderam no campeonato e seguem no 2º lugar dependente do que faça o Sporting, no jogo que tem a menos.

Gabou-se dessa evidência provavelmente para fortalecer o seu papel no feito, portanto, no mesmo dia vimos um treinador a inflacionar a ausência de derrotas apesar de nenhum título ir conquistar esta época e outro a relativizar que as derrotas fazem parte quando está num clube que vive para as vitórias. Vimo-los então a agarrarem-se ao que podem, mesmo se Mourinho já não possa conquistar troféus este temporada e Borges corra o risco de o imitar.

Tenha uma boa semana agora que o clima nos vai banhando com sol. Obrigado por nos ler e acompanhar aí desse lado no site da Tribuna Expresso, onde poderá seguir a atualidade desportiva e as nossas entrevistas, perfis e análises. Siga-nos também no Facebook, Instagram e no Twitter. Escute ainda o nosso podcast “No Princípio Era a Bola”, no qual tentamos descomplicar o futebol com o Tomás da Cunha e o Rui Malheiro.

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