No outro dia, pensei em tomar um antialérgico, mas suspeito que as ciências farmacêuticas ainda estejam aquém no desenvolvimento de uma solução para este problema. Contorço-me com a banal atribuição do distintivo de histórico a clubes que, desportiva e socialmente, nada fizeram para o merecer. Compreendo que seja um termo que o algoritmo aprecia, mas tão vulgar recurso a ele descredibiliza as equipas que verdadeiramente o são, como o Boavista.
As notícias recentes quase fizeram com que a última frase fosse escrita no passado. “O Boavista encerrou atividade.” Os humanos não foram dotados de amabilidade suficiente para comunicarem falecimentos sem causarem dor, mas esta está seguramente entre as maneiras mais rudes de se transmitir informação sobre uma morte.
Há uma diferença entre apoiar um clube por obrigação cultural e dedicar a vida a um símbolo. Quando se adota uma equipa, há mais um membro da família a sentar-se à mesa. No caso do adepto ser casado, convém até avisar a parelha de que está numa relação poliamorosa. Os tempos livres são aqueles escassos momentos em que, além de não haver trabalho, também não há um jogo ao qual é impreterível não faltar.
Desde 1903 que o Boavista é esta paixão incondicional para muita gente. Independentemente do limbo em que se encontra, a eternização dos axadrezados ficou a cabo de um título de campeão nacional (2000/01), um marco contracultural num país viciado em três cores. Ganhou ainda cinco Taças de Portugal e três Supertaças, conquistas cujos respetivos troféus foram incluídos nos bens que o tribunal decretou terem que ser colocados a leilão. Não é, de todo, disso que quero falar.
Preparam-nos para sentir luto por pessoas, algumas delas bastante próximas, nunca por um clube que julgamos ser uma fonte de alegria desde o momento em que o elegemos até ao último dia das nossas vidas. O desaparecimento do Boavista pode deixar uma massa adepta viúva, sem saber o que fazer com as horas anteriormente usadas para ir ver um jogo fora ou com o tempo gasto a inventar novos cânticos. Nem sempre há amanhã para aquilo que damos como garantido. No que a todos nós diz respeito, assistimos ao colapsar de uma parte relevante do futebol português, algo que é revelador da sua saúde.
Infelizmente, a última imagem que teremos do Boavista na I Liga é a de um grupo de jogadores contratados no centro de emprego treinados por um globetrotter. A descida de divisão foi uma completa inevitabilidade e, depois de não se ter conseguido inscrever nos escalões profissionais, o clube acabou no patamar mais rasteiro do futebol distrital, onde também não conseguiu reunir as condições para competir.
Há um ano, o Boavista foi declarado insolvente, mas sobreviveu apesar das dívidas de €150 milhões. No entanto, o clube foi agora impedido de continuar em atividade por falhar o pagamento aos credores, decisão que afeta 1500 atletas e 31 modalidades. Quem já parecia estar a adivinhar tudo isto, incluindo os efeitos malignos da desertora SAD, era a claque. Prevendo o desfecho ruinoso, os Panteras Negras criaram um clube que compete na distrital do Porto e que vai galgando divisões para, um dia, ceder os direitos desportivos ao clube que apoiam e encurtar o caminho de regresso ao topo.
A direção, liderada por Rui Garrido Pereira, tem na manga um plano de recuperação que pretende evitar o triste fado. Por agora, um grupo de sócios, adeptos e encarregados de educação angariou €50.000 e continua a aceitar donativos que permitam evitar que 2026 conste na lápide como o fim dos axadrezados. A propósito do “Movimento Salvar o Boavista”, que já alcançou o estrangeiro, um adepto inglês escreveu: “Estou convicto de que nenhum clube de futebol deve morrer. Os adeptos dão tudo pelos clubes e espero que consigamos impedir a queda deste grande.” Será o fenecer definitivo ou haverá vida além disto?
O que se passou
A jornada inaugural da I Liga já está agendada, mas até lá a pré-época continua. O Benfica deu seguimento aos preparativos para a estreia oficial na nova época. Com o mercado a ter efeitos assinaláveis no plantel, o Sporting também vai aquecendo os motores.
Kimi Antonelli voltou às vitórias em Spa e reforçou a liderança do Mundial de Fórmula 1.
Francisco Cabral, em dupla com Theo Arribage, esteve perto de conquistar o torneio de Bastad, mas perdeu na final.
Numa final 100% portuguesa, Teresa Bonvalot superou Francisca Veselko e venceu o Ballito Pro, etapa do circuito Challenge Series de surf.
Zona mista
“O Tour não vai ser o mesmo sem o Jonas Vingegaard”
Apesar de ter a atmosfera a separá-lo da concorrência, Tadej Pogačar lamentou que o principal rival tenha sido forçado a abandonar a Volta a França devido a uma queda sofrida na etapa 15. Em mais um ato de classe, o esloveno questionou o impacto que os testes antidoping a que ambos foram sujeitos durante a madrugada pode ter tido na concentração do dinamarquês.
O que vem aí
Segunda-feira, 20
⚽ Jogo de preparação: Sporting-Estrasburgo (20h15, TVI)
Terça-feira, 21
🚴 Volta a França: etapa 16 (11h45, Eurosport 1)
Quarta-feira, 22
🚴 Volta a França: etapa 17 (12h15, Eurosport 1)
⚽ Jogo de preparação: Gil Vicente-FC Porto (20h, Sport TV1)
Quinta-feira, 23
🚴 Volta a França: etapa 18 (11h30, Eurosport 1)
⚽ Pré-eliminatória, Liga Europa: St. Gallen-Benfica (19h, Sport TV5)
Sexta-feira, 24
🚴 Volta a França: etapa 19 (12h45, Eurosport 1)
Sábado, 25
🚴 Volta a França: etapa 20 (10h, Eurosport 1)
⚽ Jogo de preparação: Sporting-Mónaco (19h30, Sport TV1)
⚽ Jogo de preparação: FC Porto-Aston Villa (20h, Sport TV)
Domingo, 26
🚴 Volta a França: etapa 21 (15h, Eurosport 1)
🏎️ Fórmula 1: Grande Prémio da Hungria (14h, DAZN)
Hoje deu-nos para isto
Por ter sido tão simbólico, o golo de Ferran Torres é candidato a ir parar a t-shirts ou a ser recriado em tatuagens. Veja-se, por comparação, o quão memorável se tornou o remate de Andrés Iniesta no Mundial 2010. O momento decisivo da final de 2026, garante da segunda estrela, terá igualmente um lugar especial no imaginário do futebol espanhol. “Foi o golo de 47 milhões”, assim descreveu o jogador do Barcelona, dedicando o espaço para a assinatura do autor a toda a população.
Agora que a Espanha é campeã do mundo, está na altura de serem cobradas as promessas disparatadas que foram feitas quando a conquista não parecia tão realista quanto se veio a tornar. Por si, Marc Cucurella tinha já saído do MetLife Stadium com o rosto de Luis de la Fuente impregnado na pele. “Tenho que pensar onde a vou fazer”, refletiu o lateral que será cobrado pelo selecionador. “Se dizem uma coisa, têm que a cumprir.”
A seleção espanhola açambarcou as distinções individuais: Rodri foi considerado o melhor jogador, Unai Simón o melhor guarda-redes e Pau Cubarsí o melhor jovem. Nem a bizarra presença de Donald Trump no palanque onde a festa decorreu estragou o gáudio espanhol. Um bom editor de imagem consegue retirar das fotografias o presidente dos Estados Unidos, alocado a um pequeno canto aquando do erguer do troféu.
Ao mesmo tempo que as vertigens da taça eram testadas com tantas idas ao céu, os jogadores argentinos contemplavam a bancada atrás de uma das balizas. Os adeptos despediram-se de um Messi impotente e de lágrimas nos olhos. A albiceleste não conseguiu proporcionar ao seu jogador de culto o adeus perfeito aos Mundiais. 120 minutos de futebol se passaram sem que a Argentina enquadrasse qualquer remate com a baliza, desempenho insuficiente para contrariar a Espanha.
O intervalo de mais de 27 minutos para escusado entretenimento extra impôs até ao último dia a plasticidade do Mundial 2026, um alargado congresso de seleções que falhou no respeito pela dignidade humana e que foi incapaz de proporcionar iguais condições competitivas a todos os países. Tantas roupagens se quis dar ao torneio que este, ironicamente, foi vencido por uma equipa que respeita em tudo a estética do jogo.
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