Odeio Futebol Moderno

Das cinzas de uma bola de futebol

O futebol de topo transformou-se em “Fifalândia”: um holograma supranacional que se alimenta de uma paixão que despreza. No próximo Mundial os estádios estarão cheios. Os operadores facturarão como nunca. Mas nos relvados cristalinos da NFL não será bem futebol que se jogará. Será antes o fruto eficiente e desencarnado de uma cegueira por excesso de altitude

O futebol ainda se chama futebol. Mas há cada vez menos rigor nesse nome. Como chamar “Aventura” a um formulário das Finanças. Ou ‘Antonioni’ a um Toninho. O jogo afastou-se de nós. Não por maldade, mas por crescimento descontrolado, como quem padece de gigantismo. Entre o futebol e os adeptos abriu-se um fosso que já não é apenas moral ou sentimental. É um fosso material. Um abismo de dinheiro, de dispositivos, de distância. O futebol de topo tornou-se um impulso caro, um capricho abstracto, uma fantasia irrespirável. E cada vez menos físico.

Escrevo este preâmbulo a pensar no Verão que se aproxima e no Mundial que se jogará nos Estados Unidos, México e Canadá. Será o Mundial perfeito. Perfeito como um Tesla. Confirmará o que já sabemos, mas preferimos guardar para nós: o mais materialista dos desportos transformou-se no mais desmaterializado dos jogos e, ao acontecer em todo o lado, acontece agora em lado nenhum. A ideia não é minha. Num artigo recente da Times Literary Supplement, sob o título cruel de “Money Ball”, o americano Mike Jakeman explica, a partir de dois livros sobre a história do Mundial, como o torneio deixou de precisar de países. Só precisa de um anfitrião, como quem precisa de uma tomada. Depois é ligar à corrente e o aparelho replica o modelo segundo um manual de instruções global, no qual o lugar é acessório e a geografia irrelevante.

Aqui entre nós, que não há quem nos ouça: ninguém com dois dedos de horizonte quer saber do topo. O topo está perdido — e gosta de estar perdido. Inspira-nos muito mais o outro lado do fenómeno. As pessoas não deixaram de precisar do futebol. Continuam à procura da fraternidade, do território e do risco que sempre encontraram nele. E quando já não encontram poiso no cume da montanha, fazem o que os homens sensatos sempre fizeram: descem. Escavam. Procuram no subsolo das ligas inferiores. E encontram.

É isso que explica o novo entusiasmo pelos clubes pequenos. Não só como folclore — porque nisto o folclore é fundamental —, mas como último reduto de materialidade. Lugares onde o futebol tem chão e nome próprio. O caso do Atlético, sobre o qual já escrevi, não é uma excepção, mas um sintoma.

À medida que o futebol global se torna um não-lugar, os adeptos voltam a procurar lugares. Seja onde for. Na Tasmânia, se for preciso. Ou a cinquenta quilómetros de Elvas, em Jerez de los Caballeros. Souberam dessa história? Conto-a em três linhas.

Há cerca de um ano, no podcast Falsos Lentos, começou-se a torcer, em tom de piada privada, por um clube obscuro da quinta divisão espanhola: o Jerez Club de Fútbol, perdido algures na região da Extremadura. A piada começou a crescer, e, às tantas, quando deram por isso, havia não sei quantos autocarros cheios a caminho do vilarejo espanhol, para apoiar o clube local.

Ora, quinhentas pessoas não fazem centenas de quilómetros por uma alucinação colectiva. Quer dizer, até fazem. Mas estes adeptos, mesmo que motivados por um tanglomanglo eficaz, foram em busca de algo tragicamente sério. Saíram de casa à procura de casa. Que é o que todo o homem tem feito desde que Adão nos perdeu o Paraíso. Como despojados da batalha de Tróia que é o futebol moderno, lá foram eles: Ulisses de camisola verde e preta, em direcção a uma Ítaca no Reino de Castela.

Ao emancipar-se do mundo real, o futebol de topo transformou-se no que Mike Jakeman chamou “Fifalândia”: um holograma supranacional que se alimenta de uma paixão que despreza. No próximo Verão os estádios estarão cheios. Os operadores facturarão como nunca. Mas nos relvados cristalinos da NFL não será bem futebol que se jogará. Será antes o fruto eficiente e desencarnado de uma cegueira por excesso de altitude.

Cá em baixo, porém, não queremos saber de eficiência para nada. Interessa-nos a vida que se pode encontrar na Tapadinha, no Carlos Salema, no Abel Alves Figueiredo, no Campo Estrela em Évora, ou até numa aldeia perdida de uma Espanha improvável. Mesmo que suja, mesmo que trapalhona, é outra coisa que se joga. Tecnicamente inferior, é certo — como quase tudo o que vale a pena. Mas com a alma que só os lugares verdadeiros possuem: “Home is where I want to be”, dizia o David Byrne. E dizia bem.

Ontem foi Quarta-feira de Cinzas. Na testa dos católicos impõe-se o pó como quem impõe a morte no corpo que se descobrirá renascido quarenta dias depois. É isso que está aqui em causa. Por isso tenhamos fé, companheiros. Ao contrário das visões mais pessimistas, o que nasce das cinzas de uma bola de futebol não é um produto. É um lugar.

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.

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