Este é um Benfica estranhíssimo. Incapaz de resolver um jogo, mas sempre preparado para interpretar o seu próprio fracasso. Incapaz de ganhar, mas continua a explicar-se com um fulgor inabalável. Com um treinador que domina a arte da conferência de imprensa com uma competência que a equipa nunca chegou a mostrar dentro das quatro linhas
Esta Segunda-feira, contra o Casa Pia, o Benfica perdeu o campeonato da maneira mais 2025/26 possível: empatando. O que nos foi dado a padecer esta época foi uma equipa que perde porque empata. Não houve estrondo. Não houve desonra épica. Nada que tivesse a delicadeza de abalar as fundações do adepto e arrancá-lo da letargia. Em vez disso, mais uma dessas exibições em que a equipa parece entrar em campo com a secreta esperança de que o tempo resolva por ela o que ela não sabe resolver por si.
E assim, por mérito inteiramente seu, chegou à 28ª jornada, com o pior registo pontual nas últimas quatro épocas. Também a mediocridade, caro leitor, quando é trabalhada com método, acaba por merecer o seu lugar na história.
Dir-se-á, não sem razoabilidade, que a culpa é de Mourinho. A tentação é grande. Mourinho pede a culpa com a mesma convicção com que pede a palavra. Há nele o instinto cénico de ocupar o centro. Na Segunda-feira, ao despedir-se do título, voltou a fazê-lo com a elegância dos grandes protagonistas. Perde, mas fala acima da perda. Falha, mas fala acima da falha. É um dom. Talvez, nesta altura da carreira, o maior.
Mas seria curto, e até injusto, ficar por aí. Porque o problema do Benfica não é ter contratado Mourinho. Pelo contrário. O problema é o motivo pelo qual Mourinho foi contratado. Mourinho não foi chamado para treinar uma equipa. Foi chamado para proteger uma direcção. Para comparecer diante dos microfones e oferecer aquela formulação, aquele recado, aquela frase de efeito, toda essa cortina verbal atrás da qual se pudesse abrigar a pusilanimidade de quem precisa de um nome maior para exercer o poder.
A tristeza do Benfica, a alegria do Casa Pia pelo golo de Rafael Brito
Na Segunda-feira, por exemplo, Mourinho voltou a mostrar aquilo para que ainda serve: o domínio da frase. “Tinha vontade de fazer jogar mais alguns jogadores, mas há valores mais altos.” E logo depois: “Sim, eu gostaria de continuar no Benfica.” Houve um tempo em que se lhe exigia que pusesse uma equipa a jogar. Hoje basta-lhe dizer duas frases, abrir uma intriga e tomar conta da noite. Para a função que esta direcção lhe reservou, é o homem perfeito.
O problema é que o Benfica precisava de um treinador.
Com todas as limitações, com toda a sua mediania, até Bruno Lage pôs este Benfica a jogar melhor à bola do que Mourinho. Dizer isto não é elogiar Bruno Lage. É reconhecer que um dos nomes mais pesados, mais teatrais e mais caros do futebol europeu, chegou à Luz para tornar mais pomposa a esterilidade do Benfica actual. Com Bruno Lage havia, ao menos, por vezes, futebol. Cumpridos os primeiros dez minutos de jogo em Rio Maior, a questão que brotava com naturalidade no adepto era se o Benfica treinava durante a semana — e, se sim, se o fazia com recurso a uma bola.
No fim do jogo, os jogadores cumpriram a sua parte dizendo a verdade mais inútil de todas. “A culpa é nossa”, resumiu Otamendi. E é verdade, claro. Todas as derrotas são colectivas, todos os falhanços se repartem pelo balneário. Mas há culpas menos democráticas do que outras. Mourinho foi contratado para salvar umas eleições, não para reconstruir uma equipa. É esse o pecado original. Era preciso corrigir uma equipa mal escolhida, mas preferiu-se erguer um muro à volta da mediocridade institucional.
O resultado é um Benfica estranhíssimo. Incapaz de resolver um jogo, mas sempre preparado para interpretar o seu próprio fracasso. Incapaz de ganhar, mas continua a explicar-se com um fulgor inabalável. Com um treinador que domina a arte da conferência de imprensa com uma competência que a equipa nunca chegou a mostrar dentro das quatro linhas.
É como se estivéssemos em suspenso. Um clube de febre e melodrama, de apocalipse e ressurreição, abandonou-se a uma deriva que só continua por inércia. Faz lembrar O Estado das Coisas do Wim Wenders: aquela gente parada, aquela espera, aquela obra sem andamento. Onde devia estar uma equipa de futebol, arrasta-se um grupo de homens ociosos. Onde devia estar o Benfica, paira esta coisa vaga, dispersa; uma espécie de ausência, uma sensação de vazio.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.