Cristiano é o jogador perfeito para a Liga das Nações. Numa competição cuja primeira fase consiste, essencialmente, em 15 dias sem futebol, um jogador que já não o tem é o jogador certo: quer jogue, quer não jogue, contribui sempre para a singularidade não-futebolística da quinzena
Quando alguém pronuncia as palavras “pausa para as selecções”, o adepto reage logo. Reage logo, mas reage breve. É preciso estar atento. Na maioria das vezes, só o olho mais treinado é capaz de captar o fenómeno: uma brevíssima retracção dos lábios, um ligeiro recuo do queixo e da nuca, um piscar de olhos só um pouco mais lacónico do que o habitual. Coisas mínimas. O adepto sente-se despojado. Atravessa-lhe a alma uma morrinha, qualquer coisa banza, uma saudade.
Quase de certeza que já disse isto aqui e, se não disse, é como se já o tivesse dito, tal a recidiva da ideia: sempre que a Selecção Nacional joga há uma fada que morre na Terra do Nunca.
Pronto, estou a ser injusto. Ou talvez não. Ou nem tanto? Não interessa. O ponto é este: o adepto quer ver o seu clube jogar e não o deixam. Persevera durante a pré-temporada e durante os certames que a nossa selecção teima em disputar. Mas só quer ver Agosto chegar, esse mês de praia, peixinho e futebol. É uma maravilha. Este ano foi duro, mas ao menos valeram-nos as cadernetas. Pois agora servem-nos Liga das Nações ou, como diz o meu amigo Vasco, que toca bateria e sabe o que diz: “Essa grande competição sem objectivo nenhum.”
Não há nada mais desmoralizante para o adepto. São quinze dias, amigos. Quinze dias. Uma vida. Em quinze dias um homem escreve um romance, monta um puzzle de 103 mil peças, vai à Nova Zelândia e regressa e, em certos casos de excepcional capacidade de organização, faz as três coisas ao mesmo tempo. Entretanto, algures na Dinamarca, na Turquia ou na Eslovénia, vinte e cinco infelizes — ou talvez não tão infelizes, consideradas as respectivas folhas salariais — são arrancados aos clubes e postos a correr atrás de uma bola.
É o hat-trick da estultícia: primeiro, adeptos frustrados porque ficam sem os seus clubes; segundo, um torneio menos do que morno; terceiro, um conjunto de jogadores talentosos que regressará estoirado aos respectivos emblemas.
Felizmente, temos Cristiano Ronaldo!
Cristiano Ronaldo a segurar um copo no relvado do estádio de Malmö, onde compareceu mas não chegou a treinar com a seleção nacional
Cristiano Ronaldo é o jogador perfeito para a Liga das Nações. Se não fosse ele, este lamento tinha acabado, sem remissão, no parágrafo anterior. Numa competição cuja primeira fase consiste, essencialmente, em quinze dias sem futebol, um jogador que já não o tem é o jogador certo: quer jogue, quer não jogue, contribui sempre para a singularidade não-futebolística da quinzena.
Jorge Jesus, por seu turno, é o pior treinador possível para uma competição com estas características. O nosso seleccionador nacional, coitado, sofre daquela bizarra condição que aparece em adeptos e treinadores e dá pelo nome de “gostar de futebol”. É uma doença cada vez mais rara. Mas existe. E um dos sintomas desse estranho padecimento é escolher para jogar os que jogam melhor e deixar sem jogar os que jogam pior. Mesmo num torneio desta natureza — ou talvez sobretudo num torneio desta natureza — seria inevitável que o número sete acabasse no banco.
Mas o número sete não gostou. E a Liga das Nações começou.
“Cristiano Ronaldo abandona o relvado.” “Cristiano Ronaldo não agradece aos adeptos.” “Cristiano Ronaldo não treina e regressa ao hotel.” “Cristiano Ronaldo deixa um coração seguido das letras pê e tê nas redes sociais.” “Portugal: réunion de crise organisée en urgence pour Cristiano Ronaldo!” “Cristiano Ronaldo skips the family trip as Georgina Rodríguez and the kids enjoy Céline Dion.” Pode não haver futebol. Cristiano, multiplica-se.
É admirável. Com bola, sem bola, em campo, no banco, em alta, em baixa, Cristiano Ronaldo factura e faz facturar. Já não é um homem. É uma economia. O que é um problema: um homem reforma-se, uma economia entra em recessão.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
E escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.
‘Odeio Futebol Moderno’ é um espaço de opinião sobre atualidades futebolísticas da perspetiva de um romântico entalado num tempo em que não se reconhece.